Cesariana “humanizada”

cesariana

 

Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?”

Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

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