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Careca de Aço

Alguns articulistas da Imprensa de esquerda agora se derretem para a “coragem” do ministro Alexandre Moraes, o “careca de aço”.

Pois eu não poderia discordar mais desse entusiasmo. Não vejo bravura alguma, mas oportunismo com pinceladas de corporativismo. Aplaudir o judiciário – em especial o STF – quando faz pirotecnia para livrar o próprio r*bo é ingenuidade. Essa casa cassou o mandato de Dilma por inação e manteve Lula preso ao negar-lhe o Habeas corpus, e para isso contou com o voto calhorda deste Alexandre que agora chamam de “bravo”.

Corajoso??? Sério??

Quando foi para manter encarcerado Lula, sobre quem nunca houve prova de delito impedindo-o de concorrer, onde estavam a coragem e a bravura do Sr Alexandre? Pois não passa de um medroso de capa….

Não aplaudo arrependidos de última hora como Bonner, Alexandre Frota, ou mesmo Joice, também não vou exaltar um STF acadelado, que foi incapaz de lutar pela democracia quando o beneficiado era Lula. Por que deveríamos aplaudir um ato do STF que ocorreu apenas quando a água do fascismo bateu-lhes na bunda???

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Desfile

Quando fiz o curso de preparação para os oficiais R2 da aeronáutica, há mais de 3 décadas, eu fui o segundo colocado da turma. O primeiro lugar ficou com um anestesista que gabaritou a prova e que desejava seguir a carreira militar. Já eu queria apenas um emprego e um lugar para colocar em prática algumas ideias revolucionárias sobre parto normal fisiológico. Entretanto, não há como negar que essa condição de segundo mais “antigo” (graduado) da turma me garantia uma série de pequenas prerrogativas, mas que as vezes eram muito bem vindas.

Eu nunca quis ser militar e rejeitei todos os convites para ingressar na vida militar ativa. Sempre tive com o militarismo uma postura critica e desconfortável. A ideia de hierarquia e disciplina para um sujeito caótico como eu, e que tem profunda aversão à prepotência, tornava a minha estada numa instalação militar um exercício diário de adaptação forçada. lembro bem que não era fácil.

Lembrei hoje de uma passagem quando estávamos nos aproximando do desfile de 7 de setembro e quando percebi, com absoluto horror, que me caberia – pela escala – comandar o pelotão de saúde do hospital durante o desfile. Entrei em pânico. Comandar um batalhão demanda conhecer a ritualística dos toques de corneta e dos comandos para os soldados e sargentos da tropa. Precisa ainda outro elemento: coordenação motora, outro atributo que não veio no meu pacote vital básico.

Que fazer? Eu certamente cometeria uma série de pequenos vexames durante o desfile. Pensei em ficar doente, provocar um acidente, me internar no hospital por diarreia aguda. Estava sem saída. Foi quando passei pelo saguão do prédio do hospital e escutei a conversa de dois coronéis a respeito do suporte de ambulâncias para o desfile.

– Precisamos de alguém da equipe médica que se “voluntarie” para ficar ao lado da ambulância durante o desfile. Mas, já sei de antemão ninguém vai querer pegar essa bomba, porque precisa ficar até o fim do desfile.

Bastou escutar esse fragmento de conversa para imediatamente me apresentar ao coronel.

– Coronel, eu me voluntario para ficar ao lado da ambulância. Posso ajudar, pois sei que é uma posição que as pessoas evitam. Eu não me importo, ficarei feliz em ajudar.

– Então já coloco agora seu nome na convocação. Obrigado, tenente.

Saí do saguão do comando exultante e ainda ouvi o coronel falando para seu colega “É desse tipo de oficial que precisamos. Nem foi preciso mandar, pois ele se apresentou para ajudar”.

No dia seguinte, vi afixada a escala para o desfile, e notei meu nome riscado do comando da tropa e colocado como o responsável pela ambulância. Pude ainda, no dia do desfile, desfrutar da sensação de ser uma estrela, vendo os familiares dos soldados pedirem para tirar fotografias comigo. Eu sinto culpa até hoje por ter dado àquelas pessoas a falsa ideia de que eu estava tentando ajudar quando, em verdade, estava agindo pelo mais egoístico dos motivos.

Tenho certeza que os deuses responsáveis pelos desfiles militares me entenderão e me deixarão entrar marchando – descoordenadamente – no céu.

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Felipe Neto

Vejo as reações ao Felipe “Repaginado” Neto situando-se entre o entusiasmo – afinal ele coloca Bolsonaro e Malafaia no mesmo caldeirão diabólico do fascismo – e o ressentimento – a mesma prateleira onde colocamos Lobão, Joice, Moro, Janaína, etc., aquelas figuras patéticas da história recente que montaram a festa do golpe e agora choram porque o vizinho chamou a polícia.

Sem querer inventar a roda, creio que é possível situar-se com equidistância destas posições. Sim, é verdade que é muito bom que ele cerre fileiras contra o fascismo e o atraso representados por Bolsonaro e Malafaia. Sim é bom que esteja do nosso lado, reconheça seu erro e queira ajudar. Entretanto, de bons moços já estamos saturados. Collor já fez este papel; Huck está tentando ocupar este espaço. Representantes limpinhos da burguesia sempre jogam desta forma: colocam-se como “novidade”, impolutos, sinceros, apolíticos, enojados com o “mar de lama”, etc.

Todavia, alguém que se situa entre “Amoedo e Ciro” não parece ter condições para falar em nome da esquerda, ou mesmo das forças progressistas do país. Ele parece bem sincero, mas está longe de ser um personagem inédito.

Por outro lado, um cara com quase 40 milhões de seguidores não deve ser desprezado, e fico muito feliz que um sujeito com a sua influência no mundo cibernético tenha acordado para o risco que Bolsonaro representa para o país e a nossa democracia.

Gosto dessa atitude, mas não acho ser possível nutrir muitas esperanças por um “nouveau riche” com crise de consciência.

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Monstros

É claro que não gostei da indicação do novo Ministro da Saúde, o Dr. Nelson Teich, e tenho várias queixas à sua postura ética diante dos dilemas da medicina. Entretanto, a publicação de uma entrevista com a filha de uma ex paciente sua – que faleceu de câncer – chamando-o de “monstro” é a pior forma de jornalismo que existe. Oportunista, desonesta e sensacionalista. A imprensa independente deveria ser o exemplo de ética jornalística e não repetir o erros do jornalismo corporativo.

Esse tipo de entrevista com familiares de pacientes terminais é pura desonestidade. A morte de um ente querido – e as emoções que a envolvem – nos fazem perder a noção adequada da realidade. Os médicos que lidam com essas situações – em especial os oncologistas e médicos de UTI – jamais dirão as palavras que os pacientes querem ouvir. Se ele for positivo e otimista será acusado de “enganar a família com falsas esperanças”. Se ele disser o que está ocorrendo com frieza e realismo será chamado de “monstro insensível”. Minha experiência com essa questão é de que não há saída. O médico pode controlar o que vai falar em uma situação trágica como a morte de um paciente, mas jamais poderá controlar como o familiar recebe a mensagem e nem como vai reagir diante de seus próprios sentimentos diante dessa perda.

Em momentos de dor o sentimento preponderante é a culpa. Culpa por não ter sido bom marido, bom filho, boa esposa, bom amigo, etc. Observe: as pessoas mais agressivas e fora de controle num enterro são os parentes mais distantes e com a relação mais conflituosa com o falecido. São essas pessoas que frequentemente desviam suas culpas – reais ou imaginárias – para a figura do médico, imaginando assim diminuir a sua carga. Por essa razão as declarações de parentes de pacientes são envolvidas em paixões e carecem de racionalidade e valor absoluto. Não há dúvidas que existem falhas, por vezes grosseiras, por parte dos médicos atendentes, mas essa culpa jamais será estabelecida escutando apenas a voz de uma familiar diretamente envolvida.

Publicar esses depoimento carregados de mágoa é desonesto, um ataque baixo e que demonstra uma falha ética do veículo de imprensa.

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Ética

“Eu me acostumei a ouvir essa acusação de “radical” por muitos anos. Na verdade este radicalismo que tanto eu ouvia se resumia apenas a… cumprir a lei. Chamar de radical é uma forma usual de acusar o outro para desobrigar-se de fazer o que é certo. Tipo, quando você acha uma carteira na rua e se esforça para achar o dono e alguém lhe diz, constrangido pela sua atitude: “Ora, não precisa ser tão radical; achado não é roubado”.

É sim; não existe “meia-ética”, e muito menos será abusivo tratar com respeito aqueles com quem se divide essa estrada curta chamada vida.”

Mary Lemont Ashcroft, “Pictures in Exhibition”, Ed. ELP, pág. 135

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