Responsabilidades

Mostrar a verdade não é a mesma coisa que empurrar a “sua” verdade goela abaixo para que as pessoas ao nosso redor sejam obrigadas a digeri-la. Como diria a minha mãe, a verdade pode ser “exposta”, mas jamais “imposta”. Assim sendo, concordo com a necessidade de respeitar as mulheres que realizaram cesarianas, principalmente naquelas cirurgias que aparentemente não possuem indicação clínica, levando em consideração a visão de mundo das mulheres que se submeteram a ela. Entretanto, acrescento que tais elementos – a liberdade e o tempo do outro – não podem nos impedir de falar e expandir a nossa visão sobre o abuso de cesarianas.

Eu prefiro dizer que TODOS NÓS somos responsáveis pelas cesarianas desnecessárias que ocorrem no mundo, seja por uma postura pouco científica e/ou egoística, seja por inação diante das evidências que nos mostram as vantagens do parto normal. Portanto somos (nós, humanidade), sim, responsáveis pelas mazelas que ainda ocorrem no mundo, até pelos estupros e pelos genocídios. Isso não é o mesmo que ser “culpado” por isso. Se imaginarmos uma menina que sai à noite, de minissaia para uma festa na periferia, eu duvido que alguma mãe de adolescente em face dessa situação não diria: “Minha filha, você está oferecendo graciosamente uma oportunidade à manifestação da perversão de alguém“. Silenciar diante dessa evidência (de que existem perversos e que eles eventualmente cometem estupros) nos torna conectados ao crime, mesmo que de forma indireta e involuntária. Tais mães não são as culpadas do crime, mas pecaram pela falta de prevenção. Quando uma mulher nos diz “Estou consultando com Dr. Frotinha e ele disse que se tudo der certo será parto vaginal” – e sabemos a fama cesarista do dito profissional – estaremos na mesma situação da mãe que resolveu silenciar.

Como diria Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos (mas há controvérsias quanto à origem dessa expressão), “O preço da Liberdade é a eterna vigilância“. O preço da humanização do nascimento é estar eternamente vigilante com as pressões econômicas e corporativas que colocam o nascimento a serviço de outras forças. Enquanto houver seres humanos, constituídos na infinita diversidade de estruturas psicológicas, haverá a necessidade de nos protegermos da maldade e da perversão. Infelizmente, não há como abandonar a vigilância. Por sua vez, enquanto houver chauvinismo e o desejo de controlar as mulheres, bloqueando a natural criatividade de seus corpos, haverá a necessidade de protegê-las e vigiar as tentativas de subjugá-las. Parir naturalmente ainda é uma batalha árdua, mas já foi ainda mais complexa. Hoje temos ferramentas que no passado não possuíamos, como esta (a internet). Tenho a esperança que no futuro a naturalidade do parto e da amamentação serão incorporadas à atitude de todos os povos, e uma cesariana desnecessária será tão mal vista como jogar no chão um papel de bala numa cidade que todos tentam manter limpa.

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