A Velha Infância

carrinho rolimã

Todo mundo me mandou ver o vídeo do Marco, descendo de carrinho de rolimã (ou carrinho de “lomba”, como se diz aqui no sul), principalmente porque o menino que narra a descida dramática do “Morro da Vassovelina” tem um sotaque muito engraçado. Aliás, “rolimã” é a forma aportuguesada de “roulement”, ou rolamento em francês. Esses carrinhos originalmente tinham 4 rolamentos que funcionavam como rodas. Eram toscos mesmo, feitos de uma tábua firme sobre a qual o “piloto” se sentava, e dois eixos, em cujas pontas se colocavam os rolamentos. A direção era dada pelos pés, que mexiam o eixo frontal para fazer as curvas. Funcionava com “tração gravitacional”, quer dizer…tinha que estar num local mais alto para descer em velocidade. O vídeo é realmente engraçadinho, principalmente pela maneira emocionada como ele “narra” a descida épica do Marco (o irmão mais velho e genial?), e também pelo sotaque do menino, provavelmente da colônia italiana aqui do sul.

Mas eu achei muito mais bonito do que divertido. Sim, na emoção do menino existe uma pureza que estamos desacostumados. Meninos desta idade estão normalmente trancafiados em casa jogando videogames, mas não o Marco e seu amigo. Estão ao ar livre, brincando com algo que eles mesmo construíram. Por isso a emoção incontida do narrador. Ele descreve a descida do Marco como uma aventura dramática e vitoriosa.

Esta cena me fez lembrar a minha infância, mas também as histórias de aventuras que meu pai conta de sua juventude. Muito mais do que a facilidade de brinquedos que “brincam por nós”, naquela época a imaginação é que nos guiava. Um carrinho de lomba era, na verdade, um “bólido supersônico”, dirigido pelo “Capitão Marco”, o mais ágil de todos os pilotos do exército. O morro da Vassovelina (só depois me contaram que é “Vó Salvelina”) era na verdade a escarpa tortuosa e mortal que precisava ser vencida, em cujo cume se refugiavam os inimigos da nossa pátria. Ali, nas lutas, batalhas e enfrentamentos imaginários se guardava o gérmen da nossa criatividade. O fazer era parte constitutiva e fundamental do brincar; nada era pronto, tudo ainda tinha que ser adaptado.

Que tipo de mente criativa poderá nos oferecer um mundo onde o lúdico é pasteurizado e pronto, onde os “games” sangrentos substituem as brincadeiras criativas e únicas, e onde as soluções para os problemas estão disponíveis no site da empresa?

Veja aqui o vídeo do Marco e seu amigo no Morro da Vó Salvelina…
https://www.youtube.com/watch?v=oVmOOmuRYwI

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Arquivado em Histórias Pessoais

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