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O ódio

O texto de uma defensora de Bolsonaro – médica da minha cidade, de uns 60 e poucos anos – atacando uma crônica de Marta de Medeiros (“Salvos pelo Atraso” – Jornal Zero Hora, 22/02/20) nos ajuda a entender os intrincados mecanismos de ódio presentes no psiquismo dos (e das) bolsonaristas e outros elementos da extrema direita que saiu do armário a partir dos movimentos de 2013.

A manifestação raivosa e ultrajada parte de uma perspectiva típica de classe média alta, centrada sua na visão particular e elitista de mundo, sem considerar que esta parcela – ou bolha – na qual circulam neste país não soma mais do que 20% da nossa população. Chama à atenção igualmente o uso dos velhos chavões com os quais acusam o ex-presidente Lula, chamando-o de “cachaceiro”, “ladrão”, “semialfabetizado”. Não se furta de repetir as fake news que falam do envio de dinheiro para países marcadamente de esquerda, como Cuba e Venezuela – mesmo depois que estas notícias plantadas pelos robôs da direita foram clara e amplamente desmentidas pela auditoria contratada pelo próprio governo atual.

As agressões à “presidentA” (é assim que se referem a ela) Dilma também seguem o mesmo roteiro de ofensas sem sentido (sim, é possível estocar a energia dos ventos) e uma combinação de misoginia com o clássico preconceito de classe. Como aceitar que uma mulher honesta seja representante de um país e tenha a audácia de pensar nos desfavorecidos? Inadmissível…

No fundo, o que sempre transparece é o desprezo pelo pobre e pelo negro. O nojo dessa classe pelo próprio brasileiro, pela nossa cor mestiça, pela nossa arte, nossas festas, nossos personagens, nossa música e nossa cara. Desprezam o carnaval exatamente por ser uma festa de “vagabundos”, sem entender a profunda vinculação do nosso povo com esta festa e a enorme quantidade de trabalho e renda que ele representa para milhões de pessoas.

O drama se faz agudo e histérico porque esses sujeitos brancos se sentem ameaçados por esta “nação mulata”, prisioneiros em um “enclave de branquitude”, avessos ao mundo de diversidade que os rodeia – e os ameaça. Nunca foi a economia, a fala popular de Lula ou as gafes de Dilma que produziram tanto ódio; foram o racismo, a síndrome da Casa Grande e a ferida ainda aberta da escravidão que os fez odiar tanto qualquer um que represente o Brasil profundo.

É o nojo do diferente e a ilusão de superioridade que tanto os motiva. É o desejo de “ser como era antes”, quando todos sabiam seu lugar. É a saudade da subserviência de tantos negros, migrantes, pardos e pobres, outrora acostumados à fidelidade trocada por migalhas.

Para estas pessoas, atreladas a um passado de desprezo pelos de baixo, o Brasil fraterno precisa responder, mesmo que a energia da indignação seja a força motriz para levar adiante essas necessárias mudanças.

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Childfree

Sobre páginas “Childfree” – grupo de pessoas que combatem a discriminação contra indivíduos sem filhos…

Minha percepção sobre estas comunidades nas mídias sociais é que TODAS essas páginas de grupos oprimidos passam pelo mesmo processo. Observe bem: se você fizer uma página de pessoas negras que lutam contra o preconceito racial com o tempo vai aparecer alguém que odeia brancos e deseja destilar todo o seu ódio contra essas pessoas, devolvendo a violência que sofre com mais violência – agora com sinal trocado. Certamente serão uma grande minoria, mas a veemência de seu discurso, fruto de dores continuadas, fará sua voz reverberar mais alto do que a maioria silente.

Da mesma forma, se um grupo feminista se une para combater a opressão machista vão inevitavelmente aparecer mulheres com discurso de ódio – e não contra os machistas, mas contra todos os homens. É fácil descobrir quem são: rapidamente dizem que o estupro é algo “natural” para todos os homens, são todos “esquerdomachos“, não passam de “escrotos” e não são dignos de nada. Escrevem sobre a superioridade moral de um gênero sobre o outro e, apesar de serem minoria, acabam contaminando os grupos com a potência do seu ressentimento. Devolvem a opressão que dizem sofrer com ódio, exclusão, violência e vingança.

Os grupos “childfree” eu pouco conheço. Minha posição de admiração ao parto e às crianças nunca me permitiu qualquer aproximação com pessoas que desprezam esses aspectos essenciais da vida. Entretanto, a escolha PESSOAL de não ter filhos é tão respeitável quanto qualquer outra. Eu não diria o mesmo de uma postura institucional ou proselitista – pois ela atenta contra a própria continuação da vida humana no planeta – porém, esta decisão pessoal, como qualquer outra, precisa ser respeitada.

Esse grupo não poderia fugir da sina de todos os outros. Se foi mesmo criado para combater o preconceito contra sujeitos que decidem não ter filhos, rapidamente atraiu pessoas cujos traumas pessoais as levam a odiar crianças, grávidas e casais que desejam engravidar. Não há como evitar que estes nichos se tornem atraentes para o deságue de ressentimentos e rancores antigos de pessoas cuja vida é salpicada de traumas.

Cabe a quem coordena tais ambientes depurá-los de indivíduos que usam uma boa causa – combate ao racismo, feminismo e preconceito contra sujeitos sem filhos – como palco para que seu drama pessoal seja encenado e onde possa distribuir sua mágoa destrutiva.

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Sectarismos conservadores

Na verdade o fundamentalismo radical é igual em qualquer parte do mundo, é semelhante em TODAS as seitas. Da mesma forma que um fanático de futebol não pode ser diferenciado de pelas cores do seu clube o mesmo se dá nos extremistas de qualquer orientação religiosa. As religiões sempre atuaram na história da humanidade como poderosas forças conservadoras. A igreja católica sempre esteve ao lado dos conquistadores espanhóis patrocinando todos os genocídios que temos conhecimento na América Latina. Hoje os evangélicos são a força por trás dos neofascistas no poder, aqui e nos Estados Unidos.

Apesar de ser válida a generalização, por certo não seria justo esquecer as pastorais surgidas nos últimos anos que tentam verdadeiramente se colocar ao lado dos pobres, mesmo sendo movimentos (ainda) claramente minoritários.

As igrejas assumem, via de regra, o lado do poder e do dinheiro. Os evangélicos e pentecostais, da mesma forma, aliam-se às candidaturas mais à direita, mais vinculadas ao poder econômico e mas explicitamente racistas, mesmo quando a imensa maioria do seu público é composto de negros, pobres, oprimidos e excluídos. Não deveria, portanto, causar qualquer espanto o fenômeno americano, onde mais de 80% dos “white evangelicals” americanos apoiam Trump, um sujeito cuja trajetória pessoal e política é um exemplo de vida OPOSTO aos preceitos cristãos. Com Bolsonaro ocorre o mesmo: um racista condenado e um homofóbico confesso recebe apoio irrestrito de sua última trincheira: a massa de pobres do universo evangélico e pentecostal, mas também de católicos “carismáticos” de direita (Canção Nova) e até de judeus e espíritas.

É importante notar que, apesar do imenso suporte que Trump obtém entre os evangélicos brancos, esse suporte desaba para menos de 30% entre os evangélicos negros. Essa equação nos mostra que por trás dessa vinculação está o racismo, um traço que une Estados Unidos e Brasil numa linha de preconceito e atraso.

Estes dados de apoio a Trump e Bolsonaro demonstram que as religiões “desmoralizadas” – isto é, onde o foco é menos MORAL e espiritual e mais político e pragmático – são as barreiras mais urgentes e complexas a serem conquistadas. Como as esquerdas e os democratas vão lidar com isso será a tônica principal das próximas eleições

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O Sofá da Sala

Acabo de ler a nota do governo brasileiro – claramente inspirada pela corporação médica – que tenta impedir o uso do termo “violência obstétrica”, curiosamente na mesma semana em que o presidente, usando a mesma lógica, diz que “racismo é algo raro de ocorrer no Brasil”. A mesma tentativa tola de tirar o sofá da sala imaginando que assim o problema deixaria de existir.

O problema não é o termo utilizado, mas a “misoginia essencial” que permeia a atenção ao parto e nascimento, resultado de 100 séculos de modelo patriarcal a conduzir nossas vidas. Violência obstétrica existe sim – e dói.

Creio que não resta nenhuma dúvida dos interesses por trás dessa manobra; elas visam, em essência, a mudança de narrativa através da supressão de expressões consagradas. Estas são atitudes muito coerentes com o modelo revisionista que se pretende implantar no Brasil de hoje. Assim, não tivemos golpe em 64, mas “governos militares”. Dilma sofreu um “Impeachment” e não outro golpe patrocinado por grupos ressentidos, o que abriu caminho para outras aberrações jurídicas como prender o ex presidente Lula sem apresentar provas.

Desta forma sorrateira o Brasil inaugura oficialmente o uso da “novilingua” acreditando que assim fazendo exterminará como por encanto a violência física e moral a que são submetidas milhões de mulheres no país, algo que o termo – agora suprimido – sempre pretendeu denunciar.

Sabemos que tais iniciativas grosseiras e ofensivas fazem parte da cobrança da dívida que o bolsonarismo tem com a corporação médica. Esta corporação foi parceira de primeira hora nas manifestações golpistas de 2013-16, que culminaram com a queda de Dilma e a prisão de Lula, e posteriormente na eleição de Bolsonaro. Aqui mesmo no sul o sindicato médico já se apressou em mandar uma nota e um vídeo parabenizando o governo Bolsonaro pela proibição. Nenhuma surpresa.

Nada disso deveria nos espantar: a corporação médica mostra seu caráter reacionário de forma explícita desde o surgimento de canais na internet como Dignidade Médica, que disseminam todo o racismo, classismo, preconceitos de cor, raça e orientação sexual há muitos anos. Antes das redes sociais este fenômeno ficava restrito às salas acarpetadas de cafezinho dos hospitais. Agora… os monstros estão todos à solta.

Cabe a nós, ativistas da humanização, mostrar que o combate à violência obstétrica não é obra de “hippies”, “radicais comunistas” ou outras promotoras de “balburdia”, mas de um coletivo de pensadores e ativistas que se debruçam há muitos anos sobre o tema da violência de gênero no Brasil e no mundo. É digno de nota que inclusive elementos progressistas da própria corporação médica reconhecem a justeza do termo – além de sua consagração pelo uso – e entendem a necessidade de fazer algo a respeito dentro da prática cotidiana da obstetrícia, num exercício saudável de autocrítica e visão de futuro..

É importante que os ativistas, que sempre foram a locomotiva a puxar os movimentos articulados pela dignidade no parto e contra a violência obstétrica, se posicionem de forma vigorosa e contundente contra este tipo de iniciativa, denunciando o atraso em conquistas históricas por uma maternidade digna e segura que tal manifestação oficial significa.

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Racismo em Lobato

Não há dúvida alguma que Monteiro Lobato era racista. Se fosse questionado talvez batesse no peito e confirmasse com veemência. A única questão é situar seu racismo no tempo e no espaço. Naquela época o racismo era “científico” e atendia pelo nome de “Eugenismo”, que pretendia uma depuração da raça através do seu embranquecimento, até porque a raça negra era vista como inferior, menos apta, estúpida e adequada apenas ao trabalho braçal. Monteiro Lobato era entusiasta dessas ideias e ajudou a difundi-las.

Faz parte do progresso das ideias pousar o olhar sobre estas figuras históricas e mostrar suas falhas. O racismo de Monteiro Lobato, mas também de Fernando Pessoa, precisa ser exposto para que seja possível soterrar as ideologias supremacistas. A importância de ambos para a literatura vai continuar, mas não é justo manter este aspecto de seu trabalho e de suas vidas desconhecido, sem sofrer o julgamento da história.

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