Desfile

Quando fiz o curso de preparação para os oficiais R2 da aeronáutica, há mais de 3 décadas, eu fui o segundo colocado da turma. O primeiro lugar ficou com um anestesista que gabaritou a prova e que desejava seguir a carreira militar. Já eu queria apenas um emprego e um lugar para colocar em prática algumas ideias revolucionárias sobre parto normal fisiológico. Entretanto, não há como negar que essa condição de segundo mais “antigo” (graduado) da turma me garantia uma série de pequenas prerrogativas, mas que as vezes eram muito bem vindas.

Eu nunca quis ser militar e rejeitei todos os convites para ingressar na vida militar ativa. Sempre tive com o militarismo uma postura critica e desconfortável. A ideia de hierarquia e disciplina para um sujeito caótico como eu, e que tem profunda aversão à prepotência, tornava a minha estada numa instalação militar um exercício diário de adaptação forçada. lembro bem que não era fácil.

Lembrei hoje de uma passagem quando estávamos nos aproximando do desfile de 7 de setembro e quando percebi, com absoluto horror, que me caberia – pela escala – comandar o pelotão de saúde do hospital durante o desfile. Entrei em pânico. Comandar um batalhão demanda conhecer a ritualística dos toques de corneta e dos comandos para os soldados e sargentos da tropa. Precisa ainda outro elemento: coordenação motora, outro atributo que não veio no meu pacote vital básico.

Que fazer? Eu certamente cometeria uma série de pequenos vexames durante o desfile. Pensei em ficar doente, provocar um acidente, me internar no hospital por diarreia aguda. Estava sem saída. Foi quando passei pelo saguão do prédio do hospital e escutei a conversa de dois coronéis a respeito do suporte de ambulâncias para o desfile.

– Precisamos de alguém da equipe médica que se “voluntarie” para ficar ao lado da ambulância durante o desfile. Mas, já sei de antemão ninguém vai querer pegar essa bomba, porque precisa ficar até o fim do desfile.

Bastou escutar esse fragmento de conversa para imediatamente me apresentar ao coronel.

– Coronel, eu me voluntario para ficar ao lado da ambulância. Posso ajudar, pois sei que é uma posição que as pessoas evitam. Eu não me importo, ficarei feliz em ajudar.

– Então já coloco agora seu nome na convocação. Obrigado, tenente.

Saí do saguão do comando exultante e ainda ouvi o coronel falando para seu colega “É desse tipo de oficial que precisamos. Nem foi preciso mandar, pois ele se apresentou para ajudar”.

No dia seguinte, vi afixada a escala para o desfile, e notei meu nome riscado do comando da tropa e colocado como o responsável pela ambulância. Pude ainda, no dia do desfile, desfrutar da sensação de ser uma estrela, vendo os familiares dos soldados pedirem para tirar fotografias comigo. Eu sinto culpa até hoje por ter dado àquelas pessoas a falsa ideia de que eu estava tentando ajudar quando, em verdade, estava agindo pelo mais egoístico dos motivos.

Tenho certeza que os deuses responsáveis pelos desfiles militares me entenderão e me deixarão entrar marchando – descoordenadamente – no céu.

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