Tecnologias Sedutoras

Lembro de escrever sobre os estudos apontando a alteração de lateralidade produzida pelas ultrassonografias há mais de 10 anos. Havia uma real preocupação com o exagero deste exame desde sua própria criação por um obstetra escocês. Alguns iam mais longe e perguntavam: “Será a ultrassonografia na gestação a Talidomida do século XXI?”. Outros estudos foram feitos trazendo outras perguntas sobre segurança, mas a força do mercado extraordinário que se abria e o paradigma da “gestação como espetáculo” venceram esta batalha até agora.

Há alguns dias fiz um comentário sobre ecografias de rotina durante a gravidez num grupo de gestantes de Sorocaba, do qual eu fazia parte sem saber. Disse que não havia nenhuma evidência de que as ecografias rotineiras em gestações de baixo risco produziam benefícios para mães ou bebês. “Ecografias de rotina não tem nenhum impacto no resultado das gestações”. Algumas mães mais exaltadas me xingaram com frases “onde você fez curso de medicina?”, ou com afirmações do tipo “as ecografias são fundamentais para acompanhar o peso e o desenvolvimento do bebê” e “não há como fazer pré-natal sem o uso de ultrassom“. As menos exaltadas apenas confessavam que “gostavam de ver o bebê na barriga”. Percebi que o “show da vida” havia vencido a ciência e o bom senso. As imagens venceram as ideias e as sensações maternas, que guiaram nossa percepção do mundo fetal, sucumbiram diante dos chuviscos impressos em papel encerado.

Talvez ainda tenhamos que esperar que este paradigma chegue ao seu ápice e que mais evidências surjam mostrando riscos da invasão sobre o claustro materno antes de vermos a restrição progressiva de seus abusos. Quando tantos lucram às custas de imagens de bebês é muito difícil questionar sua validade e avaliar riscos e malefícios.

O que me propus a fazer até o último dia foi oferecer orientação para todos para que suas decisões sobre este exame fossem tomadas com o máximo de informação e responsabilidade. Mesmo correndo o risco (que dúvida?) de ser o chato de sempre.

Essa situação acaba gerando um ciclo vicioso, como nas cesarianas e partos. Médicos ficam seduzidos pela facilidade e proteção jurídica das cesarianas e perdem as habilidades e a paciência para atender partos, da mesma forma como se encantam pelas imagens e informações das ecografias – muitas delas inúteis e confusas – e perdem a capacidade de tocar na barriga de uma gestante.

Na minha época de escola médica o debate era sobre o RX e a ausculta pulmonar. Hoje em dia os médicos perderam muito da habilidade em escutar sibilos e roncos. A história se repete em várias outras áreas, produzindo um empobrecimento da arte médica. Infelizmente muitas parteiras se deixam hipnotizar pela tecnologia e se associam aos médicos na trilha sedutora da tecnocracia.

Outro estudo, mais recente, confirmando os achados anteriores do início do século. Lembrando: o fato de ser canhoto (left handed) não é o mais relevante, mas é preocupante imaginar que mais poderá ter sido modificado no cérebro dessa criança, e que está distante da nossa análise superficial. Alzheimer? Câncer? Esquizofrenia? Diabete? Muitas (como no caso do Dietilbestrol) só descobrimos 15 a 20 anos depois…

Para entender melhor, pense assim: você conhece um gato na balada. Depois de uns amassos ele diz que votará no Bolso*. A escolha do candidato é o menos importante; muito mais grave é descobrir que outros valores um genocida, racista e homofóbico compartilha com seu crush, sacou?

Veja mais aqui

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s