Feras e outras histórias de amor

Há exatos 40 anos tomei um decisão radical para a qual estava me nutrindo de coragem por algumas semanas. Convidei meu “crush” (mesmo que naquela época não houvesse esse nome) para ir ao cinema. Quem sabe as condições de pressão e temperatura pudessem quebrar o gelo que emperrava a minha iniciativa.

Havia vários filmes para ver na cidade, mas o escolhido foi King Kong, uma mega produção da época dirigida por John Guillermin e estrelada por Jeff Bridges, Jéssica Lange e…. Kong. No escurinho do cinema e após vários drops de anis eu tomei a coragem necessária para pedir a menina em namoro. Mal sabia eu que toda a minha vida seria determinada pelas escolhas daquela noite.

Exatamente 4 anos e meio depois daquele encontro eu casei com a moça simpática de olhos verdes e sorriso reservado. Todavia, o que sempre me causou espanto foi o fato de que o script da nossa vida em comum seguiu o roteiro que pautou nosso primeiro momento.

King Kong é “A Bela e a Fera” com final trágico. Uma história de amor marcada pela incompatibilidade. Como Bela, na animação da Disney, Dwan começa como cativa do monstro e com o tempo desenvolve por ele ternura, apreço e, por fim, afeto genuíno. Mas, ao contrário de Bela, que tinha a chance de reverter a maldição da Fera com seu amor, Dwan esbarrava no limite intransponível das espécies distintas e incompatíveis. O fim do monstro simiesco só poderia ser a tragédia.

É assim que também vi a minha história. Eu sempre fui o monstro incapaz de conter a fúria e a indignação. Durante anos persegui meus ideais mesmo recebendo os ataques inevitáveis de quem não aceitava a visão crítica e dura que eu apresentava. Segurando minhas convicções como Kong se apoiava no mastro do Empire States, recebi os inevitáveis disparos que surgiam de todos os lados. Por muitas vezes, durante todos estes anos de luta, a única coisa que me ofereceu um tímido consolo era o brilho dos olhos verdes da menina tímida cuja história se iniciou naquela sessão de cinema. Como o monstro da história, eu acabei percebendo que até o final dos meus dias seria este o olhar a me oferecer a força para seguir.


Quatro décadas nos separam daquela sessão de cinema. Dois filhos, dois netos, centenas de partos, muitas dores, tristezas, decepções e alegrias foram divididas. Nunca imaginei que um ogro pudesse ter tanta sorte, algo muito além do seu merecimento.

Agradeço a Zeza Jones a companhia pelos últimos 40 anos, que formaram o que sou. Desculpe ter sido o King Kong descontrolado e furioso, e obrigado por ser a Dwan que sempre me apoiou, em especial quando o meu mundo parecia ruir.

PS: para mostrar como sou um sujeito de sorte a alternativa para King Kong naquela noite de inverno há 40 anos era “Carrie, a estranha”.

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