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O Corona e os direitos humanos – edição bilíngue

Quando eu iniciei a atender partos, há 37 anos, a presença do pai – ou de qualquer acompanhante – era uma concessão do “chefe de plantão”, aquele médico que, por antiguidade ou posição formal, determinava as regras dentro do centro obstétrico. Não havia a compreensão de que, a entrada no recinto do centro obstétrico ao lado de seu marido ou de uma pessoa de sua confiança, era um direito das mulheres. Entretanto, no nascimento dos meus filhos eu fui agraciado com a possibilidade de estar presente, mas apenas por ser estudante de medicina no mesmo hospital onde eles nasceram. Essa experiência acabou moldando minha escolha posterior pela ginecologia e, em especial, pela obstetrícia.

Minha atuação como obstetra se iniciou exatamente nessa virada de ciclo. Em meados dos anos 80 já chegavam a nós matérias jornalísticas dos Estados Unidos e da Europa em que o marido aparecia ladeando sua esposa no momento do nascimento. Essas imagens mostravam homens se desmanchando em pranto e emoção diante da maravilha do nascimento, novamente revelado aos olhos masculinos depois de centenas de anos escondidas – seja no ambiente doméstico exclusivo das mulheres, seja dentro dos hospitais sob os cuidados dos profissionais de saúde. Para mim, essa pequena revolução na estética dos partos foi um dos mais importantes fatos ocorridos durante a minha formação.

Assim, após ter passado pelos partos dos meus filhos como acompanhante, se tornou impossível impedir a presença de outros pais nesse momento. Todavia, eu esbarrava muitas vezes nos protocolos rígidos e nas rotinas dos hospitais onde trabalhei, desde a mais simples proibição determinada pelo diretor da maternidade, até o impedimento de amigas, mãe ou companheira, com a desculpa de que apenas o marido poderia ser admitido. Fui obrigado – desde cedo – a enfrentar o conservadorismo da obstetrícia para garantir a estas mulheres a presença apaziguadora de um olhar amigo, e para os maridos uma experiência transformadora. Nunca foi bem aceito pelos meus pares, fui atacado e tratado com escárnio, porque viam nessa iniciativa uma interferência no seu trabalho e, acima de tudo, uma ameaça aos poderes instituídos na atenção ao parto.

Foi com muita luta que estabeleci um protocolo pessoal que incluía o marido na sala de parto. Foi necessário romper as barreiras do preconceito, os mitos da “fragilidade dos homens com o sangue” e a falsa ideia de que os acompanhantes “tocam” em material estéril nas salas de parto e, assim, colocam em risco biológico – tanto as mães quanto os bebês. Nada disso era baseado em evidências científicas; não havia qualquer prova de que acompanhantes prejudicavam o atendimento, mas todos sabiam – por um saber inconfesso – que esta presença ameaçava diretamente a onipotência do profissional médico, cujas ações seriam agora testemunhadas por pessoas da família.

Não foi fácil estabelecer esta norma, mas foi necessário fazer uso da lei para que esta medida, que pode ser facilmente entendida como um direito humano natural e óbvio, fosse cumprida na íntegra. No Brasil, no ano de 2005, por iniciativa de ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – foi assinada a “lei do Acompanhante”, que garantia às mulheres do sistema público e privado a presença de um acompanhante de livre escolha para todas as gestantes atendidas em hospitais de todo o país. Foi uma grande vitória da humanização do nascimento pela autonomia das mulheres sobre seus corpos.

A crise do Corona vírus agora nos apresenta um novo desafio. As conquistas de décadas de luta podem ser colocadas de lado em nome da segurança biológica. Certamente que não podemos colocar a vida das pacientes em risco, mas isso não nos permite retirar delas direitos humanos duramente conquistados. Segundo as palavras do colega obstetra brasileiro Edson Souza a “Conferência de Siracusa estabeleceu uma categoria de direitos humanos que jamais são derrogáveis, não importa o quanto o estado de emergência ou calamidade ameacem a vida de uma nação. São aqueles que garantem o direito à vida e à dignidade humana, ou seja, uma vida livre de tratamento desumano, cruel ou degradante. Assim sendo, a exclusão do acompanhante durante o trabalho de parto poderá se associar a sentimentos de medo, desconforto, solidão, ansiedade e stress pela parturiente, e tem sido interpretada como uma forma de tratamento desumano, degradante e violento”.

O momento é delicado e especial. Uma pandemia associada ao modo de vida capitalista produz uma encruzilhada. Podemos reforçar os laços que desde a mais remota ancestralidade foram essenciais para o sucesso de nossa empreitada humana, como a comunicação, a fraternidade e a solidariedade. Temos a chance de estreitar os laços que nos fazem humanos e criar uma nova humanidade a partir dessa experiência. Podemos, entretanto, manter a rota destrutiva do egoísmo, da iniquidade, da exploração e do afastamento entre os seres humanos. Essa escolha é nossa. Cada ser que entra neste mundo será marcado por nossas escolhas. Mas é certo dizer que aqueles que entram pelo carinho da família, do aconchego e da presença amorosa terão uma chance muito maior de se tornarem verdadeiros cidadãos.

Não esqueçam que “Para mudar o mundo é necessário mudar a forma de nascer”, como diria Michel Odent.

Espanhol

Cuando comencé a asistir a partos hace 37 años, la presencia del padre, o de cualquier compañero, era una concesión del “jefe de la guardia”, ese médico que por antigüedad o posición formal determinaba las reglas dentro del centro obstétrico. No se entendía el derecho de las mujeres a ingresar al recinto del centro obstétrico junto a su esposo o una persona de su confianza. Cuando nacieron mis hijos, tuve la oportunidad de estar presente, pero solo por ser estudiante de medicina en el mismo hospital donde nacieron. Esta experiencia terminó dando forma a mi elección posterior para la ginecología y, especialmente, para la obstetricia.

Mi trabajo como obstetra comenzó exactamente en este giro del ciclo. A mediados de la década de 1980, nos llegaron artículos periodísticos de Estados Unidos y Europa cuando por primera vez el esposo apareció junto a su esposa en el momento del nacimiento. Estas imágenes mostraban a los hombres rompiendo en llanto y emoción ante la maravilla del nacimiento, nuevamente revelados a los ojos masculinos después de cientos de años ocultos, ya sea en el exclusivo entorno familiar de las mujeres o en hospitales bajo el cuidado de profesionales de la salud. Para mí, esta pequeña revolución en la estética del parto fue uno de los eventos más importantes que ocurrieron durante mi entrenamiento.

Para mí, después de pasar por los nacimientos de mis hijos como acompañante, era imposible evitar la presencia de otros padres en ese momento, pero a menudo me topé con los protocolos y las rutinas de los hospitales donde trabajaba. Desde la prohibición más simple determinada por el director de maternidad, hasta el impedimento de amigos, madre o pareja, ya que sólo el esposo podría ser admitido. Desde muy temprana edad, me vi obligado a enfrentar el conservadurismo de la obstetricia para garantizar a estas mujeres una presencia calmante y para sus esposos una experiencia transformadora. Nunca fue bien aceptado por mis compañeros, quienes vieron en esta iniciativa una interferencia en su trabajo y, sobre todo, una amenaza para los poderes instituidos en el cuidado del parto.

Con mucha lucha establecí un protocolo personal que incluía al esposo en la sala de partos. Era necesario romper las barreras del prejuicio, los mitos de la “fragilidad de los hombres con sangre”, la falsa idea de que los compañeros “tocan” material estéril en las salas de partos y, por lo tanto, ponen a las madres y a los bebés en riesgo biológico. Nada de esto se basó en evidencia científica, nunca hubo demostración de que los compañeros perjudicaran el servicio, pero todos sabían, por un conocimiento incierto, que esta presencia amenazaba directamente la omnipotencia del profesional médico, cuyas acciones ahora serían presenciadas por miembros de la familia.

No fue fácil establecer esta regla, pero fue necesario hacer uso de la ley para que esta medida, que puede entenderse fácilmente como un derecho humano natural y obvio, se cumpla por completo. En Brasil, en 2005, firmamos la “Ley de Acompañantes” que garantiza a las mujeres en el sistema público y privado la presencia de un compañero de libre elección para todas las mujeres atendidas en hospitales del país. Fue una gran victoria para la humanización del nacimiento y la autonomía de las mujeres sobre sus cuerpos.

La crisis del virus Corona ahora nos presenta un nuevo desafío. Los logros de décadas de lucha pueden dejarse de lado en nombre de la seguridad biológica. Seguramente no podemos poner en riesgo la vida de los pacientes, pero eso no nos permite quitarles los derechos humanos que tanto les costó ganar. En palabras del colega obstetra brasileño Edson Souza, la “Conferencia de Syracuse estableció una categoría de derechos humanos que nunca son derogables, sin importar cuánto amenace el estado de emergencia o la calamidad a la vida de una nación. Son aquellos que garantizan el derecho a la vida y la dignidad humana, es decir, una vida libre de tratos inhumanos, crueles o degradantes. Por lo tanto, la exclusión de un compañero durante el trabajo de parto puede estar asociada con sentimientos de miedo, incomodidad, soledad, ansiedad y estrés por parte de la parturienta, y ha sido interpretada como una forma de trato inhumano, degradante y violento”.

El momento es delicado y especial. Una pandemia asociada con el estilo de vida capitalista produce una encrucijada. Podemos reforzar los lazos que fueran esenciales para el éxito de nuestro esfuerzo humano, como la comunicación, la fraternidad y la solidaridad. Tenemos la oportunidad de fortalecer los vínculos que nos hacen humanos y crear una nueva humanidad a partir de esa experiencia. Sin embargo, podemos mantener el camino destructivo del egoísmo, la iniquidad, la explotación y la distancia entre los seres humanos. Esa elección es nuestra. Cada ser que entre en este mundo estará marcado por nuestras elecciones. Sin embargo, es posible decir que aquellos que ingresen en este mudo través el cuidado de la familia, el calor y la presencia amorosa tendrán muchas más posibilidades de convertirse en verdaderos ciudadanos.

No se olviden qué, “Para cambiar el mundo es necesario cambiar la forma de nacer”, como dice Michel Odent.

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Entrevista Juiz de Fora

1- Como a equipe interdisciplinar pode contribuir com assistência ao parto e nascimento?

A ideia de equipe interdisciplinar foi criada a partir da própria institucionalização do parto. No passado, estas atribuições de atenção à mulher e ao recém-nascido eram assumidas pela parteira e suas auxiliares, mas uma série de mudanças na estrutura básica da atenção ao parto forçaram a diversificação destas funções. Nosso modelo passou a ser centrado no médico, e não mais na parteira. O local do nascimento passou a ser o hospital, um local construído para manter e tratar pacientes extremamente incapacitados, até para deambular (os mais saudáveis iam para “ambulatórios”) e a própria forma como encaramos o nascimento humano modificou-se profundamente. – de um processo natural para um evento médico. Os médicos são formados por 6 a 9 anos dentro da universidade para tratar doenças e oferecer intervenções que possam tratá-las, mas fica claro para qualquer observador que as gestantes NÃO são doentes e sequer precisam de quaisquer intervenções na maioria das vezes. Assim, o modelo “iatrocêntrico” (centrado na figura do médico) coloca no centro da cena do parto um técnico em intervenções que, via de regra, tem pouca ou nenhuma conexão emocional e afetiva com as pacientes a quem atende. Mais ainda, seus conhecimentos são relacionados à intervenção – que deveria ser a exceção e não a regra – e suas habilidades para lidar com as questões emocionais e psicológicas do parto estão ausentes ou são muito frágeis. Nesse contexto, percebeu-se a necessidade de que aparecesse no cenário da humanização um novo-velho personagem que pudesse oferecer os aspectos mais femininos e acolhedores que a institucionalização e a medicalização do parto nos sonegaram. Com isso surgiram as doulas em meados dos anos 80 nos Estados Unidos, e inundaram o mundo com suas habilidades de contornar os desafios emocionais que o parto reserva. Para além disso, se inicia no mundo ocidental a migração do modelo de atenção ao parto centrado no médico para as enfermeiras e obstetrizes, mas ainda assim uma atenção transdisciplinar terá sempre que contar com a presença do médico para tratar os desvios da fisiologia e a sombra da patologia.

2- Há um novo movimento que aborda a descentralização do modelo centrado no médico para dar força ao modelo de equipe interdisciplinar. Como funciona? Quais benefícios traz para o momento do parto?

Existem vários modelos aparecendo no mundo baseados na mesma premissa: a desmedicalização do parto, mudando a lógica da intervenção para a lógica do cuidado. Podemos também dizer que o que se pretende é a troca de um paradigma assistencial, deste modelo tecnocrático a que estamos sujeitos para o modelo humanizado, que se baseia em três elementos constitutivos:

  1. O protagonismo garantido à mulher, sem o qual teremos apenas um humanismo de fachada, sem profundidade;
  2. Uma visão abrangente e interdisciplinar, retirando da assistência ao parto da condição de “procedimento médico” para evento humano, sobre o qual vão incidir múltiplos pensamentos e propostas, vindas da psicologia, psicanálise, sociologia, antropologia, medicina, enfermagem e qualquer outro aspecto do conhecimento humano que se depare com as questões de nascer;
  3. Uma vinculação “umbilical”, consistente e dinâmica com a Saúde Baseada em Evidências, demonstrando que as ideias que norteiam este movimento são garantidas pelas descobertas cientificamente determinadas.

As vantagens da adoção desse modelo são inúmeras. Para além da participação efetiva da paciente nas decisões sobre seu corpo – uma questão para além da ciência, e que tem a ver com direitos humanos reprodutivos e sexuais – existem inúmeros indicadores que nos mostram que as intervenções para além da necessidade aumentam a morbimortalidade materna e neonatal. Portanto, regular estas intervenções e colocá-las dentro de limites razoáveis é uma questão que tangencia tanto os direitos humanos quanto a saúde pública.

3- Como você chegou à conclusão que o modelo atual de parto e nascimento está defasado?

Minha trajetória pessoal acabou me colocando em contato com as mulheres que davam assistência às gestantes em trabalho de parto sem serem médicas: as arteiras profissionais e as doulas (fui um dos introdutores do modelo de doulas no Brasil no início deste século). Isso pôde me mostrar o quanto existia de falha na assistência tecnocrática que eu oferecia, e que seria de enorme vantagem trabalhar com parteiras profissionais (enfermeiras ou obstetrizes) juntamente com doulas, para que o trabalho pudesse contemplar não apenas os aspectos médicos e fisiopatológicos, mas também as questões emocionais que afetam o parto. As enfermeiras e as doulas conseguiram, portanto, me mostrar que o parto é muito mais do que um evento medicamente controlado, e que em verdade é bem mais rico e abrangente do que eu jamais supunha. Além disso, meu contato com modelos de assistência ao parto de países tão díspares quanto Uruguai, Argentina, Portugal, Estados Unidos, Bulgária, México, Holanda e recentemente a China me mostrou que o caminho para um nascimento mais seguro e mais satisfatório estava ligado a aplicação de modelos humanizados ligados à garantia de protagonismo às mulheres. O mundo inteiro, na esteira das transformações sociais do final do século XX e no início do atual, nos mostram que não é mais possível tratar as mulheres como contêineres fetais e “bombas relógio” prestes a explodir, e que sua dignidade, assim como sua fisiologia, deveriam ser respeitadas.

4- Quais atitudes e mudanças devem ser realizadas pela equipe interdisciplinar para que o parto seja mais humanizado?

São muitas ações, mas todas se baseiam em uma ATITUDE diante do parto. Respeito à fisiologia, reconhecimento das necessidades ancestrais de suporte físico, psíquico, emocional, social e espiritual das gestantes. Proporcionar um ambiente adequado para a sacralidade do nascimento. Oferecer à família a possibilidade de participar do evento, quando a mãe assim o desejar. Restringir as intervenções o mais possível, dentro de limites de segurança. Cuidar a ocorrência de “verbose”, que é a doença produzida pelas palavras mal colocadas durante o processo de parto. Criar uma “psicosfera” positiva e criativa no local onde tantas transformações estão ocorrendo. Cuidar do uso exagerado de medicações, todas elas potencialmente perigosas. Respeitar os profissionais da equipe, pois deles também depende o sucesso do atendimento. Respeitar a cultura, as vontades e os desejos de quem vai parir.

5- Em um momento de reflexão você cita que “humanizar o nascimento é garantir o lugar de protagonista à mulher”. Como este ato deve ser realizado?

Sempre, durante todo o caminhar, do diagnóstico da gestação até o nascimento a mulher deve ser respeitada em suas decisões. Esta é em verdade a parte mais difícil para os profissionais que atendem: olhar a parturiente como sujeito e não mais como objeto de nossas intervenções e determinações. Sabemos que existe o que se chama de “humanismo superficial” que trata de elementos locais, arquitetônicos e de palavreado como pintar as paredes do hospital com cores agradáveis, treinar os profissionais em determinados procedimentos – como parto de cócoras ou na água – e evitar a “verbose” de termos inadequados como “mãezinha” e a infantilização do discurso dirigido à futura mãe, cheia de diminutivos e vozes melodiosas. Entretanto, todas estas ações – que são inequivocamente positivas – serão apenas “sofisticação de tutela” caso o protagonismo do nascimento não seja garantido à mulher. Sem que ela possa ser a figura principal de nossas atenções e do nosso cuidado teremos tão somente arranhado a superfície do controle patriarcal sobre o parto. Sem que seus desejos e visões de mundo sejam reconhecidos e respeitados não faremos uma verdadeira revolução no parto e ele continuará a ser o propagador de um modelo social anacrônico. “Mude o nascimento para mudar a humanidade”, já dizia o mestre Michel Odent.

6- Em um dos seus artigos você aborda a banalização da cesariana. Quais riscos as mulheres enfrentam a escolher esta modalidade de parto?

A banalização da cesariana demonstrou ser um risco à saúde das mulheres em todo o mundo, mas em especial nos países em desenvolvimento. Em um recente artigo (de algumas semanas) ficou demonstrado que, as cesarianas realizadas fora dos países desenvolvidos (do primeiro mundo), tem cem vezes mais possibilidade de produzir danos profundos à mãe. Os estudos até hoje publicados demonstram sem sombra de dúvida a potencialidade danosa das intervenções, em especial a mais radical delas: a cesariana; as dúvidas se concentram apenas no quanto de risco é associado ao procedimento. Isso não significa a demonização desta cirurgia, mas um chamado à moderação, para que ela seja somente utilizada quando houver real necessidade. Por isso mesmo é importante que busquemos nos aproximar dos exemplos de países desenvolvidos onde a atenção ao parto é colocada nas mãos de especialistas em parto vaginal: as parteiras profissionais, enfermeiras ou obstetrizes (de entrada direta), e que os partos com complicações sejam reservados aos médicos com pleno treinamento nas intervenções.

7- Quais recomendações você daria para as mulheres que estão grávidas ou pretendem ter filhos algum dia?

Informem-se sobre os seus direitos. Nunca entrem num hospital sem saber exatamente o que é garantido aos pacientes e, em especial, às grávidas e seus companheiros(as). Procurem profissionais que entendam a importância da humanização do nascimento, que conheçam e trabalhem com o suporte essencial das doulas. Investiguem o trabalho dos profissionais para saber se eles respeitam a fisiologia do nascimento – ou não. Não se deixem iludir por consultórios cheios e clínicas luxuosas; a humanização do nascimento está quase sempre vinculada à simplicidade, à sinceridade e a conexão pessoal e afetiva entre profissional e paciente. Procurem hospitais que tenham a humanização como proposta. Pesquisem sobre segurança de partos em casa de parto e domiciliares, para ver se são habilitadas para estas escolhas. Tenham confiança em sua capacidade de gestar e parir, mas mantenham uma porta aberta para a necessidade de uma intervenção. Discutam com seu cuidador, obstetra ou parteira, sobre as alternativas possíveis. Solicitem que todas as ações realizadas sejam explicadas e orientadas antes de serem feitas. Tenham fé, mas tenham cuidado.

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Primeira ação

Edward Goldberg, do catalysta.net, me pergunta – e solicita uma videoresposta: “qual a atitude que seria recomendável a profissionais e estudantes para melhorar rapidamente a assistência ao parto?

Minha resposta é a mesma há 20 anos. Como sabemos, o parto foi expropriado da cultura, sequestrado pelos médicos e escondido em hospitais. Sua estética foi separada do mundo e modificada por aqueles que o controlam. Para isso, instituiu-se um sistema baseado no medo e na desconfiança das capacidades intrínsecas femininas de gestar e parir com segurança. Como diria Max, “o parto hospitalar é como um mapa cujo percurso verdadeiro a quase ninguém é permitido percorrer. Nossa informação não é mais obtida pela experiência concreta dos relevos, aclives, declives e barreiras naturais, mas apenas por sua tosca representação bidimensional num pedaço de papel.

O nascimento, assim controlado, tem sua força transformadora cerceada e tolhida em nome da vigília sobre os corpos dóceis de que se ocupa a reprodução. Sem sua espontaneidade livre, crítica e eminentemente sexual, o nascimento é amansado, domesticado e contido.

Minha receita para os estudantes e profissionais é simples e segue o caminho que Marsden me contou – e que eu mesmo vivi na pele. Para permitir que o parto impregne de sentidos a mente de um jovem médico permitam que ele se apresente livre, sem enfeites e maquiagens. Desfaçam as amarras do autoritarismo e cortem-lhe os grilhões do medo que o aprisionam. Libertem os corpos das mulheres para que elas possam parir em liberdade. FREE BIRTH!!!

Estimular jovens profissionais a assistir partos planejados fora do ambiente hospitalar seria a ação mais rápida, mais desafiafora, mais inteligente e mais gratificante de todas possíveis. Confrontar a estética puramente sexual de um nascimento, com seu espírito selvagem e indômito, apresentaria aos jovens cuidadores a face mais verdadeira de uma mulher, a qual ficaria marcada para sempre em suas retinas, moldando a forma como as tratariam pelo resto de suas vidas. Esta atitude simples não apenas os tornaria obstetras mais respeitosos e delicados, mas também seres humanos mais justos e dignos.

Ensinar partos aos estudantes apresentando seu fac-símile hospitalar é o mesmo que orientar a sexualidade de adolescentes através da apornografia”

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Depressão puerperal em Bird Box

Recomendo não ler antes de assistir o filme…

Logo depois que assisti o filme “Bird Box”, com Sandra Bullock como protagonista do drama de suspense, percebi que havia muita gente criticando a película, tacando pau, dizendo que o filme era fraco, insosso, sem sentido e enigmático demais. Todavia, eu percebi na possibilidade de interpretar o filme pela perspectiva da depressão puerperal uma forma muito interessante de compreensão, e me baseei em vários elementos contidos no filme, os quais comentarei abaixo.

Claro, é apenas uma interpretação e o próprio Josh Malerman – o cara que escreveu o livro – poderá amanhã dar uma entrevista dizendo que seu livro é uma metáfora da “guerra do Iraque” ou o “capitalismo desenfreado“… nunca se sabe. Entretanto, olhar uma obra sob um viés diferente do PRÓPRIO AUTOR não está errado, pelo contrário. Acredito até que o escritor de qualquer obra humana “pesca” significantes do campo simbólico e os aplica numa narrativa, mas nada nos impede de ressignificá-los sob outra perspectiva. Por que não?

Existem elementos muito chamativos que nos levam a pensar na depressão puerperal, pois muitas são as metáforas insinuadas no roteiro. O filme tem simbolismos muito atraentes que podem nos levar a esta interpretação. A impossibilidade de enxergar – mas apenas fora de casa – é um deles, o que nos remete à reclusão que as puérperas sofrem, permanecendo apenas confinadas em seus domínios, isto é, a casa. A ausência do marido, por abandono, desde o inicio do filme também é elemento forte e determinante na trama. A visita à obstetra que lhe pergunta se quer saber o sexo do bebê é o elemento que inaugura o desastre.

A morte da irmã simboliza o afastamento da família e ocorre bem no início da depressão, quando o mundo convulsiona. A visita ao supermercado e o encontro das provisões fala da redução do sujeito às suas necessidades básicas. As fugas às cegas simbolizam a ausência de orientação sobre o que fazer e para onde ir. Até o casal fazendo sexo, e o riso constrangido e triste que isso lhe provocou, nos faz pensar no seu afastamento do desejo físico.

A figura hipermasculinizada do herói negro que a protege, representa a necessidade de proteção e a fragilidade do puerpério. Os múltiplos desastres nos apontam para a ideia de labirinto sem saída, o desespero para encontrar alívio para suas dores na alma. O derradeiro desafio é no rio turbulento ao lado do “garoto” e da “garota”, como a sua luta definitiva para recuperar a sanidade perdida. Após a passagem pelo rio ela escuta vozes que a toda hora lhe orientam a tirar a venda dos olhos e mergulhar para sempre na depressão, mas ela a tudo isso resiste. “Saia de perto dos meus filhos“, responde ela à Voz. Logo após, o garoto lhe diz sobre sua “irmã” “ela está com medo de você“.

Outro aspecto, para mim determinante: a ausência de nome nas crianças, como se elas não pudessem ser nominadas pela protagonista, exatamente por sua incapacidade de formar vínculos com os filhos.

O final é que permite uma idéia mais clara da questão da depressão puerperal. Quem ela reencontra no instituto para cegos? Exatamente sua médica, como que a acolhendo no retorno do período tenebroso da depressão, alguém que esteve acompanhando em pensamentos e cuidados, aguardando sua volta. Só então seus filhos são “reconhecidos” e recebem o nome que sempre tiveram, mas que nunca receberam – pois que ela jamais os aceitara por completo.

Os olhos são a chave da depressão. O olhar melancólico é o primeiro sinal que nos permite diagnosticar a depressão puerperal. Foi assim que a equipe que os recebeu na clínica de cegos analisou se ela podia ou não entrar.

Percebam que o inimigo nunca é visto. Não é palpável e, por isso mesmo, dificilmente pode ser destruído. Não há elementos evidentes (é vidente) ou facilmente detectáveis e perceptíveis na depressão puerperal; o psiquismo não está abalado por elementos fáticos objetivos, como um abandono, perda de dinheiro, falta de atenção ou de carinho. Não… na imensa maioria das vezes esses elementos não estão claramente presentes e a causa é invisível; somente o sujeito que sofre pode sentir, mesmo sem captar conscientemente.

Eu achei sedutora esta perspectiva pois nos permite uma construção interessante sobre os dramas da protagonista. O filme mistura elementos de vários outros, por certo, mas esta abordagem continua me parecendo válida. A redenção, ao final, o encontro com a médica e os nomes oferecidos aos filhos junto com a frase “eles são meus filhos” foram os elementos determinantes que me permitiram aceitar essa possibilidade de interpretação.

PS: Mais ainda… o nome do sujeito que se comunica pelo rádio com os fugitivos, o mesmo que vai resgatá-la do mundo da escuridão, é Ric, e ele tem uma comunidade. Curioso, não?

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Humanizar o Nascimento

“Humanizar o nascimento é restituir o lugar de protagonista à mulher”

Leia o artigo do médico Ricardo Jones, referência em partos humanizados no Brasil

Por Ricardo Jones

Fotos: KALU BRUM/OLHAR MAMÍFERO

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Parto humanizado ganha força no Brasil

Para muitos as últimas medidas governamentais em relação ao controle mais rígido da utilização de cesarianas(1) foram ações bruscas, repentinas, e excessivamente severas. Afinal, a cesariana como método de nascimento está arraigada no imaginário de muitas mulheres – em especial no Brasil – como um método seguro, limpo, moderno e indolor, mesmo que a realidade seja bem diferente desta imagem. Ainda que muitos profissionais concordem que existe “algum exagero” na realização desse procedimento, a reação da categoria médica foi de desaprovação. Para os ativistas da Humanização do Nascimento, todavia, tais medidas são a culminância de mais de 20 anos de lutas para que as mulheres tivessem plenos direitos de escolha, uma assistência centrada na fisiologia e uma postura embasada em ciência por parte dos cuidadores. Para os humanistas do nascimento, as medidas não foram bruscas e muito menos severas: foram a culminância de propostas de mais de duas décadas.

Mas porque a crise na atenção ao parto?

Somos herdeiros de uma cultura que acredita estar a saúde “fora do corpo”, e magicamente acondicionada em drágeas, pílulas, comprimidos e injeções. Esta modificação na forma como compreendemos a busca pelo equilíbrio (de um modelo interno, para um modelo externo) produz repercussões em toda a sociedade contemporânea, onde a “saúde” e o “bem-estar” são vendidos como produtos, alienando o indivíduo da responsabilidade de encontrá-los por si mesmo.

Essa ideologia “exógena”, quando aplicada ao nascimento humano, gera a série de problemas que vemos hoje em dia relacionados com a extrema artificialização da vida. O aumento das cesarianas é um bom exemplo deste exagero. Esta que deveria ser uma cirurgia salvadora acabou sendo banalizada ao extremo, e um percentual muito grande de mulheres acaba optando pela sua realização sem uma noção exata dos riscos a ela associados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) determina que não mais de 10 a 15% dos partos podem terminar em uma cesariana. Incrivelmente, num mundo em que os indicadores de saúde melhoram em função do incremento nas condições sociais, a mortalidade materna aumentou nos últimos anos nos Estados Unidos, principalmente às custas do aumento de cesarianas naquele país(2).

A sociedade está se dando conta de que o modelo tecnocrático existente não está mais oferecendo a qualidade de saúde que as mulheres exigem, e se une, através das múltiplas formas de representatividade, para discutir o destino do nascimento no nosso país. É desse caldo social e cultural que surgem as organizações de mulheres, de profissionais, governamentais e a própria mídia para impulsionar as mudanças que a sociedade exige no que tange à segurança para mães e bebês.

 

HUMANIZANDO O NASCIMENTO
“Humanizar o nascimento é restituir o lugar de protagonista à mulher”.

Humanizar a chegada de um novo ser ao mundo baseia-se na ideia de que ele deve ser tratado com carinho e ser bem recebido desde o início, além de oferecer à mulher o controle do processo. O parto humano foi forjado nesse grande laboratório de aprimoramento que é o processo evolutivo, e não pode ser melhorado através de equipamentos, drogas ou cirurgias. Nossa função como cuidadores da saúde é observar os casos em que existe uma “fuga da fisiologia” na direção perigosa da patologia. Nesse caso, poderemos com toda a confiança e confiança usar a nossa arte e nossa tecnologia para salvar tanto mães quanto bebês.

Entretanto, o que vemos todos os dias é um abuso das cirurgias. As razões para esse fato residem na desconsideração das capacidades da mulher, como se ela fosse incapaz, defectiva, frágil e incompetente para dar conta da tarefa milenar de gestar e parir. Usamos abusivamente a tecnologia, e nos baseamos numa crença preconceituosa em relação à mulher: “A tecnologia é mais segura do que as mulheres para dar conta do nascimento“. Isso é comprovadamente falso. Por estas questões marcadamente filosóficas, a Humanização do Nascimento é também uma questão de gênero, porque a matriz desta visão distorcida é uma postura de descrédito para com a mulher e sua fisiologia. O projeto global de Humanização do Nascimento é uma forma de colocar a mulher numa posição de destaque, valorizando seu corpo e sua função social e oferecendo-lhe o protagonismo de seus partos.

 

DOULAS
Elas dão suporte em várias dimensões às mulheres grávidas nos momentos do parto.

Doulas são profissionais que acompanham as grávidas durante o processo de nascimento. Elas se aperfeiçoam em oferecer suporte afetivo, emocional e físico para as grávidas durante o parto. Elas não realizam qualquer atividade de ordem médica ou de enfermagem. Seu foco de atenção é somente a mulher e seu conforto. Não verificam pressão arterial, não auscultam batimentos cardíacos fetais, não fazem exames para ver o progresso de dilatação e não oferecem medicações de qualquer ordem. Elas são referendadas pela OMS, através do livro “Assistência ao Parto Normal – Um Guia Prático”(3), assim como pelo Ministério da Saúde do Brasil desde a publicação do livro “Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher”(4), e sua atuação é baseada em evidências atualizadas e consistentes, como pode ser visto no livro “Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto – Enkin e Cols”(5) da biblioteca Cochrane, e nos inúmeros trabalhos realizados (Klauss & Kennell(6) – Mothering the Mother). Ao lado de tantos achados positivos relacionados ao parto, também encontramos uma incidência aumentada de mulheres que continuam amamentando além de seis semanas após o nascimento de seu bebê(7). Doulas não produzem trabalho redundante, não competem com médicos ou enfermeiras pelo trabalho com as grávidas e, inclusive, deixam os profissionais mais à vontade para suas tarefas específicas. “Na ausência de qualquer risco associado, e com as evidências claras das melhorias associadas com sua atuação, para toda a mulher deveria ser oferecida a oportunidade de ter uma doula a lhe acompanhar durante o parto.(8)

 
UM PROFISSIONAL PARA A VIDA
O que é um “profissional humanizado” e como reconhecê-lo?

Profissional humanizado é todo aquele que entende as dimensões subjetivas do seu paciente como extremamente relevantes. É o profissional que encara toda a paciente como singular, irreprodutível e única e encara o nascimento como momento único e evento ápice da feminilidade. Trata seus pacientes com gentileza e respeito, oferecendo às mulheres a condução do processo. Posiciona-se como uma instância de orientação técnica, e não como “proprietário” do evento. Usa os protocolos mais atualizados, como a Medicina Baseada em Evidências, para o tratamento de suas pacientes, mas sempre leva em consideração a dimensão pessoal de cada uma, forjada na sua história pessoal, suas lembranças, seus medos, suas expectativas, seus sonhos, suas características físicas e seu desejo de que o nascimento de seus filhos seja vivido como um ritual de amadurecimento. É um profissional que alia as habilidades técnicas com uma postura compassiva em relação às mulheres grávidas, entendendo-as como possuidoras de um grande tesouro, que deve ser cuidado com carinho e respeito. Desta forma, tem como meta um parto em que o menor número possível de intervenções ocorra, ao mesmo tempo em que se preocupa com o máximo de segurança e bem-estar para todos.

 

HUMANIZAÇÃO DO NASCIMENTO E TECNOLOGIA
Elas não se opõem em hipótese alguma. A humanização do nascimento é a síntese que coloca estes dois paradigmas lado a lado.

Bem sabemos o quanto o uso de tecnologia poluiu o mundo a ponto de nos colocar em risco de sobrevivência. Sabemos da mortandade de peixes, da crise hídrica, do envenenamento de lagos e rios e do desaparecimento de espécies animais pela ação predatória irresponsável. Nesta lista também cabe elencar o paulatino desaparecimento da capacidade feminina de parir, assim como a crescente escassez de profissionais capacitados para o atendimento ao parto normal. A fantástica capacidade humana de mudar o mundo é ao mesmo tempo maravilhosa e perigosa.

A humanização do nascimento é a síntese que procura oferecer uma síntese para os paradigmas em conflito. De um lado temos o “naturalismo“, onde qualquer intervenção humana seria inadequada e ruim para um evento “natural” como o parto. No extremo oposto do espectro temos a “tecnocracia“, que é um sistema de poder que coloca em posição de destaque aqueles que controlam a tecnologia e a informação. Neste modo de ver o mundo as pessoas acabam se despersonalizando, perdendo seu rosto, tornando-se objetos da ação da tecnologia. O nascimento, que deveria ser um acontecimento social, familiar e afetivo, tornou-se, paulatinamente, um evento cheio de intervenções potencialmente perigosas quando dominado pelo olhar tecnocrático. Perdemos o contato com a natureza íntima, sexual, feminina e transformadora do parto. Domesticamos o nascimento, abafando a sua natural rebeldia. Entretanto, o que sobra de humano no parto? O que resta do evento que poderia ser aproveitado como elemento de projeção e de transformação para esta mulher?

A Humanização do Nascimento entra neste momento histórico como a síntese mais acabada das teses digladiantes. Procura entender o ser humano como um ser imerso na linguagem e que constrói a tecnologia como forma de expressão de sua própria natureza racional, mas que agora começa a se dar conta do perigo de “artificialização” excessiva da natureza, externa e interna. Assim, a ideia de “humanizar o nascimento” esforça-se para oferecer o “melhor de dois mundos(9), ao procurar o resgate do suporte social, emocional, afetivo e espiritual às mulheres em trabalho de parto, ao mesmo tempo em que oferece o melhor da tecnologia salvadora para aquelas mulheres que se afastam do rumo da fisiologia e se dirigem ao caminho perigoso da patologia.

Não há porque negar o recurso tecnológico para resgatar vidas que se apresentam em risco; por outro lado não há porque se artificializar um evento tão humano quanto o nascimento de uma criança. De tão artificializado, o nascimento de um indivíduo desfigurou-se a ponto de ser hoje um simulacro do que foi no passado.

 

CAMINHOS PARA A HUMANIZAÇÃO
A mobilização em torno de um parto mais humano e seguro é um evento político, porque tem a ver com a expressão social de valores!

Existem várias formas de trabalhar com essa necessária reformulação. Primeiro, é importante entender a necessidade desta reavaliação. A intromissão da tecnologia em todos os setores da nossa vida cotidiana nos cria a sensação incômoda de que estamos perdendo nossa essência.

A humanização do nascimento opera na contramão da aventura tecnológica, questionando a invasão de nossas mentes e corpos por elementos estranhos. Além do mais, essa mobilização em torno de um parto mais humano e seguro é um evento político, porque tem a ver com a expressão social dos valores mais profundos que nos sustentam. Somos seres sociais e a nossa ação política significa organizar e mobilizar pessoas em torno de ideais comuns.

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UM PROCESSO LENTO E GRADUAL
A educação e conscientização para o parto humanizado têm importância vital no processo.

A tarefa de humanizar o nascimento só pode se dar através de um processo demorado e lento, porque tem a ver com a própria estrutura que sustenta a sociedade ocidental. Nossa ação, portanto, deve ser em várias frentes, sendo a educação para o parto humanizado uma das tarefas mais substanciais.

Outra ação importante é com os cuidadores de saúde. Estes devem receber orientação sobre as vantagens que a medicina baseada em evidências oferece para a humanização do nascimento. Médicos, parteiras, psicólogas, educadoras perinatais, enfermeiras e doulas devem receber treinamento numa abordagem mais integrativa, suave, social e afetiva do nascimento. A presença de companheiros e/ou familiares na hora do nascimento deve ser estimulada por estes profissionais. Esta atitude simples e de baixo custo, além de não aumentar riscos, diminui a angústia e oferece uma vivência mais harmoniosa do parto para o casal e/ou família. As escolas médicas e de enfermagem deverão incluir de forma obrigatória classes que abordem os direitos das pacientes, a humanização do nascimento e medicina baseada em evidências. É imperioso que a formação das escolas da área da saúde seja direcionada para o “novo paradigma”, onde a mulher será o centro de onde irão irradiar as decisões sobre sua vida sexual e reprodutiva.

 

PRINCÍPIO FUNDAMENTAL
Para construirmos um mundo menos violento, mais amoroso, mais digno, respeitável e justo temos que começar com o nascimento.

Acreditamos na capacidade de parir que cada mulher carrega. Acreditamos na perfeição da natureza e nos milhares de anos de preparo para os mecanismos intrincados do nascimento. Sabemos da importância da tecnologia para salvar a vida de pessoas que estão em risco. Por outro lado, entendemos que a intervenção num processo natural só pode se justificar diante de critérios muito claros. Intervir no nascimento para encurtar tempo ou por interesses econômicos quaisquer são erros graves que devem ser evitados. Atitudes como essas, que retiram da mulher o protagonismo do parto, não podem ser toleradas em uma sociedade que se deseja justa e fraterna.

O desempoderamento da mulher no nascimento de seus filhos tem repercussões na sociedade como um todo, pois será ela a principal guardiã dos seus valores, e quem vai lhes ensinar as primeiras ideias. O parto é um momento pleno de afeto e sexualidade e a intervenção desmedida pode ter efeitos devastadores – físicos e psicológicos – para a mãe e seu bebê. Além disso, “se quisermos verdadeiramente mudar a humanidade temos que mudar a forma como nascemos“, como já nos dizia Michel Odent.

Para construirmos um mundo menos violento, mais amoroso, mais digno, respeitável e justo temos que começar com o nascimento, para que todos possam chegar a esse mundo envoltos numa aura de carinho e amor.

Ricardo Herbert Jones é ginecologista, obstetra e homeopata.
REFERÊNCIAS NO TEXTO

  1. http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/janeiro/06/ApresentaPARTO-06-01-15.pdf
  2. http://tabnet.datasus.gov.br (2) P. Krugman, “Pride, Prejudice, Insurance”, International herald Tribune, november 8, 2005; http://www.cdc.gov/nchs.
  3. Organização Mundial de Saúde. Assistência ao Parto Normal: Um guia Prático. Relatório de um Grupo Técnico. Genebra, 1996. 53p.
  4. Ministério da Saúde Brasil. Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher – MS 200
  5. Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição – Guanabara Koogan 2000
  6. Klauss, M.H., Kennell, J.H., The Doula: An Essential Ingredient of Childbirth Rediscovered. Acta Paediatric 86:1034-6, 1997
  7. Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição – Guanabara Koogan 2000
  8. Sosa, R., Kennell, J., Klauss, M., Robertson, S., and Urrutia, J. (1980) The Effective of Supportive Companion on Perinatal Problems, length of labor, and mother-infant interaction. The New England Journal of Medicine 303:597-600
  9. Threvathan, W.R., Smith, E.O., McKenna, J.J. Evolutionary Medicine (1999) Oxford University Pres

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