Primeiro Desafio

John Kennell

John Kennell – Um dos maiores nomes da pediatria americana, e que abriu as portas para a ciência do afeto.

Hoje eu estava me lembrando de um fato ocorrido há mais de dez anos e que foi um importante marco na minha trajetória como obstetra humanista e divulgador de ideias: a primeira vez que fui convidado a fazer uma palestra em inglês na América.

A minha primeira palestra nos Estados Unidos foi na Case Western Reserve University, em Cleveland, a convite do Departamento de Antropologia. Minha palestra era sobre as doulas, e a experiência de uns 4 ou 5 anos que eu havia acumulado trabalhando com elas. O convite foi da antropóloga Robbie Davis-Floyd, que estava apaixonada pelo movimento de humanização do nascimento no Brasil e queria que os ativistas tivessem oportunidade de falar de suas experiências. Como professora do departamento de antropologia da Case, fez o convite para que eu mostrasse a humanização do nascimento com ênfase no “brazilian way”. Havia por volta de 100 pessoas no local, principalmente doulas, enfermeiras, ativistas, estudantes de antropologia e algumas mães. Faltando não mais do que cinco minutos para começar a palestra eu não conseguia nem dizer “good morning” em inglês, de tão ansioso. Eu estava com muito medo de errar. Sim, o medo ancestral, o medo mais primitivo. Pois para piorar a situação, quando eu estava me dirigindo ao palco, Robbie me puxa pelo braço e diz: “Esse senhor aqui quer te conhecer, e veio assistir a tua palestra“. Era um senhor de uns 80 anos, mas eu não o reconheci. Robbie então me apresentou a ele: “Este é o Dr. Ric, do Brasil. Ele é obstetra“. O velhinho me olhou nos olhos e, com uma espécie de ternura, me disse: “Ah, do Brasil. Você, por acaso, conhece o Dr Moysés Paciornik?” Sorri para ele e disse: “Claro. Ele e o seu filho Cláudio são meus amigos“. “Ah – respondeu o senhor de cabelos prateados, ele é o maior obstetra do mundo!“. Fiquei orgulhoso da menção elogiosa que aquele ancião americano fez sobre um ídolo meu. Coisa boa ver um brasileiro ser citado numa universidade americana. Então Robbie arrematou: “Esse senhor é seu colega, Ric, e o nome dele é John Kennell“.

Quando ela disse o nome da pessoa que amavelmente apertava minha mão o resto de sangue que eu tinha no corpo se esvaiu. Acho que fiquei pálido como uma folha de papel. Minhas pernas fraquejaram e minha voz desapareceu. Creio ter dito algo como “Uau, ergh, well, humm, that’s an honor!” e nada mais. Sorri e lhe cumprimentei efusivamente. Pela primeira vez eu faria uma palestra em inglês (isso já tem mais de dez anos) e de um assunto novo para mim: o trabalho das doulas. Aí aparece na plateia nada mais do que o CRIADOR das doulas, o pediatra americano que revolucionou o conceito de “vínculo” e que descobriu a importância do suporte psicológico, afetivo, emocional e físico de uma pessoa compassiva ao lado da parturiente, e que acabou por ser batizada de “doula”, a partir do livro “Breastfeeding, the Tender Gift” da antropóloga Dana Raphael.

Que pânico! Seria a mesma coisa que um “nerd” dos anos 80, que recém se deixou tocar por uma nova concepção gráfica para computadores – o Windows, ser chamado a palestrar sobre essa novidade e perceber que um senhor ruivo, de óculos e sardento chamado Bill Gates estava sentado na audiência. “Mas o que posso dizer diante de Deus, o criador de todas as coisas que cabem num computador?” pensaria o pobre menino. Pois foi exatamente como me senti: falando de uma concepção nova, uma nova formatação da assistência ao parto, diante daquele que, juntamente com Marshall e Phyllis Klauss, havia presenteado a cultura com tal descoberta.

Pois eu resolvi ficar em silêncio por alguns instantes antes da apresentação e me focar naquilo que poderia ser interessante para todos. Isto é: como um médico brasileiro interessado em melhorar o seu atendimento e focado numa perspectiva humanista poderia capacitar-se através da incorporação das doulas ao seu trabalho. Que trajetória eu havia percorrido, quais suas dificuldades e contratempos, e como esta experiência poderia ser disseminada para outros profissionais igualmente desejosos de uma mudança.

Foi o que fiz. Pensei com os meus botões “Ora, estou aqui. Estas pessoas querem que eu conte a minha história. Não há nada de errado em engasgar, em trocar palavras, pedir ajuda, ou mesmo cometer um equívoco. Seja o que Deus quiser.”

Falei por uma hora. Mostrei imagens de partos, falei de histórias engraçadas, contei dos meus temores, a minha curiosa entrada no mundo das doulas (pelas mãos de Cristina Balzano Guimarães), o início do trabalho interdisciplinar, a entrada da enfermeira obstetra, os primeiros casos, as tristezas, os sucessos e a semente plantada para outros colegas no Brasil que se interessaram pelo tema e pela abordagem.

Claro que eu errei muito. Faltou vocabulário, mas sobrou cara de pau. “Azar, pensava eu. Que posso eu fazer? Ficar tímido, me esconder?” Essas não eram opções viáveis. Resolvi falar, e falar, e falar, como eu sempre faço. Contar coisas curiosas, mostrar a dificuldade inexorável de romper barreiras e ser o precursor de um modelo, mas ao mesmo tempo a perspectiva espetacular de fazer um trabalho novo, desafiador e gratificante.

Houve apenas um momento claro de tensão. Depois da palestra eu abri um tempo para perguntas e depoimentos. A maioria das perguntas era óbvia e muitas até previsíveis: “Como você foi recebido pelos seus colegas“, “O que os hospitais dizem a respeito?“, “Que resultados pôde observar?“, etc… Entretanto, houve uma pergunta – formulada por uma doula – que me fez pensar mais e me obrigou a responder com vagar e ponderação: “Como deve se comportar uma doula diante de uma indicação claramente errada de cesariana, ou diante de procedimentos equivocados do obstetra? Deve erguer a voz e defender sua paciente? Deve calar-se diante de um abuso? Como deve se comportar?

Minha resposta foi simples, direta e clara: “Doulas devem centrar seus esforços no conforto da mãe. Qualquer esclarecimento sobre procedimentos pertence ao ativismo, e este não pode ser exercido no momento do parto. A psicosfera do nascimento deve ser límpida, e a cena do parto não pode se transformar numa batalha”.

Disse isso e fiquei em silêncio. Ninguém arrematou. Não sabia se havia uma discordância absoluta e constrangedora, ou uma silenciosa aquiescência. Olhei para Robbie que, simpaticamente, me sorria. Passeei o olhar por todos os rostos presentes, até que parei do lado direito da plateia e vi a mão do Prof. John Kennell timidamente se erguer.

Suei gelado, e minhas pernas tremeram: “Agora ele vai me destruir, pensei. Vai dizer que meus conceitos estão equivocados, que as doulas precisam se posicionar com firmeza, que estamos numa cruzada para eliminar más condutas de hospitais e que eu não deveria condenar doulas ao silêncio e à conivência com as práticas sem embasamento. Vou me jogar no lago Erie hoje à tarde, e meu corpo será resgatado daqui uns anos, em um cubo de gelo boiante, na costa do Canadá”.

Mas o prof. John, do alto de sua delicadeza e suavidade apenas disse: “Meu colega, o Dr. Ric, está coberto de razão. A entrada das doulas no cenário do parto é muito recente e deve ser levada com o máximo de cuidado e delicadeza. Não podemos sacrificar um modelo de sucesso comprovado por causa de lutas com as autoridades estabelecidas. Mesmo que a doula esteja certa, isso não será suficiente. Precisamos pensar em todas as outras doulas e os milhares de pacientes que podem ser prejudicadas se uma falsa ideia de intromissão por parte delas for disseminada. Doulas devem ser anjos silenciosos, e nunca devem fazer de sua ação um enfrentamento”.

Terminou sua manifestação e sentou-se calmamente. Depois, sorriu para mim e meu coração, como por encanto, voltou a bater.

Essa foi minha primeira experiência como palestrante fora do país. Muito mais do que a grandeza de conhecimentos, a abrangência cultural ou as qualidades de oratória – qualidades estas que não possuo – minha única virtude foi a coragem aliada à grandiosidade da mensagem. Sempre me envergonhei do fato de que um projeto tão desafiador e bonito como a humanização do nascimento precisasse de pessoas tão limitadas quanto eu. Entretanto, se minhas limitações eram tão evidentes, que o fossem também meu entusiasmo e minha coragem diante dos desafios.

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