Inshallah !!

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Chamei um táxi para o aeroporto cedo da manhã pois uma carona as 9h seria absolutamente impossível. Na exata hora marcada chega um sedan amarelo cheio de publicidade nas laterais, nas portas e no teto. De dento dele emerge um negro forte, robusto e de rosto redondo. Como todos os taxistas que conheci em Austin – Texas esse também era estrangeiro. Todos certamente carregam uma história e varias dores.Uma vez peguei um táxi no aeroporto e vim conversando com o motorista cujo inglês me soava estranho até descobrir, quase chegando em casa, que se chamava Severino e viera da Paraíba havia alguns anos, e que sonhava em conhecer o filho de 3 anos que só havia visto pelo skype. Não havia deslumbre pelo mundo reluzente do sonho americano, apenas trabalho e saudade

Mas esse não era brasileiro, sem dúvida. Sua cor e suas feições lembravam a Nigéria, mas jamais me atreveria a perguntar. Sei como os estrangeiros – em especial os ilegais – podem se sentir invadidos com esse tipo de pergunta. Não queria causar nenhum constrangimento, apenas chegar ao aeroporto no tempo adequado. Além disso, esse me parecia um taxista que se situava entre rabugento e soturno.

As “highways” americanas são obras incríveis de engenharia. Depois que você entra em uma vai em linha reta até o seu destino sem nenhuma interrupção. Sem sinaleiras, o tráfego flui de forma constante e o tempo para alcançar o destino é quase sempre igual: de casa até o aeroporto Bergstrom 25 minutos. Não falha, seja qual for a direção que você vai.

Depois da última curva no “Hilton Redondo” entramos para a faixa do aeroporto que leva ao embarque. Nesse momento o negro se volta para mim pela primeira vez e diz:

– Uichála!!

Pensei ter ouvido “Inshallah“, o cumprimento árabe que significa “Se Deus quiser” ou “Deus o queira”, etc. Apenas me limitei a sorrir e levantei a mão numa espécie de cumprimento tímido.

Ele ficou sério e, sem tirar as mãos do volante, voltou-se novamente para mim e repetiu, agora com mais intensidade:

– Uichála?

Desta vez a entonação sugeria uma pergunta. Aí fiquei confuso e sem saber o que dizer. Nessas circunstâncias o melhor é fazer a tradicional cara de bobo e esperar que ele repita de forma pausada ou com mais precisão. Sua última tentativa teve mais vagar, mas veio com uma pitada de impaciência.

– Uich a láine?

Fiquei alguns segundos esperando a sinapse completar e só depois de muito gasto de neurotransmissor eu consegui jogar para fora a resposta:

– Jetblue, Jetblue!!!

Ufa!!! “Qual a companhia aérea”, ele me perguntava. Ainda bem que consegui entender quase chegando à entrada do aeroporto. Estacionou o carro e me ajudou a tirar as malas do bagageiro, enquanto eu fazia torturantes cálculos para acrescentar a gorjeta na conta final.

Depois de pagar a corrida ele me disse, com o mesmo indefectível sotaque africano:

– Have a safe flight..

Ao que eu respondi: “Inshallah!!!”, e pela primeira vez ele abriu um sorriso cheio de dentes brancos que contrastavam com sua reluzente pele negra.

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