Dona Zilá

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Dona Zilá (apenas um nome fictício) foi atendida por mim na Venezuela, apesar de nenhum de nós dois jamais ter visitado este pais. Dizia-se um pouco tonta e vomitava . “Não pára nada no estômago, nada mesmo” dizia ela, apertando seus pequenos olhos castanhos por detrás dos óculos de aro dourado. Disse ter 81 anos e mais de 20 de viuvez. “Agora um cólica violenta me retorce por dentro, doutor“. Suas mãos estavam trêmulas assim como seu corpo inteiro. A pressão estacionara em 140 x 100, mas trazia na sua bolsa inúmeros remédios para todas as afecções que lhe cabiam por direito.

Estava acompanhada da nora, “um anjo que Deus colocou em minha vida”. Dona Zilá me disse: “Eu tive 9 abortos, doutor, mas pari 4 filhos. No dia seguinte aos partos eu já fazia toda a lida da casa. Nunca me entreguei a nada. Não havia frescuras no meu tempo“.

A nora me mostrou as medicações que ela dispunha dentro da bolsa. Remédio para pressão, ansiedade, falta de sono. Verifiquei mais uma vez a pressão e estava mais alta, mas o braço rígido tremia cada vez que eu verificava. Difícil saber os valores exatos.

A nora me conta que os vômitos começaram ao ser impedida de sentar ao seu lado quando entraram no avião. Pela disposição dos assentos precisariam ficar distantes, até que todos estivessem acomodados e uma troca fosse viável.

Foi então que ela começou a tremer e vomitar. Ela  indignada com a comissária e com medo de viajar sem minha o presença constante ao seu lado. Acho que é dos nervos, o senhor não acha?“.

A conexão entre os fenômenos da alma e aqueles do corpo é mais facilmente identificada pelas pessoas comuns do que pelos profissionais da saúde. Disse à ela que provavelmente isso era verdade, mas que a prudência mandava ficarmos atentos. Afinal, sua idade assim determinava.

Expliquei às comissárias de bordo do que se tratava, até para deixá-las mais tranquilas. Pedi que trouxessem a caixa de remédios de urgência, mas só vi utilidade na velha metoclopramida. Solicitei à enfermeira, a qual também atendeu o chamado das comissárias e veio acudir dona Zilá, que aplicasse o medicamento; afinal estávamos trabalhando em equipe. Ela ficou bem feliz em ajudar. Os tremores continuavam, mas era evidente que diminuíam à medida que conversava comigo. Enquanto me contava sua história as cólicas foram parando e não se preocupou mais em vomitar.

Meu marido morreu cedo. Era um homem rico e nos deixou uma indústria. Depois de sua morte ela foi vendida e dividida entre todos. Eu, meus 4 filhos e a outra mulher que ele tinha, e mais seus três filhos, os quais só descobrimos depois de sua morte.” Ela me contou esse detalhe com absoluta naturalidade, sem nenhum sinal de ressentimento. “No tempo que eu fui pobre não tinha nem luz elétrica na minha casa. Criei quatro filhos trabalhando duro. Criei ainda mais um neto, que nunca se deu com os pais. Infelizmente ele fez direito e entrou na policia, mas eu não gosto de polícia e nem de ladrão“.

Rimos todos, até as belas aeromoças que nos cercavam. O tremor estava visivelmente menos intenso à medida em que desenrolava como um longo fio sua narrativa de vida. “Meu marido morreu falando comigo. Virou a cabeça para o lado e fim. Infarto fulminante. Muito pesado, estressado, fumante.

Resolvi usar um medicamento sublingual que estava em sua bolsa pois a pressão chegou a 170 x 116. Apesar da rigidez dos braços achei melhor diminuir um pouco esses valores. “Ela adora remédios“, disse a nora angelical. “E quem não enxerga nos remédios um substituto para o contato humano que a vida nos retira com o tempo?“, pensei eu.

Perdi o café da manhã no voo, mas dona Zilá precisava de alguém para lhe oferecer ouvidos e ajudar a acalmar sua alma aflita. Verifiquei mais uma vez a pressão só para me certificar que estava baixando. 160 x 100 já me deixou satisfeito.

Olhei no mapa ao lado da comissária e vi que nosso avião se aproximava do Brasil. Era hora de me retirar e voltar para meu lugar. Faltavam algumas poucas horas para o pouso mas deixei claro que estaria à disposição se ainda precisassem. Ela me abraçou e perguntou meu nome. “Ricardo“, respondi.

Ela então sorriu pela primeira vez e disse: “O nome do meu filho e do meu neto!! Viu como foi Deus que o mandou aqui?

Como duvidar? Voltei para meu assento e vi o ponto dourado no mapa atravessar a linha que separa o Brasil do resto da América. Faltava pouco para chegar em casa.

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Arquivado em Histórias Pessoais, Medicina

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