Les Mystéres des Voix Bulgares

Já que estão falando de música sertaneja e seus desdobramentos na cultura permitam-me que eu fale um pouco dos meus gostos estranhos para música. Sempre gostei de música vocal, acapella, corais, etc. Por certo que foi herança do meu pai que curtia músicas religiosas “gospel” tipo “Kings Heralds” ou “Arautos do Rei” – sua versão brasileira – e também música alemã de coral. Por causa dessa influência muito cedo descobri Joseph Shabalala – falecido em fevereiro 2020 – e os “Ladysmith Black Mambazo”, e o fiz antes de Paul Simon. Também curtia “Take 6”, “Boca Livre” e até “Da Boca pra Fora”, do meu amigo Lúcio Santos.

Entretanto, há uns 25 anos atrás meu caiu às mãos uma crônica de Tárik de Souza (escrita na Veja, quando esta revista ainda era um semanário de qualidade) sobre “Les Mystere des Voix Bulgares”, um grupo de mulheres que cantam músicas folclóricas da Bulgária. Poderia ser mais uma coluna de crítica musical elogiosa a um grupo que mantém intactas as tradições de seu país, ou sobre o ressurgimento de músicas folclóricas e tal. Mas não… Tárik falava de uma “sonoridade diferente” daquela conhecida no ocidente. Algo estranho de escutar. Falava de uma música chamada “Sekoj Fali” como “a entrada em uma nave espacial que, solta pelo éter, produz uma forma especial de conjugar sons e palavras, timbres e silêncios” (é o que minha memória reteve de suas palavras).

Fiquei muito intrigado com sua descrição, e totalmente tomado de curiosidade. “Como pode haver uma sonoridade desconhecida, que poderia até soar agressiva aos nossos ouvidos?‘. Li também que se tratava de um grupo formado apenas por mulheres, sem vozes masculinas. Comecei a procurar o CD (sim, já existiam) até que encontrei um lugar que os vendia, que mandei buscar fora do Estado.

As músicas me arrebataram por completo. Realmente, uma viagem lisérgica e estranha. Fiquei completamente chocado pela emoção que as músicas – cujas letras eu não entendia uma palavra sequer – me transmitiam. Foi uma descoberta impressionante.

Muitos anos depois, em 2012, recebi o email de uma querida parteira búlgara chamada Olga Ducat que havia lido o capítulo que escrevi no livro de Robbie Davis-Floyd (chamado “Team Work”) e desejava conhecer o modelo de trabalho transdisciplinar que havíamos implantado em Porto Alegre, com parteiras, obstetras e doulas trabalhando em horizontalidade e de forma cooperativa. Olga ficou sabendo que eu estaria dando um curso de Educadoras Perinatais em Portugal e assim solicitou que déssemos uma “espichada” até Sófia, na Bulgária, para apresentar um workshop e uma série de palestras no congresso que estava organizando.

Evidentemente que aceitei sem pestanejar, e a primeira coisa que me veio à mente foi a possibilidade que conhecer o “Mistério das Vozes Búlgaras“. Pedi para Olga e sua amiga Liubomira Lilova para verem da possibilidade de conseguir ingressos para um show delas, caso houvesse algum durante nossa estada de apenas 1 semana na capital búlgara.

Foi exatamente o que aconteceu. Mal descemos do avião e lá estava Olga para nos receber. Fomos ao hotel, deixamos as roupas e malas sobre a cama e rumamos céleres para um gigantesco teatro no centro de Sófia. Com Liubomira ao nosso lado, assistimos eu e Zeza à apresentação das mulheres de vozes misteriosas e belas. Não consegui parar de chorar durante toda a apresentação, o que é constrangedor e ridículo, mas honesto.

Perguntei para Liubomira se é comum elas se apresentarem em Sófia, ao que ela me respondeu: “Pelo contrário. Faz uns 4 anos que elas não tinham apresentações públicas. Foi muita sorte de vocês“.

Não foi sorte, foi um milagre….

Deixo aqui a música Izlel e Délio Hajdutin, uma música de amor, que fala do romance entre Délio, líder da guerrilha búlgara, por Gyulsumé, torturada pelos exércitos otomanos, mas que se manteve fiel ao seu amor pelo guerreiro libertador.

Existem muitas lendas sobre Délio. Esta música se refere à lenda sobre sua morte, embora seu fim trágico não seja mencionado diretamente. Acreditava-se que Délio era invencível – nem bala nem espada poderia matá-lo. Assim, seus inimigos, os anciãos de Zlatogrado, subornaram (ou forçaram) uma velha a implorar (ou roubar) dele uma moeda de prata. A bala de prata forjada com aquela moeda matou Délio enquanto ele relaxava ao pé de sua pedra favorita, junto ao rio. Sua amada, Gyulsumé, o alertou sobre a emboscada, mas ele não deu atenção ao seu aviso, pois pensava estar protegido pela anistia do sultão, anunciada recentemente.

Diz-se que a rocha, chamada Pedra de Délio, sangra – fica coberta por orvalho sangrento – todas as manhãs de sexta-feira

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s