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Os amores

Mas… quem poderia imaginar que sexo, entre humanos, seja algo “natural”? Precisa ser ingênuo para pensar que existe algo de natural em nós. Lacan já dizia há mais de 50 anos que “a palavra matou o real”.

Somos construções das palavras, não mais de moléculas e átomos. Desde que levantamos para comer a fruta da razão o sexo não seguiu mais as regras da biologia e da reprodução, mas da teia intrincada surgida da ruptura bizarra da ordem cósmica a qual chamamos amor.

Este só surgiu do despejo abrupto do feto distópico, incompetente massa amorfa, rodeado de espaço sufocante e carente de afago. Foi ali, no desamparo, na perda angustiosa do idílio perfeito, que a treva se produziu pelo brilho intenso das duas estrelas que, piscando, lhe dizem “meu filho querido”.

E dessa conexão se fez o amor, pois que se ele existe foi aí semeado, e de tanto amor todos os outros amores são desse princípio derivados.

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Feito em casa

Temas instigantes…

“Muitas pessoas entendem a opção pelo parto domiciliar em analogia com o ensino doméstico, já que ambos desinstitucionalizam estes processos, oferecendo liberdade para que a família possa afirmar seus valores, tanto no nascimento quanto na educação. Eu acho que se trata de um equívoco, já que são coisas bem distintas. Um parto é mesmo um evento da família, e pode ser realizado em casa obedecendo-se critérios conhecidos de segurança. Já a educação tem outros valores e sua institucionalização tem um sentido oposto, e serve exatamente para retirar a criança do círculo doméstico, socializando-a e servindo de reforço à formação sua identidade e independência. A função da escola é resgatar a criança de um mundo aconchegante – mas que também pode ser dramático e ameaçador – e apresentá-la ao mundo”

Maximilian Trebreh, comunicação pessoal, abril 1986

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Palmadas

Os esforços da corporação médica por subverter palavras e esconder as ações que elas descrevem – no ataque sistemático que fazem ao uso do termo “violência obstétrica” – são produzidos por duas vertentes majoritárias: a dos ignorantes e a dos cínicos.

Permitam-me uma analogia simples: eu acredito que muitos bateram em seus filhos na infância por pura ignorância, por acreditarem que a violência poderia produzir neles os limites necessarios à vida social. Minha geração esteve nesse exato ponto de inflexão: foi a última que apanhou como regra, e a primeira que resolveu não bater. Hoje o pensamento se direciona todo à condenação das palmadas, da surras e das violências psicológicas, mesmo que as agressões contra a crianças ainda sejam recorrente em nossa cultura. Estes pais de outrora ignoravam o mal que causavam aos seus filhos e a evidência de sua própria sobrevivência lhes oferecia a certeza de que “uma palmada bem dada corrige uma criança”.

O segundo grupo é formado pelos cínicos, que bateram e ainda defendem esta violência, mas se negam a receber o rótulo de violentos – por julgarem injusto. Afinal, como poderiam ser eles os salvadores, os pais amorosos e poderosos os mesmos a impor este tipo de opressão aos pequenos? Não “violência” é uma palavra por demais injusta.

Faço essa digressão porque as grávidas – pela sua fragilidade e sua posição de dependência do cuidado de adultos – muitas vezes se encontram nessa posição fragilizada e infantilizada, na mesma posição em que as crianças enfrentam o longo período da infância. A posição infantil das gestantes é um “projeto”, porque – assim minimalizadas – tornam-se muito mais facilmente manipuladas, controladas e conduzidas. Desta forma as parturiente colocam-se nas mãos desses profissionais e esperam deles o cuidado que uma garota espera de seus pais.

Todavia, o medo como pano de fundo e a assimetria de poderes são o caldo de cultura ideal para os abusos. A realidade – dura de admitir – é que o nascimento institucional é palco de violências múltiplas, onde a infantilização da mulher e seu desempoderamento, conjugados com a exaltação da autoridade dos médicos (e da Medicina) produzem o quadro atual.

Entre os velhos professores de Medicina estão os representantes da última geração que bateu impunemente. Cinicamente se defendem, exigindo que suas ações violentas sejam vistas e julgadas dentro de um contexto de “necessidade”; parecem repetir “ad eternum” o adágio: “acredite, é para o seu próprio bem”. Mas para se livrarem desse rótulo se obrigam a negar as dores, o silenciamento, os cortes e tantas feridas produzidas na alma. Tentam esconder o que as lágrimas de milhões de mulheres nos revelam todos os dias, acreditando que a simples ocultação de uma palavra poderá mudar uma realidade cruel e injusta.

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Ritos

Existe um tema que ainda não foi suficientemente debatido nestes tempos de isolamento social. Talvez seja mesmo natural que se deixe para mais tarde, diante do terror que nos impacta pelas mortes que nos cercam. Mas a precisaremos falar da supressão dos rituais.

Minha mãe faleceu em fevereiro, poucas semanas antes do surgimento da pandemia. Por causa disso ainda foi possível passar pelos rituais de despedida. O último adeus, o velório, o encontro com parentes e amigos, o discurso do meu pai, as lágrimas. Um ciclo que se fechou com os rituais que nos protegem e auxiliam na construção do luto.

Hoje em dia não há mais despedidas. Não há também a celebração daqueles que nascem. Não comemoramos em conjunto a passagem de um giro solar, não cantamos parabéns, não compramos lembranças e não celebramos nossos rituais de passagem da forma como sempre o fizemos em milênios.

Resta a pergunta: que tipo de sociedade sobrará quando nenhuma passagem puder ser marcada em ritos que exaltam seus valores mais profundos? Como ficam os sobreviventes que não conseguem passar pela dor transformativa de enterrar seus mortos? E as famílias que, apartadas do evento do parto, revivem – sem saber – o mito da cegonha?

Estas são questões que a vida pós pandemia deverá responder.

Entretanto, sou cético quanto a esta simplificação da vida. Abolir os rituais seria o mesmo que pular a corte, a espiral concêntrica dos encontros sexuais. Abolir, suprimir ou cortar os “pick up lines” o “você vem sempre aqui?” ou mesmo o simples “conheço você de algum lugar?” é absolutamente inimaginável para nossa espécie, mas mesmo para a imensa maioria das que conhecemos – de cães, insetos e passarinhos. Seria realmente possível partir diretamente para os atos sem passar pela torturante ritualística dos encontros?

Não. Os rituais são tão intrinsecamente imbricados na ação humana que seria impossível imaginar a vida humana sem estes artifícios.

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Sobre dor e perdão

Quando sua filha nasceu estava de plantão no último dia como doutorando no hospital escola onde estudou. Passados 13 dias veio a se formar, e apenas três semanas depois já estava novamente de plantão, agora como residente. No dia do parto não tinha mais do que 26 anos e, além dos temores que cercam o parto, ainda estava angustiado com a escolha dos novos residentes, o que deveria acontecer nos próximos dias.

Por certo que o jovem estudante prestes a se formar não interferiu no parto da própria esposa, que ficou a cargo de uma residente. O parto foi muito tranquilo, apesar das violências de praxe comuns daquela época. Entretanto, depois de várias horas de ocorrido, já no fim da madrugada, o recém pai foi profundamente maltratado pela residente. Esta foi grosseira, maldosa e até ameaçadora. Fez uma cena em pleno centro obstétrico apenas porque o doutorando foi acompanhar sua mulher e filha recém nascida à maternidade e não permaneceu ao seu lado para passar os dois casos restantes da noite anterior para os próximos plantonistas.

Nunca conseguiu aceitar a violência daquelas palavras. Era impossível entender as razões pelas quais ela foi tão bruta com um colega seu que acabava de ser pai e precisava dar assistência à sua esposa e filha. A raiva do seu olhar nunca lhe saiu da cabeça, como uma interrogação, uma dúvida. Entretanto, intuía que tal manifestação era direcionada a outro sujeito, e que estaria tão somente ocupando o lugar de outra pessoa.

Muitos anos mais tarde ele finalmente ficou sabendo do que se escondia por detrás do meramente manifesto na cena. Aquela médica era namorada – há vários anos – de um homem casado. Certamente que nutria a esperança que ele abandonaria a esposa para, finalmente, ficar com ele, e testemunhas lhe contaram que esta médica era verdadeiramente apaixonada por aquele sujeito. Entretanto, exatamente na época deste parto, o namorado comunicou que estava abandonando sua esposa… mas também não a queria mais. De uma só tacada livrou-se das duas mulheres de sua vida para se juntar a uma terceira, a qual nenhuma das duas tinha conhecimento.

Para ela o efeito foi devastador. Uma relação de muitos anos desmoronava de uma hora para outra. Nesse ínterim, seu colega – um sujeito sem importância, sem brilho, sem destaque, sem glamour – torna-se pai durante o seu plantão. A alegria do nascimento e a exaltação do parto conquistado foram demais para ela. Explodiu em indignação e, por certo, enxergava na felicidade do jovem colega o amante a quem tudo ofereceu e nada obteve em troca. Colocou naquele amanhecer toda a sua indignação nos ombros de alguém que passava por um dos momentos mais intensos e transformadores de sua vida.

Por muitos anos ele a odiou em silêncio. Não podia admitir que tamanha grosseria pudesse ser justificada. Sua alma só veio a serenar quando, finalmente, pode conhecer o drama que se desenrolava por detrás da violência verbal a que foi submetido em um momento onde só deveria haver felicidade.

Por fim foi possível perdoá-la, mesmo sem jamais ter lhe dito como havia ficado magoado com suas atitudes. Sua dor iniciou e findou sem que ela soubesse.

Não há dúvida que, fosse possível conhecer as dores que habitam os corações machucados, seria mais fácil entender as reações violentas que nos atingem. Por certo que muito mal já fizemos aos outros sem sequer notar a amplitude do dano que causamos, mas tenho a esperança que o perdão possa um dia acalmar estes corações.

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