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Mentiras

“Tenho uma certa inveja das pessoas que reconhecem em si tantas virtudes. Falam com genuína honestidade sobre suas ações justas, sua força, sua persistência e a nobreza de suas ações. Percebem, em si mesmas, a coragem e a humildade que norteiam seus princípios.

Eu, sinceramente, me identifico muito mais com os fracos, os bêbados, os estúpidos e os ignorantes. Percebo em cada uma de minhas atitudes o mais vil dos interesses, mesmo quando travestidos de grandioso despojamento. Consigo enxergar nas minhas ações a fagulha egoística que me motiva, mesmo quando pareço estar oferecendo graciosamente ao mundo um pedaço de minha sabedoria. Vejo, em tudo o que faço a sordidez egoística e mesquinha, a volúpia do orgulho insano e a vaidade desmedida.

Tudo em mim é mentira. O que me anima é esse amor gigantesco que tenho por mim mesmo, pelos meus prazeres e gozos. O que me move é o desejo de obter todas as vantagens possíveis, guardando-as como troféus que mantenho como preciosidades que apodrecem cada vez que as vejo.Não seria possível enganar a ninguém com tal pureza de fachada, com tanta sujeira que me sai por cada poro, cada palavra, cada sílaba e cada silêncio cúmplice. Também não culpo a ninguém pela miséria de minhas ações; as porcarias que são minha carne e que escapam pela minha voz são todas minhas, o único valor que carrego, e a parte que me cabe para levar desta vida.

“Andrew D. Manning, “Angel of Mine”, ed Prado-Bell, pag 135

Andrew Dewey Manning foi poeta, ensaísta, escritor. Nascido em Chalkville, Alabama, em 1937, cursou seus estudos primários em Grayson Valley. Fez apenas os estudos iniciais, tendo sido autodidata. Escreveu 5 livros de poesia e sua grande obra, o romance “Angel of Mine”, onde aborda o racismo do sul dos Estados Unidos na época do Jim Crow. Foi reconhecido como um dos precursores dos movimentos antirracistas. Morreu em 1987 vítima de câncer no fígado. Deixou a mulher Ethel e os filhos Jeremy e Andrew Jr.

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Vaidades

Há alguns anos eu vi uma cena que até hoje me faz refletir. Nela havia um fusca estacionado no meio fio, enquanto um jovem se ocupava em lhe dar um banho de mangueira e passar uma esponja com sabão. Nada mais singelo e banal, não fosse o fato de que esse fusca era o carro mais enferrujado que já existiu sobre o planeta. Era todo amassado e com marcas gigantes de ferrugem que chegavam a carcomer a carroceria até atravessar em vários pontos. Era um caco velho, mas o jovem o estava cuidando, ajeitando e deixando limpo com todo o carinho, como se fosse um BMW.

Diante da cena tocante eu me perguntei em solilóquio: “que diferença faz estar limpo um carro TÃO deteriorado?”

Curiosamente eu sempre lembro dessa cena quando me olho no espelho e começo a pentear meus “cabelos”…

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Formato de Corpo

Das expressões que a Zeza usa uma está entre as melhores: “formato de corpo”. Sempre que eu experimentava um roupa qualquer ela dizia “Não ficou bem pro teu formato de corpo”. Isso não significa curto, grande, folgado, apertado e também não significa que você está gordo ou magro. É uma concepção estética complexa e de difícil definição. Uma espécie de “desacerto”. Tipo, você pode ser bonito e a roupa ser linda mas seu “formato de corpo” não deu match. É um Tinder estético. Nao adianta serem ambos bonitinhos, tem que “fechar”.

“Formato de corpo” é um conceito parecido com “temperamento”. Quando você não consegue entender a reação de uma pessoa você diz: “Pois é, infelizmente é do temperamento dele agir desta maneira”. Pronto. Não explica nada, nao dá nenhuma esperança, apenas estabelece um ponto de partida inamovível; uma fatalidade sobre a qual não há o que debater. Com o “formato de corpo” é a mesma coisa. Não adianta você perder peso, ou ganhar; nem mesmo fazer academia ou lipoaspiração. Nem tente implante de gordura pois de nada vai adiantar: é o formato de corpo que não ajuda.

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