Semáforo

Prost Gravida 1

Uma vez vi, perto da minha casa, uma adolescente prostituindo-se bem na esquina onde ficava um semáforo. Parei meu carro no sinal vermelho e fiquei olhando a menina (devia ter, se muito, 18 anos, mas parecia menos) que estava com uma barriguinha tímida de gestação inicial. De princípio fiquei horrorizado: uma criança, prostituta, grávida, vendendo-se na rua, a mercê de doentes, loucos e violentos. Percebi que ela era um pouco mais velha apenas que a minha filha, que recebera a graça de ter nascido em um lar adequadamente constituído. “Injustiça cruel“, pensei eu. Enquanto olhava seu sorriso maroto de menina, seus cabelos presos para trás, seus dentes brancos contrastando com a face cor de chocolate, tive uma ideia. Boba, ingênua, culposa ou qualquer outro designativo, mas que surgiu de uma verdadeira vontade de fazer algo diante de uma situação injusta e violenta. Minha ideia foi perguntar para ela quanto seria o “programa“. Depois eu aceitaria a “proposta“, pagando por uma hora. A partir daí, eu a levaria para casa para tomar um café comigo e com a Zeza, onde falaríamos de pré-natal, trabalho de parto e parto, cuidados com o corpo, puerpério e amamentação. Exames necessários, prevenção para a saúde, etc. A intenção seria tão somente oferecer a ela uma noção, por mais superficial que fosse, da importância crucial desse momento na vida de uma mulher e seu bebê.

Mas, o sinal amarelou, depois ficou verde. Escutei alguns carros atrás de mim buzinarem impacientemente, o que me libertou do devaneio humanitário. Pisei no acelerador e fui embora, deixando minhas indignações como rastro. Pensei – claro, apenas para justificar minha atitude pusilânime – que talvez de nada adiantassem as nossas explicações, orientações e conselhos. Talvez ela só se importasse com o dinheiro para comprar bibelôs para seu bebê, ou comida para os irmãos. Também tive o pensamento de que “isso de nada adianta para o problema, apenas melhoraria a minha sensação de culpa diante da desigualdade social“, o que também era uma verdade. Mas, diante das repercussões possíveis das minhas escolhas, pensei também no pior. Imaginem eu ser pego por uma patrulha policial que estivesse de “campana”, aguardando um cliente que fazia programa com uma menor e, ainda por cima, gestante. Vocês acham que alguém acreditaria na história de um obstetra de coração mole querendo ajudar uma adolescente grávida que estava se prostituindo? Ou isso seria um alimento perfeito para tabloides sensacionalistas? “Obstetra tarado pegava adolescentes grávidas em ruas da capital“.

Acovardei-me confesso. Olhei para a manchete do jornal imaginário e pisei no acelerador. Nem cogitei fazê-lo no dia seguinte, quando pela mesma esquina passei com meu carro; mas também ela não estava mais por lá. Sumiu. Quem sabe um outro obstetra mais corajoso a tenha orientado a seguir um estilo de vida mais seguro para si mesma e seu bebê.

Há oportunidades que passam pela gente, mas muitas vezes não temos a fibra suficiente para segurá-las.

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