Ideologias

marioneteA mais elementar definição de ideologia é provavelmente a conhecida frase do livro de Marx, “O Capital”…

Eles não sabem o que fazem, mas ainda assim, o fazem”.
Nada se aplica de forma mais clara e cristalina à conduta obstétrica contemporânea. Lembro um exemplo muito simples, que aparece no texto da professora Simone Diniz. Lá se insere a fala de uma jovem obstetra que afirma de forma singela: “Eu sei que não devo fazer a episiotomia, mas minha mão vai sozinha“.
Essa frase sempre me intrigou, porque nunca pude crer que se tratava de uma fala sincera. Minha resposta a ela, se pudesse lhe oferecer, seria: “Não, doutora, sua mão não vai sozinha. Uma mão, composta de carnes, fibras, nervos e veias, não se move por vontade própria. Há um determinante inconsciente, algo do obscuro e “não sabido” que determina a ação e conduz seus movimentos. Sua mão vai porque, mesmo que não saibas a razão do gesto, ele se faz guiado por uma força para além de sua consciência. Sua mão é guiada pela ideologia, doutora.“.
A reluzente tesoura – que corta sem pudor o tecido inocente da genitália – sequer imagina que as ideologias que permeiam a assistência ao parto operam como cordões invisíveis a nos prender a modelos constituídos sobre os valores fundamentais desta cultura e neste tempo. No nascimento humano, tais forças implacáveis são determinadas por uma visão da mulher como ser defectivo, a condescendência com a intromissão no seu corpo e a complacente intervenção sobre seus ritmos e sua natureza.
Somos todos, pacientes e médicos, governados pelas ideologias aplicadas à atenção à saúde. Como o ar que respiramos, elas nos envolvem sem parecer que estão ali, por toda parte, penetrando nossas narinas e pulmões, ao mesmo tempo que nos iludem com sua invisibilidade.
Para mudar o nascimento, e assim também a humanidade por consequência natural, há que mudar a própria ideologia sobre a mulher, a natureza, a fisiologia alargada do nascimento e o entendimento que temos do mundo. Parafraseando o mestre Odent, “Para modificar o nascimento é necessário mudar o mundo em que vivemos, e o primeiro lugar a transformar é o interior de nossas mentes, para que o olhar que lançamos para fora realce o valor que tais momentos nos oferecem”.

 

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