Brasil dividido

 

Li o texto de Vera Iaconelli na Folha de São Paulo de hoje, 2 de janeiro 2018, “Ódio ao Brasil“e de pronto concordei com sua tese sobre um Brasil que cultiva ódios e se distancia das nações mais democráticas por se manter atrelado a uma divisão arbitrária em sua sociedade. O debate sobre sermos um “país majoritariamente negro“, que eu discordei, é um detalhe irrelevante. Eu me associo à sua visão de país dividido, assim abraço a tese de Jessé Souza que acredita que somos uma sociedade que jamais se recuperou de “maio de 88”.

Sim, não errei de ano. Não me refiro à “maio de 68” em Paris, mas 13 de maio de 1888, data da promulgação da Lei Áurea. Nunca conseguimos nos recuperar plenamente do trauma do fim da escravidão. Jamais abandonamos a ideia inconsciente de uma sociedade dividida entre cidadãos e e escravos, entre gente e sub-gente; entre senhores e serviçais. É esse nojo do Brasil mestiço que esteve palpitando nas manifestações contra Dilma, naquele mar que misturava o verde e o amarelo nas camisetas com o branco da pele, e por cima daquelas faces raivosas uma fantasia de moralidade e combate à corrupção.

O silêncio das panelas é a prova insofismável de que nunca houve uma real rejeição à corrupção. O que movia essa parte mais branquinha do Brasil era o rechaço a um projeto de pais mais igual, mais colorido, mais integrado. O pecado dos governantes de antes foi tocar no nervo exposto das castas sociais.

Lembrei de um colega dos meus tempos de médico militar. Sempre muito vaidoso, cultivava uma cabeleira fora dos padrões, mas para mantê-la parecia ter costas largas com os coronéis. Sempre se comportava como um Lord inglês perdido no meio de tupiniquins. Diz-se dele que, apesar do salário médio dos oficiais militares, adorava ostentar. Quando compareceu à festa de 10 anos de formatura da medicina em sua cidade teve o cuidado de chegar na festa com um carro importado. Alugado, mas ninguém precisava saber.

Uma vez durante as férias economizou o suficiente para viajar para a Europa com a esposa. Na volta me disse uma frase, referindo-se a Paris, que nunca esqueci: “Aquilo sim que é cidade, e não essa chinelagem daqui. Eu merecia ter nascido lá, e não no meio dessa porcaria”.

Essa frase me marcou, mesmo passados quase 30 anos, porque resume a ideia de uma porção considerável da classe média branca brasileira. Parece a eles que acabaram de desembarcar no Brasil vindos do velho continente e perceberam que esse país está cheio de uma gente estranha, escura, ignorante e suja. “Aqui não é o meu lugar”, dizem eles de costas para o Brasil. Sua postura é de uma eterna distopia; estão no lugar errado, cercados de gente inferior.

Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado
me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci brasileiro
(e ainda no Rio de Janeiro!!!)
– Chico Buarque –

Pois eu digo que esse Brasil que desprezam só é assim porque uma parte muito grande da classe média continua sonhando ser o que não é, além de cultivar uma postura xenofílica e pedante.

Na verdade é o Brasil que não precisa mais dessa classe média arrogante e egoísta.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s