Inacreditável!!!

 

 

A BATALHA DOS AFLITOS

Ha exatos 12 anos (26 de novembro 2005) ocorria um dos eventos mais espetaculares da história do futebol mundial. Sem precedentes. Não é exagero: isso nunca mais vai se repetir em lugar nenhum do mundo envolvendo grandes equipes.

O Gremio jogava contra o Náutico enquanto o Sta Cruz jogava contra a Portuguesa nas duas partidas do quadrangular final da série B de 2005. Das 9 combinações de resultados possíveis para estas duas partidas 8 favoreciam o Grêmio. Só não podia acontecer o Gremio perder e o Sta Cruz ganhar. E aos 36 minutos do segundo tempo era exatamente isso que estava para acontecer

O Grêmio tinha um time horrível derivado da hecatombe da falência da ISL. Apesar disso ali estavam Anderson e o garoto Lucas, o resto eram jogadores medíocres. O técnico era local, sem nome e sem história. Durante o campeonato fez muitas burradas, inclusive deixar o melhor jogador do time no banco. Foi criticado de forma contundente pela imprensa e até hoje eu o considero o técnico de futebol mais sortudo de todos os tempos.

O jogo na primeira etapa foi uma guerra. Pouquíssimo futebol. Juiz inseguro e ruim tecnicamente. Muitos anos depois foi envolvido em escandalos da polícia militar. Deu um pênalti absurdo contra o Gremio no primeiro tempo que não foi convertido. Teve sorte.

Enquanto isso a Portuguesa saía na frente, o que aliviava o Gremio. Entretanto, não durou muito para o Sta Cruz empatar e virar o jogo. O alívio durou pouco.

No segundo tempo o jogo continuou uma porcaria em termos de futebol, mas o Grêmio resistia. O jogo do Sta Cruz não parecia mudar em nada; estava definido. O destino do Grêmio seria mesmo nos Aflitos.

Em um contra-ataque do Náutico Gallato fez pênalti em Kuki mas o juiz não marcou, o que me deu a certeza de que não havia por parte dele interesse em ajustar resultados. Se quisesse favorecer o Náutico esse seria o momento. Os lances que ele marcava eram sob brutal pressão dos jogadores e da torcida. Estava perdido e apavorado.

Quando faltavam 9 minutos para acabar a partida o juiz Beltrame marcou um pênalti contra o Grêmio de forma absolutamente equivocada. Nessa hora já tínhamos perdido um jogador, Escalona ao 26 min, por expulsão, mas estávamos resistindo. Nessa nova marcação de penalidade máxima equivocada o jogador Nunes do Grémio se virou de costas após o chute do adversário e o juiz marcou de forma imediata. Não foi falta, e as milhares de repetições na TV confirmaram. Indignação total de toda a nação tricolor.

Surgiu o confronto e os jogadores do Grêmio foram sendo expulsos de campo. Antes da cobrança mais três acabaram indo para rua. Ao todo 4 jogadores saíram: Escalona (antes do entrevero), Nunes, Patrício e Marcel. O juiz ficou cercado, a polícia entrou em campo, dirigentes dos dois clube também. Brigas, empurrões e o Grêmio já estava diante do pior cenario que um clube pode enfrentar: partida final do campeonato, com 6 jogadores apenas na linha, o adversário completo, um pênalti contra si, na casa do oponente, com o estádio lotado e faltando apenas 9 minutos para acabar a partida. As imagens marcantes que antecedem a cobrança são da torcida do Náutico de mãos dadas rezando, em silêncio reverencial.

Do outro lado, no time Timbu, sobreveio uma crise. Ninguém queria bater a penalidade. Os jogadores mais experientes “pipocaram” e serão para sempre cobrados por isso. Era muita responsabilidade: a bola do jogo, aquela que daria acesso à “série A”. Acabaram determinando que um jovem lateral, um menino recém saído da base, batesse o pênalti. Ademar seu nome

Era visível seu pânico ao se posicionar para a cobrança. Um garoto diante do acesso de seu clube. Depois de muitos minutos de brigas, empurrões, discussões, ameaças e tensão o juiz apita. A respiração da torcida do Gremio é interrompida e o silêncio se faz em todo o estado. Ademar caminhou trôpego para a bola, enquadrou o corpo para bater de esquerda. Disparou o chute e…

Galatto!!!! Inacreditável!!!! Ele tirou com o pé e mandou para escanteio. A maior torcida do Rio Grande gritava de euforia, mas eu permaneci quieto e apreensivo. Tínhamos 7 jogadores em campo contra 11 do adversário. Era possível que o gol do Náutico ocorresse até nesse escanteio em sequência. Não havia muito para se tranquilizar. Os 9 minutos restantes seriam um século, mesmo que o empate ainda nos garantisse o segundo lugar e o acesso para a série A.

Foi então que o mais improvável aconteceu. Depois do escanteio a bola espirralou para a esquerda e caiu nos pés de Anderson. Ele se livrou do adversário com um drible e na sequência foi atropelado pelo zagueiro Batata, sendo arremessado violentamente para fora de campo. O juiz nao teve outra alternativa a não ser expulsar o defensor do Timbu, mas ainda restavam 9 contra 6 na linha. O time do Náutico estava tão perturbado que não sabia o que fazer em campo. Após a cobrança da falta Anderson saiu correndo solitário em direção ao gol adversário, livrou-se do zagueiro com um jogo de corpo, entrou área adentro e desviou do goleiro, colocando a bola no fundo das redes.

Impossível, milagre!!!!! Exatos 71 segundos após a defesa de Galatto o Grêmio marcou um gol espetacular. Seis bravos guerreiros contra os erros de um juiz apavorado, uma torcida que lotou o estádio e um time com 9 adversários na linha. A essa hora o jogo do Sta Cruz já havia terminado e o time “cobra coral” dava a volta olímpica, iludidos de que haviam conquistado o campeonato da série B. Ledo engano!!! O Imortal não se entrega até o apito final.

Depois do gol do Grêmio baixou uma incrível apatia no time pernambucano. Nos 9 minutos que se seguiram não houve sequer uma situação de gol, mesmo com tamanha diferença numérica. Os jogadores do Grêmio se multiplicavam em campo, obstruindo as investidas, e assim o fizeram até quando Beltrame terminou o jogo e o Rio Grande do Sul veio abaixo.

Ali se confirmava a lenda da imortalidade cantada meio século atrás por Lupicínio Rodrigues no hino tricolor.

Saí da casa do meu pai onde assisti o jogo e fomos para a avenida Goethe, próximo de onde era a Baixada, estádio do Grêmio até os anos 50. Uma multidão enlouquecida lá reunida dizia em uníssono “Eu não acredito”, “Não é possível”, “Milagre”. Nenhum título poderia ser mais comemorado, não pela taça em si, mas pelas circunstâncias de bravura, luta, heroísmo e enfrentamento das adversidades.

Essa data ficará na lembrança de todos os gremistas como a maior prova de que é preciso lutar e acreditar até o último instante, porque se a vitória se afigura impossível e distante….. “até a pé nós iremos”!!

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