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Obediência

Quatro sujeitos entram em um mercado num dia muito quente de verão. Pelo calor reinante os rapazes adentram no local sem as camisas. O proprietário imediatamente pede que coloquem a roupa e aponta o cartaz com a proibição afixado ao lado na porta.

Os quatro rapazes brincam e avisam que não vão demorar pois querem apenas comprar refrigerantes e já vão se retirar. O proprietário, impaciente, pede uma segunda vez enquanto, ato contínuo, acena para o carro de polícia que está estacionado em frente.

Três policiais entram enquanto os meninos estão pegando os refrigerantes. Ainda com a porta do balcão refrigerado aberta, três deles são empurrados a força para fora, mas um deles é jogado no chão e tem a cabeça prensada pelo joelho do policial. Sua boca sangra enquanto as algemas são colocadas em seus punhos, colados em suas costas.

Ele então pergunta, “Por que essa violência? Viemos comprar refrigerante!! Nada disso é necessário!!”. Enquanto isso seus amigos assustados aguardavam olhando através do vidro do mercadinho.

“Cala boca, neguinho” grita o policial com o nariz grudado no rosto do rapaz. “Você vai aprender a obedecer quando lhe mandam fazer algo.”

O jovem negro, ainda com a face colada ao piso frio, observa seus três amigos brancos aguardando, enquanto a viatura policial grita o som angustiante de sua presença.

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Carrefour

“E os brancos que são mortos por negros? Eles não valem nada?”

Suas mortes são igualmente lamentáveis, mas pense bem: eles não morrem POR SEREM brancos. No caso do Carrefour o racismo é o principal elemento da cena, mas por certo não o único. A violência absurda, a covardia e o uso abusivo da força também contam. O poder econômico de uma grande rede de supermercados multinacional atacando a ponta frágil da sociedade – preta e pobre – é inegável e não podemos fechar os olhos para essa face cruel do capitalismo.

Mas a observação da Bebel é certeira e vai no ponto: se fosse branco nada disso teria acontecido. Alguém conversaria com ele, chamaria um responsável da loja e acabaria tudo sem maiores problemas. Vejam os vídeos dos barracos que brancos fazem e perceba a diferença. É a cor da pele, é a cor…

Sim, ele morreu por ser negro, sua condenação estava na escuridão da sua pele. Um negro não tem o mesmo direito de fazer um “barraco” e tudo ser resolvido na conversa, chamando o gerente. Não, com eles é na porrada no mata Leão, na asfixia – há pouco tempo, no chicote. A execução é sem júri, sem advogado; é no chão frio da rua, atrapalhando as “pessoas de bem” que vão fazer suas compras.

Claro que há negros que matam brancos, mas mostre para mim um grupo de negros pulando e asfixiando um branco apenas por ele ter sido inconveniente ou abusado. Onde estão?

A desculpa, quase onipresente aqui e nos Estados Unidos, é bem conhecida por todos nós: Por que ele resistiu? Por que não cooperou com as “autoridades”? Pois eu acho essa pergunta a maior das ofensas, pois no fundo ela significa: “Hei negro, ponha-se no seu lugar. Quando a gente manda, você obedece!”

Para um negro, reagir a uma injustiça é sempre um crime inafiançável. A eles só cabe a resignação e o silêncio.

O racismo fica evidente quando o que para nós brancos é tratado como “exagero” ou “inconveniência” para os negros significa uma sentença de morte.

Os não brancos são 51% desse país. Por quê nossos irmãos são tratados com muito mais crueldade que qualquer animal? Ontem foram 80 tiros. Um pouco antes Amarildo. A juventude negra continua sendo massacrada diariamente pelo Estado racista.

Até quando???

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Espiritismo e Racismo

Seria absurdo imaginar que a doutrina espírita não estivesse embebida no caldo cultural do século XIX. Está foi a época áurea do colonialismo europeu em África e Ásia, o qual causou milhões de mortes e produz repercussões até os dias de hoje.

Seria surpreendente que Kardec, diferentemente de todos os pensadores europeus do seu entorno, tivesse uma posição diferente do racismo “científico” de sua época. Esta vertente do modo de pensar do século XIX desembocou na eugenia que invadiu ainda boa parte do século XX e contaminou o pensamento de inúmeros literatos, cientistas e pensadores de várias áreas, em especial a medicina.

Portanto, o espiritismo nascente era mesmo racista, como era toda a cultura europeia no tempo de seu surgimento. Não há porque negar este fato. Por outro lado, é necessário fugir do anacronismo simplório e entender qualquer sujeito e todo ramo de conhecimento inseridos nos valores vigentes em seu período de aparição. Criticar o espiritismo de meados do século XIX usando as regras de hoje não é correto ou justo.

Cabe aos espíritas atuais não apenas rejeitarem este racismo, mas serem vigorosos combatentes anti racistas exatamente pelo estudo do ideário espírita, que ao desvendar a realidade do espírito deixa qualquer diferença moral e intelectual de raça e gênero como sendo tola e sem sentido.

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Racismo invisível

O sucesso do negro no Brasil é crime hediondo, insuportável. Digo também que o sucesso do nordestino pobre com dedo faltando também machuca aqueles que não aceitam a ascensão das camadas mais baixas da sociedade. Por isso Lula é atacado e Fernando Henrique, o “príncipe”, poupado. Por isso Pelé foi duramente ofendido (chamado de “ser humano desprezível”) no seu aniversário por seus problemas familiares (o reconhecimento de uma filha fora de seus casamentos), mas Simone, socióloga francesa, chique e branca, jamais foi atacada por sua defesa da pedofilia. Ou quando citam Marie Curie e não falam do abandono de seus filhos. Não, elas eram brancas demais para merecer o mesmo tipo de ataque destrutivo que o Rei do Futebol recebe há tantos anos. Afinal, para elas vale a regra: “os gênios são esquisitos mesmo”.

Não esqueçam que, antes do caso da filha que faleceu de câncer, Pelé era acusado de não ter ajudado Garrincha diante de suas mazelas com o alcoolismo e a falta de dinheiro – como se Pelé tivesse obrigações com o craque das pernas tortas. Isto é: Pelé jamais teria perdão, e o crime poderia ser escolhido dependendo do gosto do acusador.

Sim, diante da chuva de ataques ao Pelé por suas fragilidades e seus pecados, e diante da constatação de que isso nunca foi feito com os defeitos de Ayrton Senna (entre outros ídolos esportivos) fica inegável para mim que há também – mesmo que de forma inconsciente – um ataque a um “negro metido a besta”, que nunca aceitou seu lugar.

O racismo se assemelha à violência obstétrica nesse ponto: tanto mais forte quanto mais inconsciente e mais disseminado silenciosamente pelos “costumes”. E veja: pode-se ser racista travestido das melhores intenções, assim como as piores violências de gênero contra as gestantes podem ser cometidas ilustradas com a famosa frase “aceite, é o melhor para você”.

Para ver a fala de Emicida sobre o tema no “Papo de Segunda” do GNT, clique aqui.

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De novo, Charlie

De novo fatos semelhantes ao episódio do Charlie Hebdo sacodem a França, um país que, após uma história de colonialismo espoliador e cruel, hoje recebe milhões de imigrantes do Magreb, numa curiosa reversão de fluxo humano.

Um professor mostra a caricatura do profeta Maomé em aula, o que causa revolta dos alunos e seus pais muçulmanos. A atitude dele foi temerária. Riscou fósforo em um paiol de pólvora étnica. A questão é que não se trata apenas de debater a liberdade de expressão (da qual sou amplamente favorável) mas sobre o uso dela como veículo de racismo e exclusão em um país cuja ação criminosa na África ainda não teve todas as cicatrizes curadas.

Se o seu assassinato é condenável pela motivação religiosa, por sua estupidez e barbarismo, as publicações que se escondem por trás da liberdade de expressão para fomentar racismo também deveriam ser questionadas.

Todavia, qualquer que seja o questionamento, não é mais admissível que estas questões sejam solucionadas com violência desmedida e covarde.

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