A Vingança dos Oprimidos

 

 

Recebi com surpresa uma petição via internet contra uma das mais importantes batalhadoras pela humanização do nascimento no mundo, na qual as proponentes a acusam de racismo. As palavras são ásperas, violentas e cruéis, e me oportunizaram uma reflexão sobre a existência de manifestações como estas, em especial no mundo virtual. Foi apenas depois de conversar com alguns amigos e entender o momento político americano contemporâneo fez muita diferença na minha visão do problema.

Existe uma grande insatisfação com o fato de o movimento de humanização do nascimento nos Estados Unidos ser sido criado e liderado por mulheres brancas e de classe média. Para a minha percepção, nada mais natural que isso fosse assim levando-se em consideração as caracerísticas óbvias desta classe: mais dinheiro, mais tempo para se dedicar a tarefas não pagas, mais acesso a cultura, mais facilidades no mundo universitário e tantos outros privilégios de classe e raça que tão bem conhecemos. Acrescente-se o fato de que a comunidade negra americana não é mais do que 10% da população neste país. Entretanto, o que poderia ser visto como uma ajuda por parte das pessoas privilegiadas para DIMINUIR estes privilégios e tentar aproximar estas categorias sociais é visto por um grupo de ativistas-feministas-negras como uma invasão e uma tentativa de expoliar o protagonismo, seja das desfavorecidas seja das não-brancas. Esse assunto vai e volta e temos sempre que lidar com essa classe de ressentimentos.

Quando eu li as declarações desta ativista e as comparei com os ataques que recebeu em resposta fiquei estarrecido com o desnível absurdo de penalização a que ela foi submetida. É como você roubar um pacote de biscoitos no supermercado e ser sentenciado à morte. A condenação das ativistas, por sua vez, não foi direcionada às suas ideias, suas proposições, sua narrativa ou a frase – infeliz ou não – que tenha dito. Não, a penalidade visa atingir a sua moral, sua história e a sua honra. Não é uma resposta ao estilo “Discordamos de você por sua frase, que pode acrescentar mais um fardo às mulheres negras americanas, vítimas de uma sociedade racista”. Não, a petição deixa claro que esta personalidade do mundo do parto humanizado é uma “racista”, “supremacista branca” (“white supremacist”, tipo Ku Kux Klan) e é por causa DELA (ou de “gente como ela”) que existe racismo na atenção às mulheres nos Estados Unidos. Todavia, bastariam 5 minutos de conversa com essa pessoa para se chocar com o despropósito de tamanha agressividade. Como disse Debra Pascali-Bonaro “there´s not a single racist bone in her body“. Isso me deixou claro que a petição diz muito mais a respeito do ódio, frustração e rancores imensos que emanam dessas pessoas do que de alguma falha cometida pela minha amiga e ativista.

Imediatamente percebi que a petição era parte de uma estratégia de ataque às ativistas históricas que militam na humanização do nascimento. Reli a declaração da minha amiga e, por mais que tenha tentado, não consegui perceber nenhuma declaração inquestionavelmente absurda ou racista, mas uma frase que poderia ser interpretada de diversas maneiras. Lembrei da famosa frase do meu pai sobre um técnico de futebol que estava entrando em evidência. Disse meu pai, tomando um café comigo no shopping: “Contra ele pesa o fato de ser negro”. Quando você tira essa frase do contexto parece que que sua intenção era dizer que “ser negro” é um defeito para alguém que almeja ser técnico de futebol. Entretanto, o que ele queria dizer é que, por ser negro, esse sujeito sofreria muitos preconceitos e teria tremendas barreiras que nunca ocorrem contra brancos que almejam a mesma posição. A mesma frase pode ser lida de duas diferentes formas, de acordo com o DESEJO de quem a lê; pode ser considerada racista por pessoas que preferem atacar a todos para fazer valer seus postulados, mas pode significar o OPOSTO se você quiser contextualizar e – mais ainda – se quiser perceber que a frase foi dita por um combatente na luta contra o racismo.

Depois da conversa com outras ativistas pude entender o contexto americano e perceber que minha colega e amiga foi vítima de um processo que não está acontecendo apenas agora. Ela está sendo usada por uma “patrulha” que tenta atacar o movimento de humanização por suas raízes brancas e de classe média, como se a culpa pudesse cair nas poucas ativistas brancas que resolveram trazer o nascimento digno ao debate.

Minha primeira reação foi pensar? “Quer saber? Não quero mais nenhuma interlocução com essas ativistas. Não aceito debater com fanáticas, com gente que acredita no ódio e na vingança como elementos de transformação positiva e que não se importam em dividir um movimento que já é pequeno e que sofre com ataque dos poderosos toda a hora. Que se ferrem!!”

Depois de alguns minutos, um pouco mais calmo, pensei que existe uma necessidade enorme de diminuir as diferenças entre as classes sociais e as raças em nossa sociedade. A luta dessas mulheres é justa e nobre, e a importância de suas ideias não pode ser sacrificada pelo mau uso que algumas ativistas de hoje fazem delas. O fato de serem portadoras de ódio e negatividade não pode me levar a desconsiderar essa luta – assim como a luta contra o machismo, a opressão, a iniquidade, os direitos sexuais das minorias e tantas outras. Se a mensagem delas é de ódio a minha (a nossa) não pode ser de desprezo, mas precisa necessariamente ser pautada pelo respeito e consideração por suas dores e feridas abertas.

Tenho certeza absoluta que minha amiga, Ina May Gaskin, não merece o tratamento indigno que recebeu. Os ataques direcionados a ela atingem todos os que se preocupam com o nascimento humano e com suas repercussões na sociedade. Ina May é um exemplo de mulher, mãe, avó, ativista e lutadora pela causa das mulheres, de qualquer cor, religião ou estrato social. Estarei ao seu lado sempre, porque a conheço como um dos mais iluminados seres humanos que já tive a honra de conhecer.

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