Lágrimas Seletivas

LAGRIMA

 

Nossas lágrimas só vertem quando conseguimos nos identificar com os dramas que a vida apresenta. A tragédia só dói se for em nós, real ou imaginária. Se um jogador de futebol tem uma filha com problemas médicos milhares de torcedores vão ao estádio doar sangue. É fácil se identificar com alguém que conhecemos e podemos entender seu sofrimento. Se um terremoto destrói cidades inteiras na China como poderei me identificar e sofrer? É preciso que haja mínima conexão identificatória. Brancos europeus caindo de avião são parecidos comigo (que sou branco e também ando de avião), mas negros trancafiados como escravos são sub-humanos, quase animais. Professor universitário apanhando em delegacia na ditadura vira filme; preto e pobre apanhando, nem B.O. Enquanto não enxergarmos TODOS os humanos como iguais estas distorções continuarão acontecendo, e nossas lágrimas serão seletivas.

Porque nos assombramos com os coreanos que comem carne de cachorro? Porque nos horrorizamos com a morte de baleias e golfinhos? E porque não fazemos o mesmo com peixes (tubarões em especial), gado, porco ou aranhas? Porque elegemos alguns animais cuja morte achamos inadmissível que ocorra em nosso benefício, mas para outros não estabelecemos a mesma simpatia? Porque existem fundações para a proteção de baleias, mas não de lagartixas?

Minha resposta é que protegemos a NÓS mesmos, e não os animais. É nossa dor identificatória que queremos aliviar. Um cachorro me parece mais humano, mais parecido conosco que um peixe. Se for possível a identificação, aí sofremos, mas esta identificação vai ocorrer se encontrarmos naquele animal algo semelhante a nós. Num cão tal processo parece muito mais fácil de ocorrer do que em um molusco. É a dor que sentimos que pretendemos afastar, e não a dor por ser ele um animal indefeso. Quando o avião com os europeus cai no oceano isso nos maltrata porque fica simples e fácil a nossa identificação com o sofrimento das famílias envolvidas: também temos famílias brancas e que andam de avião. O mesmo não ocorre em um cargueiro cheio de negros fugitivos trancafiados em um porão. Quando os americanos matavam vietcongues na Ásia Menor nos anos 70 isso era sentido pela opinião pública americana, mesmo que secretamente, como “matar formigas”. O documentário “Corações e Mentes” daquela época mostrava os políticos americanos se esforçando ao máximo para desumanizar o povo do Vietnã, exatamente porque, assim transformados, ficava mais fácil aceitar seu aniquilamento sistemático.

Desumanizar é fundamental para levar adiante qualquer projeto macabro de destruição. Judeus, negros e os palestinos foram sujeitos ao mesmo tipo de monstruosidade.

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