Abayomi

 

 

Passei por uma experiência interessante e gratificante proporcionada por minha querida amiga Lucia Scalco. Resolvemos conversar com uma antiga “apanhadeira de bebês“, Dona Catarina (nome fictício), uma parteira tradicional urbana de 82 anos que trabalhou durante 38 anos num dos conhecidos bolsões de pobreza de Porto Alegre – RS. Atendeu seu último parto há 8 anos.

Catarina nos informou que sua formação veio pelo aprendizado com outra parteira que lhe cobrou (muito dinheiro, segundo ela) para a acompanhar e conhecer suas técnicas. Durante anos foi acompanhante desta sua “mestra” e depois seguiu em “carreira solo”. Não sabe quantos bebês nasceram sob seus cuidados, porque nunca se deteve a anotar ou contar, e não sobrou nenhum registro do seu trabalho. Vive em uma casa pobre com um parente que a ajuda, no coração da vila onde mora há mais de 4 décadas.

A entrevista foi valiosa por vários aspectos, em especial pela possibilidade de observar os ângulos mais sombrios da parteria. Ao invés de escutar um relato glamoroso e cheio de encantamentos e emoções, testemunhamos uma história de ressentimentos, dramas, dores e mágoas. Dona Catarina diz que seu ofício nunca foi recompensado, e que as pessoas a quem atendeu eram profundamente ingratas com seu trabalho. “Nem um muito obrigado elas me diziam. Viravam a cara quando me encontravam na rua“. Perguntada porque não era paga ela respondeu “Pagar com o que? Eram todos muito pobres. Tinham seus filhos em casa porque não podiam pagar um táxi para o hospital“. Perguntei se havia pagamentos simbólicos, como frutas, pães, galinhas, ovos, roupas ou mesmo um reconhecimento social, como é muito comum em comunidades do interior e ela negou. “Não me davam nada. Nunca ganhei para atender as pessoas“, disse.

Dona Catarina é pobre. Mora em uma casa de esquina no centro geográfico da vila, e sua história é cheia de pequenas e grandes tragédias. Ter seu trabalho explorado e não reconhecido é apenas uma delas, e das mais leves. Alguns de seus filhos se envolveram com drogas e chegaram a ser moradores de rua. O tempo inteiro se referiu a eles sem qualquer carinho, saudade ou doçura. É uma mulher pequena, miúda, aparentemente frágil, mas conta inúmeras histórias de lutas físicas contra agressores. Fala de uma briga em que enfrentou um vizinho alcoolizado de facão em punho, tendo lhe infligido um corte profundo no braço. Quando mais jovem levou um agressor ao hospital com golpes de madeira. Segundo ela, ficou um mês na UTI e veio a falecer. Conta a história sem qualquer remorso ou arrependimento. “Ela é uma fera, doutor. É pequena, mas muito brava.” Olha para ela e diz “Jesus manda perdoar também, viu?“, mas ela responde com um muxoxo.

Dona Catarina seguiu os passos de um contingente crescente da população de periferia no Brasil tendo se convertido a uma das inúmeras vertentes evangélicas que proliferam em sua comunidade. Agora diz-se “cristã”, mesmo tendo sido católica a vida inteira. Rompeu relacionamento com parentes e em especial com seus próprios filhos, alguns deles ligados a religiões de matriz africana. “Não existem duas águas boas para beber, só uma“, e esta sua visão de mundo é compartilhada pelo rapaz que nos acompanha na conversa, único parente que vive com ela. A Bíblia aberta sobre a mesa – ao lado do velho aparelho de som que toca música Gospel insistentemente – confirma suas palavras. “(Meus filhos) são batuqueiros do demônio. Quero distância deles“.

Quando perguntada sobre as mudanças que presenciou nos últimos anos em sua vila expressa a vontade de sair. “Vou vender o que tenho e ir embora daqui. Aqui só tem maconheiro, ladrão.” Parece profundamente consumida por ressentimentos e desconfianças.

Em relação ao seu trabalho dizia que usava luvas, cordão, tesoura e álcool. Nada de balanças/ “Eles iam pesar depois no armazém, mas já atendi muito bebê de mais de 5 kg“. Descreve suas habilidades com toques ginecológicos e repete mitos populares de “pentes fechados”, “bebês cansados”, “ossos que impedem o parto”, “bebês que engolem água do parto”. Conta um segredo: bafo de erva de chimarrão para facilitar os partos. A tudo termina com uma gargalhada, num sorriso em que nenhum dente sobrou para deixar testemunho.

Dona Catarina durante décadas era chamada a atender nas madrugadas, no frio, em lugares miseráveis e insalubres. Barro, sujeira, chuva, esgoto a céu aberto. Refere-se aos pobres da vila de invasões próxima de onde estávamos como “preguiçosos, vagabundos e acomodados”, para em seguida listar tudo o que conseguiu conquistar com seu esforço e determinação. Mesmo sendo muito pobre percebia nitidamente a diferença que a afastava destes outros, mais necessitados e despossuídos. Repetia um claro discurso meritocrático que coloca a pobreza como resultado da preguiça e da falta de vontade, uma fala muito usada pelos setores mais conservadores da sociedade, inclusive pela igrejas evangélicas.

Bradava sua independência como um grande valor pessoal. “Não preciso de homem nenhum, pra comida, pro serviço ou pra cama“. Vive de sua aposentadoria e refere o medo de que as pessoas que a cercam se aproveitem de si.

Dona Catarina sentir-se confiante com a nossa presença e por isso permitiu-se abrir o seu coração para a dor que acumulou durante tantos anos. Onde eu imaginava encontrar um anjo de doçura e transcendência encontrei uma mulher brava e indócil, que sobreviveu a um ambiente duro e violento usando as armas que lhe foram possíveis. Os nascimentos eram parte de sua tarefa, mas não como elemento de elevação espiritual ou como um “sacro ofício”. Não havia nada de sagrado ou superior nos partos que atendia, apenas uma tarefa “nem dura, nem fácil, mas para a qual era necessário ter conhecimento, para não ser como essas ‘parteiras facāo’ que estragam as mães e os bebês”.

Terminou nossa conversa dizendo que “parto não tem nada de bonito. É muita nojeira e sangue, mas não pode ter nojo e nem ter crise de nervos. Precisa coragem e se manter fria”.

Tomamos nosso café e nos abraçamos, mas ficou no meu coração o desejo de escutar por mais tempo a riqueza impressionante das histórias de dor e martírio de uma guerreira de partos, uma heroína tipicamente humana, com todos os defeitos e virtudes que compõem os nossos heróis.


Foto: Bonecas Abayomi. A palavra Abayomi significa “encontro precioso”, aquele que traz felicidade e alegria. Quando os negros vieram de África para o Brasil em navios Negreiros atravessavam o oceano Atlântico numa viagem penosa. As crianças choravam assustadas porque viam a dor e o desespero dos adultos. As mães negras, para acalentar suas crianças, rasgavam tiras de pano de suas saias para fazer bonecas para elas brincarem. Essas bonecas são chamadas de Abayomi. Quando você dá uma dessas bonecas a alguém significa que você está dando o melhor de você para essa pessoa. Este foi o presente que ganhei da comunidade que visitei.

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