Felizes para sempre

Quando eu era criança as mulheres separadas eram socialmente marcadas. Lembro de uma artista local que foi impedida de frequentar o clube por ter se separado do marido. Era o tempo em que ser “desquitada” era uma vergonha, e muitas mulheres suportavam até espancamentos em nome da “união da família” e pelo “bem dos filhos”. Era também o tempo em que muitos homens procuravam sexo e prazer nos prostíbulos, já que a mãe dos seus filhos não precisava cumprir essa função.

Durante séculos, casamentos foram arranjos sociais e não projetos afetivos. Serviam para fazer filhos, juntar patrimônio, cuidar de propriedades. Não se propunham a servir de veículo para o amor.

Talvez esse seja o destino do casamento do futuro: um projeto para fazer filhos e dedicar cuidado a eles por um tempo. Sem vinculações afetivas profundas, sem conexões obrigatórias de ordem sexual. Tudo apenas em nome da reprodução.

Talvez a liberdade sexual das mulheres, esta novidade introduzida no século XX, produza uma sociedade com o mesmo tipo de liberdade de que os homens dispunham nos séculos passados, só que agora compartilhada pelas mulheres, tanto dentro quanto fora dos casamentos. É possível imaginar um futuro sem corpos presos…

De resto, casamentos duradouros não são uma virtude social. Mostram apenas rigidez nas estruturas que sustentam a sociedade patriarcal. A mim parece que ainda é melhor uma sociedade de relações instáveis do que casamentos rígidos e insatisfatórios, mesmo que duradouros.

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