
Tenho uma indisfarçável inveja das pessoas que reconhecem em si tantas virtudes. Falam com genuína honestidade sobre suas ações justas, sua força, sua persistência e a nobreza de seus gestos. Percebem, em si mesmas, a coragem e a humildade que norteiam seus princípios. Vi-me aplaudido em púlpitos de igrejas negras do Alabama, chamado de justo pelos mesmos homens que arriscavam a vida ao meu lado, e em cada aplauso senti mais o gosto doce da própria importância do que o peso da causa que dizia defender. Eu, sinceramente, me identifico muito mais com os fracos, os bêbados, os estúpidos e os ignorantes. Percebo em cada uma de minhas atitudes o mais vil dos interesses, mesmo quando travestidos de grandioso despojamento. Consigo enxergar nas minhas ações a fagulha egoística que me motiva, mesmo quando pareço estar oferecendo graciosamente ao mundo um pedaço de minha pretensa sabedoria. Vejo, em tudo o que faço, a sordidez mesquinha e calculada, a volúpia do orgulho insano e a vaidade desmedida.
Tudo em mim é mentira. O que me anima é esse amor gigantesco que tenho por mim mesmo, pelos meus prazeres e gozos. O que me move é o desejo de obter todas as vantagens possíveis, as quais guardo como troféus, preciosidades que se esfarelam a cada vez que as toco. Não seria possível enganar indefinidamente, mesmo com tal pureza de fachada, com tanta sujeira que me sai por cada poro, cada palavra, cada sílaba e cada silêncio cúmplice. Também não culpo ninguém pela miséria de minhas ações; as porcarias – que são minha carne e que escapam pela minha voz – são todas minhas; são o único valor que carrego e a parte que me cabe levar desta vida.
Andrew D. Manning, “Angel of Mine”, ed. Prado-Bell, pág. 135
Andrew Dewey Manning foi poeta, ensaísta e escritor. Nascido em Chalkville, Alabama, em 1937, cursou seus estudos primários em Grayson Valley. Fez apenas os estudos iniciais, tendo sido autodidata. Escreveu 5 livros de poesia e sua grande obra, o romance “Angel of Mine”, onde aborda o racismo do sul dos Estados Unidos na época do Jim Crow. Foi reconhecido como um dos precursores dos movimentos antirracistas, tendo organizado, ainda jovem, os primeiros protestos silenciosos em frente à prefeitura de Chalkville. Morreu em 1987 vítima de câncer no fígado. Deixou a mulher Ethel e os filhos Jeremy e Andrew Jr.