Poema da Retomada

Se o corpo da mulher é território,
onde disputas acirradas
atropelam gerações,
como não aceitar por legítima
a luta por ser retomado?

Se a riqueza dessa terra,
por ter história e ser matriz,
seduziu o forasteiro
que dela quis se apossar,
como não aceitar que o ventre
– e tudo que tem em volta –
queira mais do que depressa
pra sua dona retornar?

Os lindeiros desse chão,
achados de posse eterna,
se esqueceram que a pequena,
por mais delicada que fosse,
tinha na mão um desejo
e no coração um poema.

O poema curioso,
cheio de rimas ricas,
dizia meio por assim,
porque a memória anda fraca,
que a conquista não se faz,
no martírio e na faca.

Que a mulher ou é livre,
ou melhor então que nem nasça,
pois quem dá de si o leite,
de sua carne outra uma,
não pode viver cercada,
da liberdade impedida.

O poema era esse,
que a lembrança se achega,
por mais que a mente procure
a palavra escondida.
Mas na mão está o desejo,
que se abre e nos afirma,
que a mulher tão paciente,
agora forte vai à luta.

Mais que a dor que sempre teve
ela agora só procura,
o caminho que é só seu,
que desenha na lonjura
do seu firme caminhar.

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