O Penhasco dos Sonhos

Esbarrei no romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent“, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) e fiquei duas horas pensando sobre estes parágrafos. Talvez eles contenham angústias que também compartilho.

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“A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.

– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.

Levantei os olhos a procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.

Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva.

Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele para os seus.

Inclusive essa.

Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se soubessem à minha volta o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por ter desejado tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada através de cordéis etéreos ao acidente fatal.

Mais uma culpa com a qual eu teria que lidar”.

Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135

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