Função Paterna

 

Há alguns meses, falando sobre os condicionantes sociais da criminalidade citei um estudo que mostra que 70% da massa carcerária de homens no Brasil é composta de sujeitos sem a figura paterna constante em suas vidas. Realmente, faz sentido para mim este achado; falta um pai na vida dessas crianças. A mesma análise agora foi feita com os massacres nos Estados Unidos demonstrando que a ausência de um modelo masculino paterno está presente em todos os perfis psicológicos dos personagens por trás das armas.

A volatilidade dos relacionamentos contemporâneos e a facilidade dos divórcios e separações, associados com uma maior independência das mulheres – mudanças culturais com inegáveis aspectos positivos – tiveram como parefeito o aparecimento de um número maior de crianças que crescem sem a presença de um pai em suas casas.

A ausência dessa figura junto com outros fatores como a violência urbana, o capitalismo, a banalização das armas e a competitividade estimulada nas escolas podem estar na origem dos surtos de violência como os que temos testemunhado na América do Norte. Além disso, algo também precisa ser feito com os meninos dentro de um sistema escolar que é conduzido por mulheres e direcionado para as meninas, e não para os garotos. Ser “garoto” na escola é ser um potencial foco de problemas.

O estilo de vida ocidental nos levou a que um número crescente de crianças crescem sem a figura paterna. Não é a separacão do casal a origem do problema, mas suas consequências. Entretanto, a ninguém ocorre achar que a solução seja manter juntos casais que não mais se amam. Esse tempo de prisão “em nome das crianças” já passou.

Como presenciei muitos casos de alienação parental em minha vida pessoal e profissional e sei o quanto é duro ver homens expulsos do afeto de uma criança pela voz da mãe. Apesar de achar que a maioria dos casos é mesmo por imaturidade e irresponsabilidade dos homens, não penso que a alienação paterna possa ser desconsiderada.

Por outro lado, não é à força que se constrói um pai. Ser um bom pai é um processo transgeracional; se o indivíduo não consegue se sentir nessa função não há nada que se possa fazer. Claro que podemos obrigá-lo a pagar suas obrigações econômicaz e fazê-lo cumprir as determinações de visitas, mas sabemos que não é isso que significa ser pai. É bem mais do que dinheiro e presença física.

Mães deixadas à própria sorte para cuidarem sozinhas dos filhos são sempre um desafio complexo. Nao apenas as questoes natetiais contam, mas também as emocionais. A sensação de onipotencia de uma mãe (até um pai) que cria uma crianca(s) sozinha é fabulosa. Não há contraponto, nem contraditório. Sua voz é TODA a autoridade que a criança tem. Isso pode representar uma sedução muito grande e representar um elemento não visível na alienação parental. “Ele (ela, raríssimas vezes) nunca vem visitar os filhos.”, ou “Ele(a) sempre volta chorando da casa do pai”. Sempre que escutei estas frases de maes separadas eu me perguntava – em silêncio – o quanto disso era falta de desejo do parceiro e quanto havia de obstrução simbólica por parte da mãe. Difícil saber.

Sejam quais forem as razões (abandono ou alienação parental) a verdade é que a falta dessa função (mais do que dessa “figura”) está implicada em todos os casos de massacres produzidos por jovens rapazes americanos. É preciso proteger os meninos que, por serem homens e tratados como “privilegiados” (com o que discordo, mas esta é outra discussão) são frequentemente negligenciados. A falta do pai é um dos principais elementos ligados ao crime e à contravenção e uma especial atenção precisa ser devotada a essa lacuna de formação nos próximos anos. Para o bem de toda a humanidade.

 

 

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