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Terraplanismos

Mais de uma pessoa da minha bolha de mídia social olhou para o cartaz abaixo e observou que os palestrantes são todos homens. A insinuação é clara: só homens são estúpidos o suficiente para acreditar em terraplanismo.

Eu iria mais adiante: são todos brancos e heterossexuais; alguém explica? Assim sendo, por esse fato relevante e incontestavel, podemos afirmar a superioridade moral e intelectual de mulheres, negros e gays sobre a escória planetária: homens brancos heterosexuais.

Certo?

Eu ia puxar a lista de prêmios Nobel do ano passado, onde a imensa maioria é feita de homens também. Isso significa que…

Significa que preconceito de gênero tem duas mãos e que a existência de “opressores e oprimidos” não impõem que usemos as mesmas armas que causam e mantém a opressão sobre determinados grupos. Insinuar que os homens são mais idiotas e as mulheres mais sábias – e vice-versa – apenas mantém vivo e resplandecente o preconceito e o olhar negativo sobre o “gênero de lá”, o outro, o que “não somos nós”.

É possível fazer crítica de gênero sem essencialismos morais ou intelectuais. É possível criticar de forna insistente e intensa o preconceito com as mulheres cientistas – por construções históricas do patriarcado – sem insinuar que mulheres são mais inteligentes (ou menos ignorantes) que seus parceiros homens. Fica a questão: por que é tão difícil assumir que somos iguais nesse terreno? Por que seria preciso diminuir o outro gênero para enaltecer o nosso?

Os estudiosos da terra plana (sim, eles estudam o tema) podem estar errados e confusos sobre suas crenças, mas não o fazem por serem homens, mas por serem crédulos, e a credulidade não ataca apenas portadores de cromossomas Y.

A tolice e a excelência – ao que tudo indica – tem uma distribuição bem democrática na nossa espécie. Por esta razão vejo com igual gravidade tais manifestações preconceituosas e as antigas piadas que associavam a burrice com a tonalidade do cabelo de algumas mulheres. Não vejo sentido em continuarmos a estimular tais comportamentos.

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Poema da Retomada

Se o seu corpo é território,
onde disputas acirradas
atropelam gerações,
como não aceitar por legítima
a luta por ser retomado?

Se a riqueza dessa terra,
por ter história e ser matriz,
seduziu o forasteiro
que dela quis se apossar,
como não aceitar que o ventre
– e tudo que tem em volta –
queira mais do que depressa
para casa retornar?

Os lindeiros desse chão,
achados de posse eterna,
se esqueceram que a pequena,
por mais delicada que fosse,
tinha na mão um desejo
e no coração um poema.

O poema curioso,
cheio de rimas frágeis,
dizia meio por assim,
porque a memória anda fraca,
que a conquista não se faz,
no martírio e na faca.

Que a mulher ou é livre,
ou melhor então que nem nasça,
pois quem dá de si o leite,
de sua carne outra uma,
não pode viver cercada,
da liberdade impedida.

O poema era esse,
que a lembrança agora falta,
por mais que a mente procure
a palavra escondida.

Mas na mão está o desejo,
que se abre e nos afirma,
que a mulher tão paciente,
agora se joga à luta.

Mais que a dor de sempre
ela agora só procura,
o caminho que é só seu,
que desenha na lonjura
do seu doce caminhar.

Marilia Carillo de Cuellar “Las Flores de la Ventana Roja”, Ed. Marchand, pag. 135

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Marcha de Austin

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Mais de 30 mil pessoas participaram da manifestação pelos direitos das mulheres aqui em Austin – Texas, mas segundo os observadores da polícia militar de São Paulo não havia mais de 340 pessoas. Estou esperando a versão verdadeira: a da Globo.

Milhares de mulheres, crianças e homens. Muitos casais de lésbicas, pouquíssimos gays masculinos e transgêneros. Muita alegria, humor, diversão e ordem. Tudo muito comportado, ordeiro e organizado. Poucas palavras de ordem. Nenhum slogan forte, poderoso e viral. Batucada, mas sem samba.

Outra coisa chamativa: não havia nenhuma manifestação anti-homem ou anti-masculina. Não parecia haver um clima de ressentimento. Claro, muitas mulheres estavam lá com seus homens, maridos, irmãos e filhos. Havia um sentimento de inclusão.  Parece que diziam: fiquem do nosso lado, nós precisamos de vocês nessas lutas. Durante todo o percurso  nada vi de agressivo contra os homens.

Foi uma linda demonstração  de inconformidade e resistência civil, mas apenas isso. Faltou ao protesto a força que eu desejaria. Tudo muito amigável e conforme a lei e o direito. Parecia um protesto coxinha; até os policiais eram gente boa. Vi até um policial pedindo desculpas por passar com a viatura no meio da multidão para atender uma emergência.

Minha pergunta é: aonde este tipo de manifestação pode nos levar? Que poder têm 30 mil pessoas aqui (500 mil em Washington) para fazer uma efetiva  mudança?

Havia um cartaz  no meio da multidão que, de uma certa forma, oferece a resposta.

Well behaved women never make history

(Mulheres bem comportadas nunca entram para a história). O “protesto” foi comportado demais, bonitinho, ajeitadinho, colorido, com mães e bebês em carrinhos, maridos parceiros, cartazes coloridos, diversidade e respeito. Entretanto, ao meu ver, faltou energia transformativa. Faltou enfrentamento ao poder instituído.

Como transformar um desejo social legítimo em poder autoritativo verdadeiro? Isto é: como fazer dessa manifestação ferramenta de mudança e pressão, e não apenas uma festa para a família?

Os “Black blocks” sabem dessa armadilha e por esta razão se negam a participar de movimentos bem comportados. Para eles só vale se cutucar a ferida do poder. Se essa radicalidade lhe parece inaceitável, que outra alternativa nos resta?

Essas manifestações ao meu ver não tem valor em si; elas são marcadores do poder popular. A partir delas é que se constroem propostas de mudanças através da representatividade. Por isso é que são enganosas, pois elas não são um fim, mas um meio de construir ações políticas de mudanças estruturais.

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