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Mães

Certa vez uma senhora, paciente de muitos anos, trouxe a sua filha adolescente para consultar comigo, mas pediu para entrar primeiro e dizer “umas palavrinhas” antes da consulta da garota. Ela então disse que achava que o namoro da filha com um rapaz da escola estava ficando muito “quente” e que seria bom ela tomar anticoncepcionais antes de ter relações, para evitar alguma “tragédia”.

O senhor sabe como é na idade dela…. eles são tão novinhos.

Perguntei se a filha já estava tendo relações ao que a mãe falou: “Não, ainda não. Se ela estivesse tendo eu saberia. Confio na minha filha; ela conta tudo para mim. Somos grandes amigas”.

Fiquei em silêncio e avisei a secretária para deixar a menina entrar e solicitei que a mãe aguardasse na recepção. A mãe saiu e quando cruzou com a filha no hall que leva à recepção porta elas se abraçaram afetuosamente.

A menina entrou e sorriu. Perguntei a ela se achava que deveria se preocupar com anticoncepção e ela respondeu afirmativamente. Questionei se ela já estava tendo relações sexuais ou era um plano para o futuro. Ela respondeu sem titubear:

– Ahh, não doutor. Tenho relações há dois anos, mas agora estou namorando firme. Mas, é claro, a minha mãe não sabe dessa história toda.

Deixou cair sobre o rosto um sorriso maroto. Eu, cá com meus botões, pensei “Jesus seja louvado”.

Quer saber o que me deixava em pânico no consultório? Quando uma mulher madura, mãe de adolescente, me dizia: “Não tenho segredos com a minha filha. Ela me conta tudo; sou sua melhor amiga. Nunca houve mentiras entre nós”.

Eu, silenciosamente, pensava: “Como você permitiu que sua filha perdesse a preciosidade de uma mãe para ganhar a banalidade de uma amiga??” Como diria o sujeito aquele que foi buscar duas garrafas de Coca Cola na geladeira, “mãe só tem uma”, já os amigos a gente cria, se desfaz, reconquista, troca, esquece ou mantém com fervor. São instâncias de afeto completamente distintas, com pesos diferentes na constituição sujeito.

Assisti faz tempo a uma famosa entrevista onde uma repórter pergunta para Madonna, no auge de sua fama, se haveria alguma coisa pela qual ela trocaria todo o dinheiro e reconhecimento que havia alcançado nos últimos anos. Sem trocar o sorriso do rosto a cantora exclamou, sem titubear: “Uma mãe”. Madonna perdeu sua mãe muito cedo vítima de um câncer.

Mas, para além disso, como exigir que uma adolescente tenha seus segredos, paixões, desejos e fantasias expostos ao julgamento da mãe? E, pior ainda, como expor os jovens aos dramas e às dificuldades da vida adulta, em especial os dilemas da vida sexual e amorosa dos pais? Poucas coisas são mais cruéis do que essa promiscuidade afetiva. A “amizade” entre mãe e filha me parece sempre um sintoma materno produzido pelas dificuldades de ver os filhos indo embora. A amizade lhes ofereceria uma ilusória proteção diante dos seus dramas pessoais; agarram-se aos filhos abrindo mão até da maternidade, pelo amparo de que tanto necessitam.

Lembro bem do orgulho que senti quando, caminhando pela rua com meus filhos pré-adolescentes, eu lhes disse: “Sentiram esse cheiro? Isso é maconha”. Eles se entreolharam e deram gargalhadas, deixando-me com cara de bobo, por imaginar que estivesse lhes contando uma novidade. Ali percebi que havia para eles um universo que era para mim interditado, próprio, privado e que eles jamais haviam me contado. Ao lado da tristeza de perdê-los tive o vislumbre de que a vida madura se expressa por esses “fracassos”, distanciamentos que se impõem, permitindo assim que as subjetividades prevaleçam.

Há muitos anos eu estava de plantão no hospital quando chegou uma senhora carregando um bebê e gritando desesperadamente pelos corredores. Ajudei a colocar a criança sobre uma cama e me surpreendi com o fato de que não era um bebê, mas um jovem de 19 anos (soube depois) com o tamanho de um bebê e com o corpo totalmente atrofiado por uma doença congênita. O jovem sucumbiu por uma pneumonia devastadora em minutos e tivemos apenas tempo de vê-lo expirar diante de nós; nenhuma ação teve efeito diante do quadro gravíssimo no qual chegou. Depois de comunicado o óbito, a mãe entrou em desespero e passou a atacar a equipe do hospital, sendo contida pelo marido que pedia que se acalmasse.

Passados alguns minutos, e mais tranquila, ela se desculpou e veio me dizer que aquele filho significava tudo na sua vida, toda sua atenção e devoção desde que nasceu. Ele demandava cuidados diários intensivos e até estafantes para ela. “Ele inclusive dormia comigo na cama, ao meu lado”, disse ela.

Naquele exato momento me dei conta das razões recônditas do desespero, que extrapolavam em muito a perda de um filho querido. Sem seu filho amado a lhe servir de escudo, como enfrentar agora os dilemas de sua vida afetiva e seu envelhecimento inexorável? Como encarar a vida a dois sem seu “bebê” a lhe garantir o amparo afetivo? Sem sua presença, como enfrentar as demandas que, por certo, haveriam de ocorrer?

A maternidade, pelo seu poder e seu significado na perspectiva da espécie humana, tem o poder mítico de produzir tanto as luzes mais fulgurantes quanto as trevas mais obscuras.

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Fim de festa

É verdade isso… Um dia você sai com seus amigos para jogar bola, soltar pipa, brincar de correr pelas ruas do bairro, tomar um sorvete no bar do seu João. Dão risadas, conversam, fazem “cabo de guerra”, se abraçam, trocam figurinhas e jogam bolinha de gude. Quando a noite se aproxima voltam todos para casa, sem se dar conta que aquela foi a última vez que todos compartilharam sonhos, alegrias e esperanças.

Talvez seja melhor que a gente não saiba, senão esse derradeiro encontro seria difícil de aceitar. É bom que estes laços se desfaçam sem que a gente perceba, para que o fim da infância não seja marcado por uma lembrança tão triste.

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Amizade

Sobre ser amigo de uma mulher…

É Sempre mais fácil percorrer seu caminho em terreno conhecido, mas só as trilhas misteriosas, escuras e ignoradas nos levam a descobertas novas e para lugares diferentes. Agradeço às minhas amizades femininas o prazer e a honra de descobrir, através delas, um mundo tão diferente, mágico, desafiante e rico.

Scott Dempsey, “Betrayed by the Moon”, ed. Jasper Editing, pag. 135

Scott Dempsey é um jornalista canadense, nascido em Winnipeg em 1975. Escreveu algumas biografias de esportistas – como a biografia de Gerald Fitzbaun, esquiador canadense multicampeão – e artigos para jornais esportivos. Escreveu “Betrayed by the Moon” como um relato jornalístico sobre as olimpíadas de inverno de 2014 em Sochi, com enfoque especial para o problema de doping na delegação da Rússia.

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Das onze à meia-noite

Há alguns anos eu costumava jogar bola nos domingos à noite com meu filho Lucas e sua turma de amigos da escola. Imaginem o tiozão, 20 anos mais velho que todos, mas que se esforçava para jogar de igual para igual. O jogo ocorria no famoso “Gauchão”, quadra de esportes próxima de nossa casa onde hoje fica a Terceira Perimetral. O local foi demolido para a construção de um condomínio de edifícios e dizem as más línguas que o maior acionista dos prédios era o colega que recolhia a nossa contribuição para o famoso embate “das onze à meia-noite“.

As regras dos confrontos eram simples, e foram cumpridas de forma correta por muitos anos. Todos eram amigos. Não se discutia o jogo depois de acabado. Quem chegasse atrasado era zoado por todos e ia imediatamente para o gol. Não era permitido brigar ou discutir de forma ríspida. Não podia faltar e deixar seu time capenga. Não podia tomar gol de propósito para sair do gol mais rápido. Semana que vem sempre tinha mais.

Era para ser assim, mas evidentemente ocorriam deslizes. Um desses deslizes aconteceu em uma partida na qual eu perdi a cabeça com a falta de dedicação de alguns para o jogo, o fato de não passarem a bola ou exagerarem nas firulas. Jogadas mais ríspidas e um certo deboche da equipe que estava ganhando. Briguei com os meninos, xinguei, falei mais alto e nitidamente perdi a cabeça. Até eles acharam que eu estava estranho. Não confraternizei com ninguém após o jogo e logo fui embora. Ainda dirigindo o carro de volta para casa argumentei com o Lucas que não se tratava de futebol, mas que aquilo era um ensinamento para o resto da suas vidas, e que eu tinha a obrigação de mostrar a eles as condutas e comportamentos que poderiam ser danosos para o desenvolvimento emocional de adolescentes. Lucas apenas me respondia “Mas pai, é apenas um jogo de futebol no domingo. Nós até podemos perder a cabeça, afinal somos adolescentes. Você é que não pode se comportar dessa maneira“.

Cheguei em casa ainda irritado com os acontecimentos do jogo. Pensei que era a minha obrigação mostrar a eles a maneira correta, a forma adequada, o brio, a disputa leal, a determinação, o empenho, a lealdade e o companheirismo. O que eu havia visto se afastava disso. Parecia a mim importante não deixar que um comportamento assim passasse sem um contraponto. Afinal, eu era o adulto no lugar, e eles precisavam aprender regras de convivência enquanto ainda eram jovens.

Passei algumas horas pensando nisso e depois adormeci. No dia seguinte o meu destempero e as minhas palavras duras ainda ecoavam na minha cabeça. Entretanto, aos poucos as brumas da irritação foram se dissipando e eu comecei a enxergar o episódio com outros olhos. Mais do que uma oportunidade de mostrar a importância da disciplina e do empenho aqueles fatos do jogo de domingo poderiam me oportunizar um outro ensinamento.

Sim, lentamente pude perceber que os valores mais importantes a aprender daquele fato eram a temperança, a calma e a serenidade. Mais do que o foco no jogo e suas consequências, a visão de uma postura conciliatória e pacífica. Lucas tinha mesmo razão: era apenas um jogo de meninos, e minha reação extrapolava os limites do aceitável.

Encontrei Lucas à frente do seu computador e apenas lhe disse: “Sim, meu filho. Você tem razão. É apenas um jogo. Não podemos brigar por causa disso. Somos amigos, companheiros, parceiros. Um jogo de futebol não pode ser uma fonte de mágoas, rancores e ressentimentos. Vamos manter nossos desacertos apenas dentro da quadra e chutar em frente o resto“.

Lucas sorriu e até hoje sinto seu contentamento por perceber a lição que todos tivemos naquele jogo “das onze à meia-noite“.

Convido a todos para que pensem nisso quando o calor da disputa eleitoral passar dos limites. Somos todos amigos, irmãos. Vamos deixar o debate eleitoral no seu devido lugar, e não permitir que ele invada nossos corações destruindo afetos e histórias bonitas de convivência.

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