Fast Food

Hamburger meal served with french fries and soda close-up

O sol escaldante torrava o capô do carro enquanto os pneus derretiam sobre o asfalto fumegante. Ao aproximar-se o pino do Astro Rei as crianças começavam a se estranhar pelo tédio de uma manhã inteira dentro de uma caminhonete alugada. Minha mulher Norma tentava em vão acalmá-los, dizendo que amanhã, por esta hora, estaríamos nos divertindo no “parque aquático Schlitterbahn”, descendo na velocidade da luz por escorregas infinitos de água cristalina.

Meu filho Pedro de 10 anos, e minha filha Lauren, de 7 estavam visivelmente excitados com a possibilidade de visitar um lugar que há muito eu lhes havia recomendado. Entretanto, a viagem até lá, partindo de San Antonio, levaria mais de duas horas, e precisaríamos parar para almoçar. Mais do que a inevitável excitação pelo passeio, agora a fome também contribuía para nossa inquietude.

– Pare assim que for possível, disse Norma. As crianças precisam comer algo. Podemos almoçar, descansar um pouco e depois continuar viagem. Mas por favor, não pare nessas lanchonetes de “junk food”. Quero que eles comam algo de verdade.

Concordei, mas percebi que se eu me mantivesse na estrada seria impossível encontrar algo diferente de “Wendy’s”, “Mac Donald’s”, “KFC” ou “Taco Bell”. A monotonia das autoestradas americanas é indescritível. Uma sucessão infinita de “dejá vu” que se repetem a cada entroncamento. Os edifícios onde se situam tais lanchonetes parecem feitos de LEGO, monótonos e pré-moldados. Todos feios e previsíveis.

Decido virar a direção em uma saída aleatória. “Exit 348”, mas poderia ser outro número qualquer. Mantive-me no acesso lateral até me sentir seguro para dobrar à direita e adentrar nas ruas do local. Uma via asfaltada e sem calçadas descortinava um bairro residencial, mas eu esperava encontrar algum lugar onde fosse possível sentar e comer. Talvez se eu continuasse minha rota adiante poderia descobrir um centro comercial, uma rua de compras ou um restaurante de comida mexicana. Ou indiana, tanto faz.

Quanto mais eu prosseguia, mais difícil aparecer um lugar para almoçar. Já cansado de girar o pescoço para os lados à procura de uma placa, resolvi parar em um posto de gasolina. Pergunto onde há um restaurante.

– Aqui temos vários. Pode dobrar na próxima rua. Ali tem um “Mac Donald’s”, e mais adiante…

Eu o interrompi antes que me desse a lista que eu já conhecia.

– Na verdade estamos a procura de um restaurante que não seja de “fast food”. Algo como “comida caseira”, sabe? Arroz, feijão, um bife, fritas, ovos, cenouras, tomates, etc. Conhece algum?

O rapaz coçou a cabeça e franziu a testa. Disse para virarmos para o outro lado, pois ele lembra de que perto do monumento havia algo parecido com isso.

Seguimos nosso rumo para onde nos indicou o frentista, mas não havia nenhum restaurante no local indicado. Em verdade o prédio descrito há muito estava abandonado, coberto de madeiras e sem vida. Porém, do outro lado da rua havia uma lanchonete. “Burger King”, estava na placa luminosa.

– Vamos até lá para perguntar onde está este restaurante. As crianças estão aflitas e eu também estou morrendo de fome. Vamos, não custa nada.

Claro, era Norma falando. Homens tem uma natural aversão a pedir informações, talvez porque parece que a cultura tem a expectativa de que nós sempre tenhamos pleno conhecimento de onde estamos e para onde vamos. Pedir informação é uma capitulação, uma fraqueza.

A lanchonete estava vazia, talvez pelo calor, quem sabe por ainda não ser meio-dia. Atrás do balcão uma menina de uniforme e semblante hispânico, e no caixa um senhor aparentando 50 anos, de bigode ralo e óculos, que parecia ser o gerente. Aproximei-me dele e perguntei se havia algum restaurante no bairro que vendesse “comida caseira”, tipo “feita em casa”.

Ele levantou os olhos para a rua e disse:

– Aqui havia um na esquina mas, como pode ver, fechou. Não creio que você vá encontrar algum por aqui. Talvez em Northcliff, porém não posso garantir. Mas temos várias opções de lanches. Veja, temos o Whooper, o Chicken Jr, o…

Norma o interrompeu com a mão à frente.

– Eu sei os produtos que existem aqui, mas é que as crianças são pequenas. Não gostamos de comida industrializada para eles. Além disso, nunca sabemos exatamente do que estes lanches são feitos.

Dois hambúrgueres alface queijo molho especial cebola picles um pão com gergelim…

Minha filha Lauren sorria ao meu lado. Seu sorriso infantil e desdentado não me permitia sequer censurá-la. A música havia colado em sua mente, e ela a repetiu irrefletidamente.

O gerente continuou.

– Bem, esta é a musiquinha do concorrente, mas não está muito longe nos nossos produtos. Veja, temos um controle de qualidade insuperável. Nossas máquinas são calibradas semanalmente e nossa equipe é treinada de maneira altamente profissional. As nossas refeições são preparadas sem contato com as mãos. Uma máquina corta o pão, a outra prensa o hambúrguer, uma outra coloca os ingredientes e esta última aqui atrás de mim os empacota. Tudo asséptico e tecnológico.

– Eu entendo… senhor?

– Gonzáles, ao seu dispor.

– Eu entendo Sr. Gonzáles, disse eu. Por outro lado é exatamente esta falta de presença humana que me assusta. Eu gostaria de uma refeição que se adaptasse ao meu gosto particular, à quantidade de carne que minha mulher gosta, ou à alergia às cebolas de minha filha Lauren. A comida que os senhores servem não parece comida: parece ração, pois não é feita para pessoas, e sim para entidades biológicas que precisam de nutrientes para continuar a trabalhar. Para nós comida é um pouco mais do que isso, pois cumpre uma função simbólica.

Gonzáles me olhou como se eu estivesse falando algo assustador e bizarro.

– Mas temos análises feitas por laboratórios que nos garantem que os nutrientes usados…

Interrompi mais uma vez o gerente.

– Gonzáles, eu concordo com você. Reconheço as pesquisas, mas não se trata de ciência, mas de valores. Eu acho que o ato de se alimentar vai muito além dos nutrientes, dos carboidratos, da glicose e das proteínas. Comer é um ritual, repleto de simbologias, que incluem sinalizadores de valores culturais inconscientes. Portanto, não se faz comida com nutrientes, mas com palavras.

Claro que Gonzáles ficou ainda mais assustado com o meu discurso.

– Eu não conheço nenhum restaurante do jeito que vocês querem por aqui. Se vocês voltarem para a auto estrada encontrarão Wendy’s, KFC e o “concorrente”, vocês sabem qual. Olha, vou confessar a vocês. Nasci do outro lado da fronteira, se é que você me entende, em Nuevo Laredo. Vim para cá pequeno, junto com minha família. Meus pais tinham um restaurante por lá. Mas era um trabalho duro atender a clientela, pois cada prato tinha uma particularidade. Uns não queriam tomate, outros não aceitavam picles; outros comiam metade do prato, e desperdiçávamos o resto, e outros ainda reclamavam que era muito pouco. Trabalhar para cada pessoa isoladamente é muito cansativo e dispendioso. Trabalhar da “maneira antiga” demandava muito tempo. Os dias de hoje não permitem mais essa dedicação à cada cliente. Precisamos de tempo, muito tempo, o elemento mais escasso no mundo atual.

Respirou fundo e continuou.

– Aqui as coisas melhoraram muito. Agora todos os lanches são iguais, independente da fome que você tiver. Todas as porções são idênticas, todos os elementos os mesmos. Não trabalhamos com a diversidade que tanto nos atrapalhava. Apostamos no modelo industrial de manufatura de produtos. Veja ali…

Gonzáles apontou para uma máquina atrás dos balcões e no fundo da loja, e continuou sua explanação.

– Ali está o pão antes de ser cortado, e ali começa o seu lanche, na primeira máquina. Depois ele vai passar por estas outras aqui, sem que ninguém toque nele, até chegar nesta espécie de prateleira vertical, embrulhado, asséptico e pronto para comer. Não acham isso uma maravilha?

– Uma esteira de montagem, disse Norma.

– Sim!! disse Gonzales. Seu olhar era de pura sinceridade, com inegável entusiuasmo. Sim, parecia uma maravilha que a tecnologia economizasse o seu tempo para fazer uma refeição para os outros. Também parecia interessante o fato do processo praticamente não precisar de pessoas, o que explicava o número restrito de funcionários àquela hora do dia.

– Bem, Gonzáles, não queremos mais tomar seu tempo. Obrigado pelas orientações e pelas explicações do seu trabalho. Vamos continuar a procurar mais um pouco. Felicidades e boa sorte.

Ele sorriu com visível amabilidade e acenou com a mão.

Buena suerte y hasta luego, disse ele ao deixarmos o local.

Quanto nos aproximamos do carro havia um senhor de mais idade perto de onde o estacionamos, sentado em uma cadeira de praia sob o toldo de uma loja de equipamentos elétricos. Ainda curioso com a situação me aproximei do senhor e fiz uma pergunta.

– Bom dia, o senhor poderia me dizer o que houve com o restaurante que fechou aqui na esquina?

– O Gilda’s?, perguntou o senhor.

– Sim, aquele da esquina ali, disse eu apontando para o prédio com tapumes.

– Ah, fechou há alguns anos. Não havia interesse em continuar. O dono saiu da cidade. Ele também era maltratado pelos colegas concorrentes. Tinha uma empresa de buffet e fazia comida para festas. É … ele cozinhava na casa das pessoas.

– Uma pena, disse eu.

– Sim, respondeu o senhor. Agora se você quiser almoçar tem que comer comida de papel com bife de plástico.

Sorri para ele e me despedi.

Dentro do carro a ideia foi tentar mais alguns minutos e, se nada encontrar, voltar para a autoestrada e parar em uma lanchonete mesmo. Afinal, a fome estava cada vez pior, e as crianças mais agitadas.

– Podemos ficar dois dias em Schlitterbahn papai? Quero andar em todos os tobogãs, em todas as piscinas, em todos os brinquedos!

Lauren era a mais entusiasmada de todos, sem dúvida.

– O que o papai disse? Podemos brincar hoje. Não teremos muito tempo para ficar pois sua mãe tem que voltar para casa, e você sabe porque, não é?

– Sim!, disse ela. O bebê vai chegar!!

O ventre reluzente de Norma mostrava o quinto ocupante do carro. Suas semanas estavam findando, mas o passeio foi um acordo que fizemos com o pequeno Martin. “Aguarde um pouco para que seus irmãos possam se divertir”, dissemos a ele. Até agora ele havia cumprido sua parte no acordo.

– Sim, mamãe precisa estar descansada e precisamos estar próximos de casa para ir ao hospital, certo?, disse eu.

Dois hambúrgueres alface queijo molho especial cebola picles um pão com gergelim…

Era Pedro, cantarolando irrefletidamente a canção, enquanto mexia no seu Tablet.

 

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