Entrevista

 

Entrevista com o médico obstetra Ricardo Jones, Janeiro/2013

O termo “parto humanizado” ainda é desconhecido por boa parte das mulheres. Então, do que se trata o parto humanizado? No que ele se difere do “parto normal”? 

Parto normal normalmente se refere a parto vaginal, aquele que ocorre de acordo com a programação normal do processo de parturição, fisiologicamente estabelecido que culmina de forma o mais natural possível. Usamos o termo “parto normal” para contrapor à cesariana, ou nascimento cirúrgico. O parto “natural” normalmente é aquele que também chama­mos de “humanístico”, ou “parto humanizado”.  O conceito de parto humanizado passa pelo entendimento da mulher como condutora do processo, colocada na posi­ção de protagonista, e não na posição objetual e coisificada na qual é frequentemente colocada na atenção obstétrica cotidiana. Sem a restituição do protagonismo à mulher todos os esforços na atenção ao parto poderão apenas sofisticar a tutela a ela imposta. Além disso, o parto humanizado se es­mera em oferecer às parturientes uma assistência baseada em evidências científicas atualizadas e um ambiente propício ao estado alterado de consciência que ocorre no transcorrer de um parto, principalmente pela ação do coquetel de hormônios que são produzidos durante o processo. A humanização do nascimento é uma corrente de pensamento que existem no mundo inteiro e que se propõe a dignificar o parto combatendo as interferências desnecessárias no processo fisiológico.

Sobre as intervenções, como elas são vistas pelos médicos humanizados? Existem algumas que são aceitáveis, ou o parto humanizado não admite nenhuma delas?

Intervenções no âmbito da assistência ao parto podem salvar a vida de ambos: mãe e bebê. Entretanto o abuso destas práticas está acima de qualquer consideração. É inegável que esta elas deveriam ser usadas em casos extremos, mas inegavelmente são utilizadas por razões outras além dos possíveis benefícios para a paciente. Entre as intervenções usadas de forma abusiva destaca-se a cesariana. Esta cirurgia de grande porte deve ser evitada dentro dos limites de segurança, pois aumenta consideravelmente os riscos para mães e bebês. Os números variam nas centenas de estudos que avaliam os riscos e be­nefícios das modalidades de nascimento, mas todos são categóricos ao afirmar que, de maneira inequívoca, a cesariana acrescenta riscos ao processo, por ser uma ci­rurgia e invadir a intimidade do corpo. Além dos riscos maternos, podemos afirmar que a cesariana dificulta grandemente a amamentação por atrapalhar o processo de vinculação inicial entre mãe e bebê imediatamente após o nascimento, naquilo que os pesquisadores Klauss e Kennell convencionaram chamar de “A Hora Dourada”. Além da cesariana sabemos que qualquer intervenção ao processo natural e fisiológico do parto apresenta riscos inerentes, pois não existe nenhum substituto para o nascimento natural que seja mais seguro do que o processo construído nos milênios de adaptação. Entretanto, em situações patológicas, algumas intervenções corrigem trajetórias perigosas para o binômio mãe-bebê. A utilização de drogas como o sulfato de magnésio em casos de pré-eclâmpsia (pressão alta no final da gravidez) é um caso exemplar. Antibióticos para o tratamento de infecções maternas, o uso de um hormônio, a oxitocina, para corrigir transtornos de contração do útero, assim como outras intervenções, podem trazer segurança e auxiliar no processo de parto em casos selecionados. Nossa crítica será sempre direcionada ao abuso de tecnologia aplicada ao parto, e não contra a essência da tecnologia aplicada em benefício do homem. O parto normal é o melhor aprendizado possível para os dilemas e dificuldades de criar um bebê pleno de necessidades e sequioso de aten­ção. Diante do questionamento frequente sobre os limites da utilização de tecnologia, eu estabeleci uma proposta de as­sistência humanizada ao nascimento que se assenta sobre um tripé conceitual:

  • O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisti­cando a tu­tela” imposta durante milênios pelo patriarcado.
  • Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “pro­cesso bi­oló­gico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igual­mente valorizados, e suas específicas necessi­dades atendidas.
  • Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o mo­vimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo in­teiro, funciona sob o “Império da Razão”.

Quais são as vantagens de um parto via vaginal tanto para a mãe quanto para o bebê?

Primeiramente, não existe nenhuma “desvantagem” em oferecer às mulheres o que existe de mais moderno em termos do que a ciência médica nos fala da segurança aplicada ao parto. O parto humanizado tem suas condutas “amarradas” aos protocolos mais atuais no que diz respeito à segurança e à proteção do nascimento, entendendo-o como elemento vital na estruturação do sujeito. Uma postura mais ativa e participativa prepara a mulher, e por consequência o casal, para os dilemas da maternagem e os cuidados com o bebê. Como diria a antropóloga Barbara Katz-Rothman, “Parir não é apenas fazer bebês, mas fazer mães capazes e competentes para enfrentar as dificuldades da maternidade”. Entre­tanto, a humanização do parto pressupõe uma participação efetiva do casal em todas as decisões. Desta forma, com a adoção de um modelo centrado na mulher, a alienação que frequentemente observamos nos partos institucionais no Brasil tende a diminuir, pois a gestante e seu companheiro passam a ser participantes do processo, ao in­vés de meros espectadores. A responsabilidade passa a ser compartilhada. Se é óbvio que os profissionais continuam a ser responsáveis pela parte técnica, é também verda­deiro que o casal passa a ter uma posição muito mais importante na tomada de deci­sões. É deste debate entre a proteção do protagonismo da mulher e a proteção dos profissionais que surgirá um modelo mais eficiente e seguro. Muitos países estão adiantados nesta discussão, que precisa conclamar os profissionais que atendem nascimentos, o poder público, o judiciário, os homens e, evidentemente, as próprias mu­lheres.

Assunto espinhoso, até imagino a resposta, mas é preciso fazer o papel de “advogada do diabo”: os médicos e ativistas pró parto humanizado são “contra” a cesárea (é a imagem que muita gente tem)? Como eles se posicionam em relação a essa cirurgia?

Quando se estabelece uma crítica contra o abuso de uma atividade é natural que muitas pessoas pensem que ela se refere ao “uso” desta conduta. Entretanto, o movimento de humanização do nascimento surgiu no mundo inteiro como uma crítica à prática inadequada, excessiva e abusiva destas intervenções sobre o nascimento. Jamais os ativistas da humanização se posicionaram contra um procedimento que pode salvar vidas, tanto de mães quanto de bebês. As nossas queixas se direcionam ao excesso de cirurgias, drogas e outros procedimentos utilizados sem uma devida investigação quanto aos potenciais malefícios à mãe e ao bebê. A cesariana é uma operação maravilhosa, capaz de resgatar para a vida mulheres que, sem ela, estariam condenadas à morte. Todavia, o abuso de sua realização vem evitando a necessária queda na mortalidade materna mesmo em países desenvolvidos como os Estados Unidos. Questionar os excessos na sua utilização é fundamental para implantar boas práticas e acrescentar segurança no nascimento.

O que o Sr. diria para uma mulher que prefere cesárea porque tem muito medo de parir naturalmente? 

Minha postura diante dessa escolha é a de acolher seus medos e tentar trabalhar com eles. Entretanto, negar à elas a possibilidade de escolher é que me parece inaceitável, mas poucas mulheres se aventuram a falar sobre isso, e preferem desfiar justificativas intermináveis. O problema para mim nunca foi mulheres escolherem cesarianas por medo de sentirem uma dor temida e imaginada, mas quando essa “dor” é estimulada por práticas arcaicas, pela solidão, pelo uso exagerado de medicamentos, pelo afastamento da família e pela absurda proibição da presença de doulas em alguns hospitais como vimos ocorrer ultimamente. Para estas mulheres acena-se com a cesariana salvadora, e para elas parece que esta é a única opção digna existente. Se o parto normal fosse imposto às mulheres eu também sairia às ruas como defensor das escolhas informadas. Infelizmente o que se lê nos debates sobre a cesariana ainda é a ladainha desagradável e anacrônica do “menos mãe” e as explicações enfadonhas para cesarianas realizadas, na sua maioria injustificáveis à luz da Medicina Baseada em Evidências.

Em que momento um parto humanizado pode virar uma cesárea? Essa cesárea pode ser “humanizada”?

Um parto normal poderá virar cesariana em qualquer momento em que os riscos de manter a assistência natural e fisiológica do parto suplantarem – de forma inequívoca e clara – os riscos inerentes de uma cesariana. Esse momento deveria ser de aparição muito mais rara do que ocorre na modernidade. Muitas vezes os médicos agem por medo e despreparo, realizando um procedimento invasivo e perigoso por terem medo das possíveis consequências para si mesmos do uso da paciência e do bom senso. Não consideramos que uma cesariana possa ser “humanizada”, pois, por ser ela uma cirurgia de grande porte e controlada por profissionais médicos, ela não é “feita” pela paciente, como um parto normal. Por essa razão, por lhe faltar o necessário protagonismo restituído à mulher, ela não pode ser chamada de “humanizada”. Entretanto, ela pode ser digna, respeitosa, afetiva, correta, humana, gentil e embasada em evidências, desde a sua indicação (alicerçada em evidências) até o último ponto realizado no abdome.

Em linhas gerais, por que hoje é tão difícil conseguir um parto humanizado?

Temos poucos profissionais com coragem suficiente para serem questionadores, críticos, estudiosos e desejosos de defender a integridade – física, psicológica, emocional – de suas pacientes, correndo o risco de serem desconsiderados por seus pares e tratados como hereges. Além disso, na vigência da “mitologia da transcendência tecnológica”, muitas pacientes ainda acreditam na superioridade da tecnologia sobre a natureza, mesmo que tenhamos infinitos estudos demonstrando o contrário. Para mudar a forma de nascer precisamos repensar nossos valores culturais e nossas crenças, e tal empreendimento demanda tempo e paciência. Tais valores de uma sociedade não se alteram por decreto; são modificados pela lenta erosão de crenças antigas, substituídas por modelos que explicam melhor a realidade, num infindável embate entre teses digladiantes. No futuro, os profissionais humanistas – aqueles que colocam a paciente e seu bebê acima de qualquer outra consideração – serão escolhidos pelas próprias pacientes para serem ajudantes de um novo modelo de atenção que terá a horizontalidade como ética, a participação como norma e o protagonismo respeitado como lei.

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