Era uma vez…

Meu neto Oli, no primeiro dia na nova escola, disse para os seus colegas: “Meu avô conta histórias muito assustadoras”.
Orgulho me define…

Em verdade, o que eu conto aos meus netos são histórias de aventuras, ficção juvenil, porém carregadas de suspense e com momentos de tensão e surpresa. É emocionante contar estas fábulas e perceber seus olhos parados em um ponto da parede enquanto suas mentes embarcam no navio que leva à ilha misteriosa, ajudados pelo velho pirata McKinnon com a promessa de recuperar o baú perdido no incêndio do iate (no qual faleceram os pais de Gregor) e que, talvez, contenha a “Tiara Dourada”…

Hoje, enquanto eu contava um capítulo da segunda temporada de “Aventuras na Praia”, expliquei a eles que os protagonistas (Jack, John, Mary e Gregor) haviam encontrado uma caixa escondida no porão da mansão do enigmático Sr. Wilkinson. Ela poderia ser mais uma peça para montar o intrincado quebra-cabeças da trama.

Quando descrevi as dimensões da pequena caixa – que mais tarde descobriríamos estar cheia de moedas de ouro envolvidas em uma bolsa de couro – Henry, o meu neto de 5 anos, falou: “Olha vovô, quando tu falas essas coisas eu vou imaginando na minha cabeça como elas são, e o baú é bem do tamanho que eu tinha pensado!!”

A contação de histórias é a mais antiga das nossas formas de representação teatral. Ela tem a mesma idade da linguagem articulada, e creio mesmo que criamos a fala apenas para liberar as histórias que estavam prisioneiras em nossas mentes. Posso enxergar as crianças ao redor de uma fogueira arregalando os olhos enquanto escutam em silêncio os relatos de coragem, as lutas sangrentas, o embate com as feras e os mitos que os velhos trazem ao circulo. Na cena vejo a emoção que se regenera a cada relato misturada com as sombras dançantes que se projetam nas faces atentas enquanto escutam o crepitar da fogueira, no alvorecer daquilo que chamamos de humanidade.

Reviver esse costume milenar e transmitir ideias, conceitos, proporções, perspectivas de mundo e – acima de tudo – valores através dessas histórias é a razão pela qual a natureza permite que nos tornemos velhos o suficiente para termos netos.

A vida seria insuportável sem a ficção, e as crianças se preparam para a vida adulta por meio dessas narrativas. Benditos aqueles que tem a oportunidade de deixar um pouco de si nestas historias, como legado para os pequenos.

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