Chacina

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O assassino era como o monstro de Frankenstein, composto por centenas de pequenos fragmentos de rancor e decepção. Uma estrutura de ódio, retalhos de misoginia, um pouco de raiva, umas pitadas de indignação seletiva e um punhado generoso de auto condescendência. E como pano de fundo, o amor deteriorado e doentio.

Não há nada de novo na sua fala e nos seus sentimentos, assim como não há nenhuma novidade em salitre, carvão e enxofre. Entretanto a mistura desses elementos produz a força destruidora da pólvora, enquanto a combinação de indignação, culpa, frustração, banalização da violência, machismo e uma mente frágil e doente produz incontáveis tragédias.

Só o amor é capaz de produzir este tipo de horror que nos agride e tritura a alma. O amor, quando desvirtuado, é maligno e destrutivo, mas ainda assim é amor. Sim, é domínio, é ódio, é desprezo, é possessividade e angústia. E ainda assim é amor. O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

Não é justo “romantizar o amor”, no sentido de enxergar nele apenas sua potencialidade positiva. O amor pode ser doce e calmo, mas também furioso e agitado. Preferimos não olhar para esta face do amor, mas ela é igualmente verdadeira.

Não se trata de macular o amor, mas tirar-lhe a máscara. Ódio e desprezo são legítimos filhos do amor, e por isso mesmo, onde houver ódio e desprezo podemos procurar um amor corrompido que de imediato ele se mostra em todas as suas nuances.

É preciso enxergar o amor em suas infinitas dimensões, e entender que até a lua, por mais resplandecente e brilhante que seja, possui seu lado escuro.

Para reflexão, trago este texto de Slavoj Zizek:

“Mas o conjunto da realidade é só isto. É estúpido. Está lá fora e eu não ligo pra isso. Amor, para mim, é um ato extremamente violento. Amor não é “eu amo todos vocês”. Amor significa que eu seleciono algo e é, de novo, esta estrutura de desequilíbrio, ainda que este algo seja só um pequeno detalhe, uma frágil pessoa individual. Eu digo “eu amo você mais que qualquer coisa” e neste preciso sentido formal, o amor é o mal.” 

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