Puteiro

 

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“Com a morte “acidental” de Teori e a nomeação de Alexandre de Moraes consolida-se o golpe na trincheira jurídica e cumpre-se a profecia de Jucá. O Brasil realmente tornou-se um puteiro.”

As putas sempre mereceram todo o meu respeito. Conheço muito bem a trajetória das prostitutas desde o surgimento da primeira associação de trabalhadoras do corpo, liderada pela socióloga Gabriela Leite, que lutava pela regulamentação e proteção das prostitutas em todo o país. Lembro de levar essa discussão – de claro cunho socialista – para a faculdade de medicina e receber o natural rechaço dos colegas e o desprezo dos professores. Naquela época me intrigava a expressão que Gabriela usava: “Por que o trabalhador se deixa explorar na parte de cima do seu corpo e nós não podemos usar a parte baixo?

Uma das frentes de luta das prostitutas era exatamente o que citei lá em cima: o “puteiro”. O prostíbulo era também chamado de “casa de tolerância”, porque lá se toleravam as explorações das mulheres em nome do desejo, por ser um lugar absolutamente selvagem dentro das sociedades, existindo como um enclave de barbárie nas cidades contemporâneas. Ali onde a civilização não ousava entrar, o poder era dos mais fortes e a Lei era a da selva.

Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para.

Por isso Cazuza não fala das putas, e nem eu. Falamos da construção social ao redor delas, o entorno de exploração e escravidão a que elas se submetem ao ousarem vender seu corpo. Falamos da ausência de Lei e estado na organização de um comércio tão antigo quanto o próprio patriarcado e da história como a concebemos.

Putas somos todos nós. Somos estas entidades de carne que se desfazem lentamente em um estado leniente com a exploração, e que tanto nos afeta quanto nos desumaniza. Putas somos nós governados por cafetões que usam nosso corpo de trabalho cujo resultado fica na mão dos donos do bordel e não serve para nós oferecer um mínimo de dignidade.

Pelas putas, sim… mas contra os puteiros indignos e imorais que nos aprisionam.

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