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O Sapateiro Russo

O filósofo russo Vladimir Egorov Vasiliev foi um famoso sapateiro russo e um dos maiores pensadores do século XIX, apesar de ter escrito de próprio punho apenas um manual para máquinas de costurar botas. Sua obra literária, entretanto, foi toda construída a partir do registro oral de suas histórias, poemas e narrativas feitas por seus discípulos da “Эскола Супериор де Сапатария” Escola Superior de Sapataria de Krasnoyarsk, na Sibéria, sua cidade natal.

Sua obra é gigantesca, e abrange a filologia, a ética, a filosofia, a poética e a literatura. Na Rússia czarista ficou famoso por seus contos políticos satíricos, onde retratava o drama dos agricultores e a miséria do campesinato sob o czar Nicolau. Seu conto mais famoso – o qual lhe rendeu 18 meses de prisão em Irkustk – foi “Блоха в задницу собаки” (uma pulga no c* do cachorro) onde um pequeno cão com o provocativo nome de “Nicolau” viaja pelos prados gelados da Rússia estabelecendo um ácido colóquio com uma pulga alojada no final do seu tubo digestivo. Os diálogos foram elogiados por Lev Tolstoi, que o chamou de “um idiota com uma inteligência admirável, porém imperceptível“.

Egorov foi reconhecido como um dos maiores influenciadores do pensamento russo do século XIX, e suas ideias podem ser vistas nas obras de Bakunin, Lev Shestov, Pavel Florensky, Dostoievski, Gueorgui Plekhanov e em especial Karl Marx. Seu encontro com Marx foi marcante e único, confirmado por inúmeras testemunhas. Durante uma viagem à Sibéria, Marx procurou a sapataria central de Krasnoyarsk para consertar seu velho calçado, gasto por longas caminhadas. Lá encontrou Vladimir Egorov muito ocupado, mas mesmo assim solicitou que ele lhe consertasse as botas furadas. Egorov aquiesceu e, enquanto fazia este serviço, Marx estabeleceu uma profícua conversa com o “sapateiro da Sibéria”, tendo anotado por mais de 3 horas todas as palavras do mestre sapateiro em um caderno. Anos depois se descobriu que esta conversa embasou “Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro“, sua tese de doutorado. Infelizmente, Marx nunca deu o devido crédito a Vadimir Egorov por este seu texto.

Este ano festejamos o centenário da sua morte, tragicamente ocorrida em 1920 quando resolveu velejar no rio Ienissei e foi jogado para fora do bote pelos marinheiros, acusado de fazer trocadilhos cujas rimas não se encaixavam adequadamente. Seu corpo foi resgatado muitos meses depois, e no seu bolso foi encontrada a última de suas poesias:

“Белые скалы
Играет в моче богов
Без соли и горечи
У стойки Игоронова
Они вынули это из голосового туннеля
Твоя последняя трещина
И голос прошептал
Под сибирским небом
Ваш последний крик
Свобода, свобода
И крем для детей”

“As rochas alvas
Jogadas na urina dos deuses
Sem sal ou rancor
No balcão de Igoronov
Tiravam do túnel da fala
Seu último estertor
E a voz sussurrava
Sob o céu da Sibéria
Seu derradeiro clamor
Liberdade, liberdade
E um creme para frieiras”

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Ideologias

A mais elementar definição de ideologia é provavelmente a conhecida frase do livro de Marx, “O Capital”…      

Eles não sabem o que fazem, mas ainda assim, o fazem”.  

Nada se aplica de forma mais clara e cristalina à conduta obstétrica contemporânea. Lembro um exemplo muito simples, que aparece no texto da professora Simone Diniz. Lá se insere a fala de uma jovem obstetra que afirma de forma singela: “Eu sei que não devo fazer a episiotomia, mas minha mão vai sozinha“.  

Essa frase sempre me intrigou, porque nunca pude crer que se tratava de uma fala sincera. Minha resposta a ela, se pudesse lhe oferecer, seria: “Não, doutora, sua mão não vai sozinha. Uma mão, composta de carnes, fibras, nervos e veias, não se move por vontade própria. Há um determinante inconsciente, algo do obscuro e “não sabido” que determina a ação e conduz seus movimentos. Sua mão vai porque, mesmo que não saibas a razão do gesto, ele se faz guiado por uma força para além de sua consciência. Sua mão é guiada pela ideologia, doutora.“.  

A reluzente tesoura – que corta sem pudor o tecido inocente da genitália – sequer imagina que as ideologias que permeiam a assistência ao parto operam como cordões invisíveis a nos prender a modelos constituídos sobre os valores fundamentais desta cultura e neste tempo. No nascimento humano, tais forças implacáveis são determinadas por uma visão da mulher como ser defectivo, a condescendência com a intromissão no seu corpo e a complacente intervenção sobre seus ritmos e sua natureza.  

Somos todos, pacientes e médicos, governados pelas ideologias aplicadas à atenção à saúde. Como o ar que respiramos, elas nos envolvem sem parecer que estão ali, por toda parte, penetrando nossas narinas e pulmões, ao mesmo tempo que nos iludem com sua invisibilidade.  

Para mudar o nascimento, e assim também a humanidade por consequência natural, há que mudar a própria ideologia sobre a mulher, a natureza, a fisiologia alargada do nascimento e o entendimento que temos do mundo. Parafraseando o mestre Odent, “Para modificar o nascimento é necessário mudar o mundo em que vivemos, e o primeiro lugar a transformar é o interior de nossas mentes, para que o olhar que lançamos para fora realce o valor que tais momentos nos oferecem”.    

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