Marcas no corpo

– Adeus mãe, melhor dizendo, até breve.

Suas mãos pálidas cruzavam o peito deixando à mostra os ossos proeminentes. Os olhos fundos e as bochechas encovadas registravam a solidão de seus últimos tempos. Solitária em seu mundo de lembranças e visões pouco absorvia do mundo que a rodeava. A memória, como chama fina no candeeiro, esmaeceu-se lentamente, como o frio que nos invade na chegada do inverno. Lembrei, por alguns momentos enquanto olhava seu rosto pela última vez, das histórias de “Juca e Bolão” que contava para nos seduzir a secar a louça com ela, da letra linda, dos cadernos que corrigia, do meu imenso prazer em fazê-la explodir em gargalhadas. Suas histórias de tombos fantásticos, que adorava contar pela metade, pois as crises de riso a impediam. Sua comida cujo cheiro reconhecia a uma quadra de distância ao chegar da escola. Arroz, feijão, guisado, farinha de mandioca. Suas sonecas na tarde e a porta trancada do quarto. Olhei mais uma vez a cicatriz que trazia no antebraço, que vinha do punho até quase o cotovelo, lembrando a história que se escondia por detrás, e que me foi contada há tanto tempo que sequer consigo recordar a época exata.

Foi uma brincadeira infantil que quase produziu uma tragédia. Escondida debaixo de um sofá, num inocente jogo de esconde-esconde, foi finalmente encontrada pelos amigos. Quando foi resgatada de lá o braço ficou preso, trincou e quebrou. Não tinha mais do que 5 anos na época. Ainda assustada, ela é levada ao hospital e faz um tratamento padrão para a época, meados dos anos 30. Alguns dias depois acorda com febre e uma mancha vermelha e feia no local da fratura. Seus pais a levam para o hospital e recebem o diagnóstico, dos poucos que a minha mãe sabia dizer: osteomielite.

Estávamos há décadas de comercializar antibióticos. O médico inglês Alexander Fleming desenvolveu pesquisas sobre estafilococos e acabou por descobrir a Penicilina em 1928, dois anos antes do seu nascimento. Esta descoberta, assim como tantas outras na ciência, deu-se em condições muito curiosas, graças a uma sequência de eventos imprevistos. Mas quando minha mãe chegou ao hospital nada disso estava à disposição dos médicos.

– Será preciso amputar o braço de sua filha, disse o médico, sem devaneios, ao meu avô, “Seu Olinto”.

Meu avô ficou absolutamente arrasado, mas aceitou o que o destino havia lhe reservado. Saiu da sala do médico e foi até a cafeteria do hospital Moinhos de Vento para fumar um cigarro e tomar um café. Lá encontrou um amigo para quem compartilhou a história, e puderam juntos lamentar o ocorrido. Quando estava indo embora, sentiu um toque no ombro e se virou. Lá estava um jovem rapaz, com seu chapéu nas mãos.

– Eu escutei a história que você contou ao seu amigo. Desculpe pela intromissão. Sou o Dr. Heinrich* e acabo de voltar de um ano de estudos na Alemanha. Eu vi que meus colegas preconizaram a amputação do braço da sua filha, mas nós desenvolvemos um tratamento para estas condições que talvez permita curar a infecção sem precisar agir de forma tão radical.

Meu avô a tudo escutava com paciência, que aos poucos se transformou em esperança. Se era possível uma cura sem extirpar um dos seus braços, por que não tentar? Pediu ao médico que tomasse conta do caso e assim foi feito.

Minha mãe contava que o tratamento se baseava em abrir a extensão da pele até o osso e fazer “raspagens” e lavagens, até que ele curasse de dentro para fora. Quando minha mãe descrevia essas peripécias e essa aventura eu tremia, tanto de excitação quando de medo ao ouvi-la descrevendo as raspagens dolorosas e sacrificiais mas, acima de tudo, corajosas. Ao fim do tratamento estava curada, apenas com a vistosa cicatriz a lembrá-la para sempre do que passou.

Hoje eu creio que muito do que eu fiz da minha vida está inscrito nessa história. Para o bem e para o mal a minha trajetória está marcada por esta narrativa.

Estava ali a sua cicatriz, marca de sua força e resiliência, que a acompanhou até o fim da vida. A longa marca que lhe riscava o braço permaneceu com ela até depois da memória ter se recolhido para o último sono.

– Até breve, disse eu, mais uma vez.

* um nome inventado. Minha mãe contava que era um médico da comunidade alemã de Porto Alegre, onde todos se conheciam pelos sobrenomes e pelas origens.

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