Negro, negro

save me

 

Uma paciente me contou a mais contundente história sobre racismo que eu já escutei. Não por ser algo espetacular, como uma tragédia promovida pela KKK, ou algum relato desumano e degradante da época da escravidão, mas por ser banal e passar ao nosso lado todos os dias sem que possamos perceber.

 

Está paciente me contou de uma situação corriqueira mas grandes cidades. Morava em um apartamento no primeiro andar de um edifício com o namorado e a mãe. O edifício ficava incrustado em um grande condomínio habitacional da minha cidade. A mãe era aposentada, o namorado sargento da polícia militar e ela professora.

 

No meio da noite o namorado se acorda com um som estranho vindo da sala. Silenciosamente se levanta para ver se o gato estava fazendo alguma farra noturna. Infelizmente não era um felino com insônia, mas um assaltante que havia invadido o pequeno apartamento e se ocupava em roubar pequenos objetos da sala.

 

Por ser um homem forte, treinado para o combate, atirou-se sobre o invasor e tentou segurar seus braços, sendo rechaçado de imediato pelo ladrão, que era igualmente forte. Diante do confronto inesperado o ladrão resolve bater em disparada, saindo pela mesma sacada por onde havia entrado.

 

Ao ver o meliante se projetar pela porta entreaberta da sacada o jovem correu até o quarto e pegou sua arma que estava repousando sobre o criado mudo. Segurou a pistola com a mão firme e correu para a porta para iniciar a perseguição quando sentiu um corpo projetar-se sobre si aos gritos.

 

Não, não era o assaltante que voltava. Era a namorada, minha paciente, que aos prantos pedia que parasse.

 

“Preciso alcançá-lo. É minha obrigação. Sou um policial!!! Por que deveria parar? Por que deveria ficar aqui, acovardado?”

 

“Porque você é negro!!”, gritou ela em desespero.

 

“Você é negro, negro, não percebe?, continuou ela. Você está de camiseta e calção, e estamos no meio da madrugada. Se você sair atrás de um ladrão com uma arma e encontrar um policial da ronda em quem você acha que ele vai atirar? Quem vai parecer como sendo o assaltante? Até mostrar sua identidade já poderá estar morto.”

Um breve silencio se seguiu entrecortado pelos soluços da namorada que ainda o prendia com o corpo. Ele a abraçou mais forte e deixou a arma afrouxar em sua mão.

 

Nunca havia percebido de forma tão dura a dor de ser negro. Ela tinha razão, pois nesta sociedade de castas um negro armado de madrugada só pode estar do lado do crime. Ambos choraram a dor da impotência e a tristeza de ver que a cor da pele ainda nos separa de uma forma cruel, ainda mais quando invisível.

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Arquivado em Ativismo, Histórias Pessoais

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