Nós e a Internet

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Nós e a Internet

Fazemos mobilização social pela humanização na Internet desde 1998, ainda no tempo dos modens de 4.8 e da conexão discada, quando iniciamos os debates cibernéticos contra a violência institucional e a barbárie das cesarianas no Brasil. Naquela época a crítica que recebíamos era de que o meio – a Internet – produzia um movimento tímido, sectário, apenas para “mulheres burguesas” que tinham tempo para “perder” na frente de um computador. A proliferação da Internet para todas as classes sociais mostrou que nossos críticos estavam errados. No tempo em que iniciamos a luta através das listas de discussão não havia parto domiciliar no Brasil, e hoje este debate ganha as ruas. Não havia um movimento de doulas, quanto menos instituições que lhes dessem respaldo. Não havia lei do acompanhante e nem obstetrizes formadas pela mais prestigiosa universidade brasileira. Não havia uma consciência de que o parto se expressava de forma violenta, numa assimetria de poderes em que as mulheres tinham a sua voz abafada, seus corpos manipulados e os profissionais faziam deles objetos sobre os quais aplicavam uma ciência cada dia mais questionável.

Igualmente não existia conexão com as outras lutas, como a amamentação, e não tínhamos contato com grupos de fora do Brasil. Éramos “ilhas”, isolados em nossas indignações e sonhos. Começamos como um grupo pequeno de internautas que acreditavam em suas ideias e utilizavam uma ferramenta nova e estranha. No mesmo dia eu falava com meninas sonhadoras em São Paulo e com um colega humanista em Florianópolis. Criamos um espaço sem distâncias, uma proximidade até então jamais experimentada. Essa realidade parecia a nós uma fantasia louca, devaneios de ficção científica. O longe desapareceu. Um artigo criticando as episiotomias era publicado em um dia e no outro já estava impresso em minhas mãos. Logo após, era espalhado pela rede, nas nossas valorosas “list servers”. As oportunidades de difusão de ideias e propostas tornaram-se realidade ao alcance da ponta de nossos dedos.

Imediatamente o conservadorismo percebeu que a Internet era uma arma poderosa e ameaçadora para acordar mentes morfetizadas. Como reação, iniciaram uma campanha de ataque a estes projetos. “Você não pode acreditar em tudo que lê na Internet, minha filha”, nos dizia o velho profissional, acostumado com uma retórica em que sus “verdades” não podiam ser questionadas. Quem abriria um livro de medicina para se contraporà autoridade do profissional à nossa frente? Tornaram-se jargões entre os profissionais frases como “Não existe essa coisa de violência institucional. Isso é coisa de Internet”. Ou então diziam, com um supremo desprezo, “Quem te falou isso das episiotomias? O Dr. Google?”.

Não há mais como desprezar o poder da mobilização da Internet e das redes sociais. Ano passado em questão de poucas horas o NuPar – Núcleo de Parteria Urbana da ReHuNa – mobilizou milhares de pessoas em 32 cidades (31 no Brasil e uma na Itália) contra um ato de terrorismo de uma corporação do centro do país, que desejava impedir a livre manifestação de opinião, agredindo um dos pilares da democracia. Milhares marcharam contra a arrogância e a prepotência e a favor das escolhas informadas, o protagonismo feminino no nascimento e o embasamento das condutas em boa ciência.

Os movimentos de conscientização na Internet mudaram a face da democracia. Ela não se expressa mais apenas através dos modelos partidários e da união em torno de megaprojetos. Não temos apenas este meio de expressão. Hoje podemos mobilizar multidões para projetos específicos, como a defesa de um colega que está sendo vítima de perseguição por uma entidade profissional, como vimos no Rio de Janeiro, ou contra práticas abusivas como episiotomias, Kristelleres, cesarianas, e até contra ilegalidades, como o impedimento ao acompanhante no parto.

Não precisamos mais aguardar a manifestação de um “representante” do nosso partido: somos todos protagonistas da mudança. Cada um de nós tem seu próprio megafone, sua arma contra as injustiças e seu fuzil contra a barbárie. As vozes multiplicadas amplificam os desejos e mostram uma nova face na participação social. Estamos num verdadeiro “admirável mundo novo”, mas prefiro acreditar que se trata de um mundo mais justo, mais responsável e mais participativo, onde as palavras de todos receberão acolhimento e respeito.

Ric Jones
(Para ler sobre a “Revolução da Internet” leia a coluna de Juremir no Correio do Povo em http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=4409)

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