Feministo

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Eu não sou feminista.

Não sou, nunca fui e nunca serei.

Ok, por um determinado tempo pensei ser, mas durou pouco. Algumas feministas deixaram muito claro para mim as razões pelas quais eu não podia ser. Lembro que o mesmo ocorreu com um dos meus ídolos, Dr Marsden Wagner. Uma amiga feminista certa vez lhe disse: “Se você não fosse homem seria uma maravilhosa feminista“. Ele contava essa história com genuíno orgulho, com o que concordo plenamente.

Caminhando na praia no meu último dia de férias – depois de muitos anos sem poder tê-las – eu refleti sobre estes limites. Para mim o Feminismo (e coloco letra maiúscula pela sua importância na cultura) é como nacionalidade. Alguns atributos são de nascença, em especial o lugar onde você nasceu. Assim como a sua nacionalidade é algo que os OUTROS conferem a você, também assim entendo o Feminismo.

Eu posso torcer pelo Leicester, falar inglês, comer “fish and chips”, adorar a rainha, cantar o hino, conhecer a genealogia dos Tudor ou me vestir como um britânico, mas não serei inglês a não ser que os ingleses me reconheçam como tal. Na hora de mostrar o passaporte aparecerá para sempre o meu país de origem. E ele não fica ali, atravessando o canal da Mancha.

Com o Feminismo ocorre o mesmo. Seria preciso que as feministas aceitassem essa intromissão, mas o movimento que elas criaram e que trata dos problemas específicos das mulheres apenas a elas diz respeito. Posso dizer que os assuntos da Inglaterra me dizem respeito de forma indireta, pois estamos todos no mesmo planeta e um “bater de asas de borboleta na Inglaterra me afeta aqui”, mas isso apenas me garante o direito de participar do debate, mas jamais carregar a palavra pelos ingleses.

Quando em uma audiência pública em 2014 vi um representante médico auto proclamar-se feminista, mesmo tendo uma história e uma postura francamente misóginas, eu percebi a clara inconformidade das feministas presentes. Era como se tivessem sido insultadas; ficaram indignadas e furiosas com a arrogância do catedrático. Naquele momento pude colocar no tabuleiro de ideias à minha frente a última peça que faltava para entender a questão do “pertencimento”. O abuso em considerar-se feminista era ofensivo e violento àquelas que há muitos anos lutavam por essa proposta.

Minha vinculação com as ideias do feminismo, todavia, não precisou jamais ser desafiada. Posso continuar sendo um proponente da autonomia plena da mulher sobre seu corpo e seu destino. Posso lutar por partos mais seguros e edificantes. Posso brigar com unhas e dentes pelo empoderamento feminino e pela liberdade garantida para fazer escolhas. Posso ser um “aliado sem ser alinhado”. E tenho uma ótima razão para fazer isso.

Mulheres e homens fazem parte da humanidade. Dividimos o mesmo espaço na terra e a natureza nos aproxima através dos laços do desejo. Por mais que este seja vilipendiado, há algo que nos faz sempre buscá-lo. Pois “ele dá dentro da gente e não devia, é feito estar doente de uma folia, e nem dez mandamentos vão conciliar, nem todos os unguentos, toda alquimia”, como diria Chico. O feminismo, ao criticar o paradigma sempre acerta; ao atirar nos homens, sempre erra.

Somos todos da família humana apenas artificialmente apartados. Somos ainda todos nascidos de mulher e, portanto, o nascimento produz uma marca indelével em todos que nascem, sejam homens ou mulheres. Cuidar destas é, em última análise, cuidar de toda a humanidade.

E como sou um pedaço dessa humanidade tenho total autoridade para lutar pelo que julgo ser o melhor para todos nós, humanos. E o melhor para todos é considerar as mulheres como dignas e fortes, capazes e livres.

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