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Cartinhas

Sem nenhuma surpresa a resposta de Alexandria Ocasio-Cortez às críticas que recebeu sobre sua performance na festa de milionários da qual participou (usando o vestido “Tax the Rich”) cumpriu o padrão identitário conhecido. Referiu-se aos críticos como “machistas e racistas que não suportam ver mulheres negras em posição de destaque”.

Ora, não há dúvida que o racismo e o machismo são problemas reais e urgentes em países que adotaram a escravidão como sistema durante séculos e que ainda mantém suas sociedades conectadas ao modelo patriarcal. Da mesma forma, é fácil perceber que o antissemitismo permanece na cultura ocidental como discurso segregacionista, tanto quanto a homofobia multiplica vítimas no mundo todo.

Entretanto, usar essas feridas sociais para blindar qualquer crítica aos membros desses grupos traz como consequência o desgaste da retórica, prejudicando aquelas pessoas que realmente sofrem discriminação e até morrem por estas práticas. Durante 70 anos as práticas genocidas de Israel foram respondidas pelos apoiadores dessa colônia com o “holocaust card” (vejam o discurso de Norman Finkelstein sobre essa prática). Hoje em dia, questionar as ações de representantes do mundo gay – como dizer que uma cantora trans desafina – é tratado como crime. Criticar um político negro, como Holiday, passa a ser racismo. Reclamar da ação de algumas mulheres, mesmo de esquerda, torna-se um ato “machista”, e assim por diante.

O resultado dessa prática é que hoje ninguém mais presta atenção numa acusação de antissemitismo porque esse termo foi usado durante tantos anos para acobertar os massacres palestinos que os verdadeiros antissemitas se sentem protegidos. O mau uso do termo – abusivo e oportunista – o transformou em palavra vazia. Gasto, inútil, sem poder algum. Quando você chama um garoto de 18 anos que fez duas partidas de futebol de qualidade de “craque” que palavra precisaria usar para se referir a Pelé, Zico, Sócrates ou Messi?

O mesmo acontece com a “defesa” encontrada por AOC para rechaçar seus críticos: partir para o contra-ataque puxando as cartinhas fáceis que rotulam os adversários de “racistas” e “machistas”. Só faltou o “You shall not pass!!!”, ou “Não passarão!!”.

A resposta de Glenn Greenwald a esta réplica de AOC foi brilhante. Ele, um judeu gay e de centro-esquerda, não deixou barato e afirmou que o uso dessas expressões e acusações aos críticos da sua atuação de forma oportunista prejudica as milhares de mulheres e negras do mundo inteiro que sofrem reais e inequívocos ataques por seu gênero e cor. Gastar estas acusações para se livrar de críticas justas à sua atuação política é uma ação criminosa, e as vítimas são as próprias mulheres negras que ela deveria defender.

PS: Já fui chamado de “machista” várias vezes por críticas que eu fiz a algumas mulheres. Não discuto a validade destas acusações, mas se você chama a mim e a um espancador de mulheres com a mesma palavra, algo está errado. E esse erro, que produz o desgaste da palavra, só beneficia os brutos e agressores.

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Rin tin tin

A respeito das reivindicações dos povos nativos, vitimizados pelas invasões colonialistas.

As séries de TV dos anos 60-70 eram carregadas dos valores daquela época. Refletiam a euforia do capitalismo americano do pós guerra, a pujança e a opulência de sua classe média e o esplendoroso “American Way of Life”. Entretanto, pela perspectiva de hoje, passavam pano para o genocídio das populações indígenas, um massacre sem precedente na história das Américas.

Além de Rin Tin Tin – um garoto órfão cujos pais foram mortos (que surpresa!!) num ataque dos nativos e criado pelos soldados no “Forte Apache” – havia também “Daniel Boone” (e o mito do índio bom x índio ruim) e “Os Pioneiros” (o cristianismo e a família, contra a degradação pagã), que igualmente fizeram forte propaganda colonialista. Milhões de mortos foram esquecidos e uma parte importante da história americana foi apagada com esses programas que incentivavam a vilificação dos nativos enquanto produziam a exaltação do branco, cristão e “civilizado” que matava, destruía, destroçava e invadia as terras dos nativos.

Sim, enterrem o meu coração na curva do rio. Para a gente brincar de Forte Apache antes a limpeza étnica precisou rolar solta e sem freio.

O fato de aceitarmos estas propagandas descaradas naquela época, como quase todos nós (inclusive eu), não significa que precisamos continuar acreditando nesta perspectiva da história sem questioná-la de forma vigorosa. O mesmo se aplica a outros fatos da vida, em especial a falta de respeito com negros e homossexuais – algo corriqueiro na minha infância – mas que hoje não tem mais espaço na cultura. Se é possível contextualizar e entender que o “mundo era outro” também podemos reconhecer que estas séries eram propaganda explícita de supremacia branca, de movimentos racistas, colonialistas e imperialistas, e que hoje merecem uma avaliação mais apurada.

Mesmo de tendo acreditado nas mensagens supremacistas do passado, e sabendo o quanto nos divertimos com as histórias de aventura na juventude, isso não nos obriga a continuar repetindo tamanhas aberrações.

Todo mundo algum dia já acreditou em Papai Noel e não deveria se envergonhar de nenhuma festa de Natal que participou. Por outro lado, manter-se acreditando nesta fantasia hoje seria um atestado de alienação inaceitável. Continuar olhando propaganda racista sem uma necessária crítica significa aceitar seus pressupostos e sua perspectiva de mundo.

Para conhecer mais sobre o tema, veja aqui no post Enterrem o meu coração e Forte Apache.

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Garoto Neymar

Para além de ser um futebolista, o garoto Neymar é mais um ídolo negro desprezado pelas elites. Essa é a razão da disputa de narrativas que envolve há muito tempo a figura desse jogador e a controversa defesa que o PCO faz de sua representatividade no imaginário nacional.

Basta uma pesquisa simples para vermos que ninguém jamais se perguntou se Zico, Piquet, Fittipaldi ou Airton Senna sonegavam impostos, se tinham amantes, e muito menos a qualidade do seu caráter. Senna já morreu, mas os outros três são, a propósito, bolsonaristas. Mas é claro que não se pergunta isso para ídolos brancos. Por outro lado, Neymar não pode ter esse tipo de falha.

Eu pessoalmente acho o Neymar um chato; um bebê imaturo. Um Michael Jackson da bola, gênio desde os 11 anos, infantilizado e mimado. Ser tratado como Rei – ou Rainha – desde a mais tenra infância costuma destruir personalidades brancas de Hollywood, mas Neymar não tem esse direito, por ser negro. Ainda por cima é cercado de gente do pior tipo, como o seu pai trambiqueiro e sonegador. Mas só ele é julgado por ser assim, e essa é uma clara face do racismo e do ataque sistemático ao futebol brasileiro.

A chantagem que recebeu naquele caso de falso abuso sexual há alguns anos mostra que, ao colocar-se automaticamente ao lado da suposta vítima, estimulando um linchamento público, e antes que as evidências (ou a falta delas) viessem à tona, a imprensa fazia coro às tentativas de destruir um ídolo que ousa ser negro em uma sociedade fortemente racista.

Desta forma o PCO tem razão ao criticar quem tenta destruir a imagem do Neymar e do próprio futebol, tratando-os como fenômenos menores. Assim como fizemos com Pelé e as críticas à sua paternidade, Neymar é outro ídolo negro que precisa ser destruído – assim como o futebol brasileiro, um dos poucos fatores de integração do negro em nossa sociedade.

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Representatividade

Pergunto: de que adianta para a comunidade LGBT ter um governador gay? O que adianta para a comunidade negra de São Paulo ter um Holiday vereador? Que uso pode ter um Tammy Gretchen para a comunidade de trans da mesma cidade? De que vale ter mulheres como Janaína e Joyce para levar adiante a pauta das mulheres? Infelizmente nos deixamos seduzir pela forma e o aspecto externo, e muito menos pelo conteúdo e a consistência das propostas.

Como diria Chico Mendes, “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”. Pois eu digo que “Representatividade negra, LGBT e Trans sem luta de classes é apenas a fantasia vazia e colorida da diversidade”. As vidas das pessoas dos grupos oprimidos não se modificarão substancialmente com a manutenção de pautas conservadoras, mesmo quando trazidas por sujeitos destes grupos, a não ser que sejam capazes de compreender as raízes profundas que sustentam estas lutas.

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Somos todos racistas?

Eu entendo onde querem chegar as pessoas que fazem esta afirmação. Elas afirmam que a estrutura racista e preconceituosa de nossa sociedade faz com que todos os que aqui convivem de uma forma ou de outra assimilem esses conceitos, os quais ficam impregnados em suas ações e julgamentos. Ouso discordar desta perspectiva essencialmente porque creio que seja apenas injusta, inútil e improdutiva

Creio que existem dois tipos básicos de “racismo”. Um deles se faz a partir de uma adesão consciente e voluntária a uma visão de mundo na qual existem graduações de superioridade moral ou intelectual nas diferentes “raças”. O mesmo ocorre quando alguém fala de gênero, onde um seria mais inteligente, espiritualizado, competente ou mais ético do que o outro. Para mim estas posições são anticientíficas e sem substância. Colocar qualquer gênero como superior ou inferior em questões como inteligência e moralidade é tão equivocado quanto fazê-lo em relação às diferentes tonalidades da pele.

O outro tipo de racismo é quando você pensa e se comporta em termos de raça por estar embebido em uma cultura estruturalmente racista. Quando você sente mais medo quando um grupo de negros se aproxima, ou quando você desconsidera a capacidade de uma mulher fazer uma tarefa que por séculos foi domínio dos homens, por exemplo. Isso todos nós, de uma forma ou de outra, acabamos fazendo – e agimos da mesma forma em relação a muitos outros aspectos da cultura.

Entretanto, ao meu ver, existe uma ENORME diferença entre um racismo ATIVO – racional, doloso e propositivo – e um racismo PASSIVO – culposo e reativo. O mesmo para qualquer tipo de sexismo. Por certo que estas diferenças não importam muito para aqueles que estão sofrendo o preconceito – a ponta oprimida – mas certamente é completamente diferente para as pessoas que o exercem – nós os opressores. Não é certo e nem justo confundir uma pessoa que sofre (e reproduz) as influências de uma sociedade injusta com aqueles que racionalmente acreditam em uma sociedade que pode ser dividida em cores de epiderme, gêneros e preferências sexuais.

Portanto, ao dizer que “todos somos racistas” ou “todos somos machistas” colocamos juntos na mesma panela pessoas que concordam com aquelas que discordam das premissas básicas que sustentam tais preconceitos. Por esta razão, creio que esta insinuação deva ser evitada. Até porque se o sujeito continuaria sendo taxado de preconceituoso mesmo quando pensa e atua contrariamente a estas visões de mundo, então de que valeria mudar, se o rótulo se mantém imutável?

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