Cheiro Ruim

Perfume ruim

 

Hoje vi a última propaganda dos perfumes do Boticário. O filme começa com o anúncio da gravidez, as ecografias, a megalópole fria e feia onde a criança vai morar, os preparativos, as fotos da barriga crescendo, o último sorvete e termina…. tchan, tchan, tchan…. numa CESARIANA.

Lastimável que o exemplo de parto no Brasil é mediado por recursos tecnológicos usados de forma exagerada (ecografias) e por cesarianas. No vídeo fica claro a imagem da mãe impedida de tocar seu filho na hora em que isso é mais importante: a “hora dourada”. As imagens, para quem transita pelos caminhos da humanização do nascimento, são tristes de ver.

Todo o nascimento carrega a beleza da renovação e a esperança do futuro, seja ele de que maneira for, uma cesariana ou um parto normal. Não se trata, portanto, de desmerecer a beleza inerente da vida brotando em um nascimento. Entretanto, usar como EXEMPLO de nascimento uma cesariana apenas deixa mais evidente o atraso do Brasil em relação às grandes democracias no combate à banalização da cesariana. Propagandas como esta, vistas no exterior, dão a clara ideia de que no Brasil o normal da classe média (os usuários de perfumes do Boticário) é o nascimento pela via cirúrgica. A cesariana é limpa, moderna, chique e superior. Tudo errado, tudo falso. Cesarianas arriscam de forma clara e inquestionável o bem estar de mães e bebês. Este tipo de publicidade é lamentável e apenas reafirma nossa necessidade de mudar a atenção obstétrica cafona que este país tem.

Uma lástima Boticário…. Suas usuárias são “Too posh to push“, right?

Com tanto parto bonito e empoderador para apresentar preferiram se manter fiéis à classe média – a mais sofrida e castigada pelos abusos de cesariana – como estratégia de marketing. Para estas empresas, mais importante do que enfatizar um novo conceito – o parto humanizado, com óbvias consequências na saúde pública – é manter em alta a venda de seus produtos.

Publicitários precisam entender que uma propaganda não é boa apenas quando aumenta os lucros, mas quando imprime uma marca positiva na cultura. Propagandas assim tem cheiro ruim…

Nossa queixa é que a propaganda auxilia de forma marcante a banalização da cesariana. Se por exemplo, a propaganda mostrasse esta mãe fumando durante a gravidez poderíamos dizer que foi uma “escolha” dela, e que isso reflete a liberdade de determinar o que deseja. Verdade, mas o quanto esta conduta influenciaria outras mulheres? Como combateríamos o fumo na gravidez se uma propaganda associa felicidade, nascimento e vida com cigarro? Cesarianas desmedidas tem impacto na saúde das mulheres e precisam ser combatidas da mesma forma como tentamos diminuir cigarros e álcool na gestação. Concordo que “não podemos colocar a CAUSA em tudo“, mas eu acho que colocar cesarianas como o paradigma da gestação feliz é demais. Se esta moça filmou toda a sua gestação e ela terminou em uma cesariana, sinto muito, mas essa mensagem não pode ser veiculada. Se ela fuma, sinto muito. Não dá mais para tratar dessas questões sem – pelo menos – oferecer uma crítica severa e um contraditório.

Banalização de uma conduta se faz nos detalhes, e não com discursos grandiloquentes. Banalização das drogas é colocar um cara fumando maconha durante 15 segundos de um filme, e não fazendo um longa metragem sobre “as maravilhas da Cannabis”. Fica muito complicado o debate sobre o abuso dessa cirurgia quando a publicidade brasileira continua tratando como uma coisa bonitinha, uma opção como qualquer outra, tipo a cor do esmalte o o corte de cabelo. Não, eu acho demais. Não tem mais como continuar estimulando essas práticas no Brasil. Não é por outra razão que somos os campeões mundiais de cesariana: ela é tratada com requinte e glamour em todos os espaços.

A queixa, entretanto, nem é exatamente contra a publicidade ou os publicitários, que talvez tenham feito um trabalho sob encomenda ou aquilo que lhes foi solicitado por uma empresa que avalia a preferência dos consumidores desta marca. Nosso incômodo é ver a cesariana – mais uma vez – banalizada e tratada como “perfumaria”. Escolhe-se por fazer uma cesariana como quem escolhe um dos perfumes da empresa. “Liberdade de escolha”, não? Pois é…. mas quando analisamos a barbárie das cesarianas desmedidas e abusivas no Brasil entendemos que este descontrole só pode acontecer exatamente porque a cesariana é tratada assim no imaginário popular. Talvez a deformidade nos pés das chinesas que usavam sapatos pequenos só foi possível porque era tratada como uma coisa corriqueira. A clitoridectomia talvez seja descrita em Africa como um “cortezinho” que cicatriza rápido e “ajeita” a deformidade natural da vagina. A circuncisão, prática medieval e amputativa da sexualidade masculina, é tratada pela cultura como uma cirurgia que retira a pela “que sobra” no pênis de crianças indefesas.

É assim que se constrói uma cultura: nos detalhes, na forma de descrever, na maneira de contar, no jeito que escolhemos relatar um fato, um evento ou uma cirurgia. O que é uma propaganda de TV senão uma história que se conta? O que é a publicidade senão uma janela da cultura, uma forma de absorver e observar os nossos valores e nossas características. Um comercial que trata a cesariana de forma tão “natural” e “banal” contribui para a construção de uma ideia positiva, afetiva e moderna de uma cirurgia que – como bem sabemos – só deveria ser usada em casos excepcionais. Não é à toa que propagandas de cigarro são proibidas: elas sempre tentaram vincular o cigarro ao sucesso profissional e erótico. Essa propaganda do Boticário faz o mesmo: vincula a cesariana ao sucesso de uma história de amor, e por isso ela deve ser repudiada.

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Arquivado em Ativismo, Parto, Pensamentos

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