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Limites do corpo

Fui punido pelo Facebook por mostrar uma foto de Spencer Tunick, um artista que faz grandes montagens com gente nua. Um puritanismo tosco do Facebook para castigar alguém por mostrar corpos em profusão de carnes e curvas.

Isso me fez pensar nos paradoxos do pudor. Penso na naturalidade dos biquínis na praia e o furor que causariam no centro da cidade ou num restaurante. Penso nas mamas que são decentes mesmo quando 99% estão à mostra. Também lembro de pessoas nuas com corpos pintados com peças de roupas – teoricamente vestidas.

Penso ainda no despudor dos meus netos que aos poucos vai desaparecendo pelo surgimento insidioso de algo se vai lhes acompanhar por toda a vida: a vergonha.

Temos vergonha de nossos corpos, talvez porque o que escondemos pode revelar quem verdadeiramente somos. Nosso medo é que vejam a real matéria que nos constitui.

Sempre tive inveja dos despudorados. Não dos exibicionistas; desses sempre guardei uma certa distância, tanto os marombados de camiseta apertadinha quanto das mulheres voluptuosas de pernas e decotes à mostra. Mas, ao mesmo tempo que admiro o pudor e a reserva eu invejo as pessoas que não carregam nenhuma vergonha de seus corpos e o enxergam com respeito e reverência. Tipo… gente que é gordinha, magricela, baixinha ou barrigudinha mas não se incomoda com isso e também não tem vergonha de falar do seu corpo e das coisas dele.

A história mais curiosa sobre isso ocorreu comigo ainda na residência médica. Estava de plantão na emergência quando observei ao longe no corredor do hospital uma moça alta, esguia, bonita e de passos largos caminhando em minha direção. Vestia um longo vestido colorido e uma blusa solta de tecido transparente. No peito vários colares se enroscavam, reluzentes e coloridos.

Naquela época se chamavam “ripongas”. Aproximou-se de mim e abriu um sorriso.

– Ric, estava à sua procura. Sou eu, Délia, sua paciente do ambulatório. Disseram que estava na emergência e vim aqui falar com você.

Estacionei no meio do corredor e reconheci de imediato minha paciente. Uma moça “nova era”, pós-hippie, bonita, cabelos soltos, sem pinturas, de olhar intenso e sorriso cativante.

– Claro Délia. Em que posso lhe ajudar?

Ela passou a explicar que apesar dos anticoncepcionais continuava sangrando todos os dias, em quantidades variáveis.

Imediatamente pensei se tratar de “spot”, um efeito secundário dos anticoncepcionais à base de progestágenos que atrofiavam excessivamente a parte interna do útero. Algo comum e de fácil resolução.

Cometi, então meu grave erro. Perguntei à minha paciente:

– Mas qual o volume desse sangramento? Muito pouco ou parecido com uma menstruação normal?

Ela me olhou com seus olhos verdes e grandes por breves instantes. Depois, em silêncio e sem titubear, sem qualquer sinal de pudor ou desconforto, colocou a mão por baixo da saia de cigana e puxou o absorvente. No meio do corredor do hospital.

Fiquei paralisado e tudo que pude fazer foi olhar ao redor para ver se havia testemunhas. Por sorte o corredor de acesso à emergência estava vazio àquela hora. Colocou o “modess” próximo do meu rosto e com o polegar apontou a pequena mancha vermelha ao centro.

– Sempre fica assim. Todos os dias.

Disse isso com a mais absoluta e sincera naturalidade, como se estivesse mostrando um ferimento na ponta do dedo. Depois de mostrar por vários ângulos e falar da cor e do cheiro curvou novamente seu corpo e, levantando a saia rodada, recolocou o absorvente em seu devido lugar. Por fim, perguntou o que eu achava. Ainda atônito, respondi:

– É isso mesmo, disse eu. Trata-se de um sangramento comum. Passe em alguns minutos no ambulatório que lhe faço uma receita.

Ela me abraçou efusivamente dizendo “até lá” e me deixou plantado no meio do corredor sem saber para onde ir.

Até hoje lembro da cena com um sorriso. Penso que talvez aquela bela moça tenha mantido a inocência que perdemos ao longo da vida e que nos espanta quando com ela nos defrontamos. Talvez a vida devesse mesmo ser um pouco mais simples e natural.

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O Penhasco dos Sonhos

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“A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.

– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.

Levantei os olhos a procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.

Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva.

Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele para os seus.

Inclusive essa.

Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se soubessem à minha volta o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por ter desejado tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada através de cordéis etéreos ao acidente fatal.

Mais uma culpa com a qual eu teria que lidar”.

Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135

O romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent“, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) foi escrito imediatamente depois de cumprir pena no Ventress Correctional Facility em Clayton, Alabama (USA). A partir desse livro, que combina memórias pessoais com relatos recolhidos de colegas de cadeia, ele inaugurou uma sequência de 14 obras em que ele escreve especificamente sobre o universo “white trash”, os “rednecks” do sul dos Estados Unidos, a cultura masculina decadente e a idolatria por figuras como Trump. Vive ainda hoje em Galveston no Texas, com seu cão Jax, e está escrevendo um romance sobre o lado pouco conhecido e obscuro da família Bush.

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Patético

Encontrei uma antiga psicóloga com quem me tratei num passado não muito distante semidesmaiada sobre uma rodela de vômito ao lado de uma bagana de maconha em um boteco do Bom Fim. Seu cabelo desgrenhado parecia a erupção de um pequeno gêiser capilar e fedia a azedo. A roupa estava amassada como um pacote de supermercado, e seu corpo debruçado sobre a mesa quase não se movia, a não ser por espasmódicos soluços, o único movimento que lhe denunciava a vida.

Seus olhos (só os vi ao fazer a volta na mesa para confirmar que era ela mesma) estavam semicerrados, como que a tentar segurar nas retinas uma imagem do passado. O esforço só conseguia manter uma lágrima estática, vitrificada, como que congelada na comissura do olho. Sua boca rígida pronunciava rancor e tristeza entre os dentes, cobertos com o fel de um desamor. Sim, sua dor era silente, assim como mudo era seu pranto. Que imagens estariam passando por detrás daquelas pálpebras? Que lembranças dolorosas estariam sendo prisioneiras em suas memórias?  

Olhei-a mais uma vez com pena e compaixão. Tive ímpetos de abraçá-la, consolá-la, afagá-la com um abraço, mas me contive. Não seria bom para ela estar na situação na qual o afogado fosse, naquele momento especial, sua tábua de salvação. Como explicar que seu paciente, aquele sujeito em frangalhos, à beira do suicídio, neurastênico e infantil pudesse estar a lhe ajudar?  

Voltei-me para a porta e dei dois passos, sem deixar de olhar mais uma vez para trás e testemunhar um derradeiro soluço a me garantir que a vida ainda habitava aquele frágil corpo. “Hic”, disse ela, e ultrapassei o batente da porta, para rua e para a noite.  

Caminhei uma quadra e percebi meu rosto corar. Ensaiei um sorriso triste enquanto chutava uma lata que teimava em ficar de pé na calçada úmida. Uma lembrança estranha me visitou, enquanto dobrava a rua e procurava nos bolsos a chave do carro. “Eu fiquei com vergonha ao contar a ela que fiz xixi na escola, e que meus colegas riram de mim“.  

Patético, pensei eu.

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