História de Pronto Socorro

Em meados dos anos 80 eu estava de plantão no hospital de Pronto Socorro da minha cidade, o mais tradicional dos hospitais da capital. Estava atuando como interno do 5o ano da faculdade de medicina e era na cabeça dos embriagados que treinávamos as nossas primeiras suturas. Claro, com “supervisão” dos contratados plantonistas do hospital, o que nem sempre era a regra.

Em um determinado fim de semana o plantão estava movimentado acima da média com os casos usuais: acidentes de trânsito, brigas em “bailões”, acidentes domésticos, embriaguez, assaltos, ferimentos a bala etc. Eu notei que aquela noite, um sábado de verão, estava mais movimentada que o habitual. Como estava recém iniciando o estágio eu frequentemente pedia orientação para os velhos plantonistas a respeito do tipo de sutura a utilizar ou os rituais de degermação dos ferimentos. Por sorte, naquele dia em especial, os médicos de plantão eram solícitos e amistosos.

Subitamente irrompe na sala de pequenas suturas um jovem negro banhado em sangue. O rosto se encontrava coberto por caudalosos rios vermelhos que cruzavam sua face e coloriam de rubro todo o seu corpo. Usava apenas um calção folgado e chinelos de dedo, e se percebia que estava muito alcoolizado. Ele provavelmente mal havia passado da puberdade.

– Um entrevero, doutor. Na festa de aniversário da Michelle. Briga por causa de guria, vê só…

Quem explicou o caso foi um rapaz um pouco mais velho que havia empurrado a cadeira de rodas com o jovem semi desfalecido para a sala de pequenas cirurgias.

– Bateu com a cabeça no chão. Depois chutaram ele. Animais…

Pedi ao acompanhante e aos enfermeiros da sala que me ajudassem a colocá-lo na maca para ser avaliado. A pressão estava boa, mas os batimentos acelerados. Devia ter perdido já uma boa quantidade de sangue. Quando o examinei não encontrei nenhum ferimento sangrante pelo corpo além da cabeça, onde havia um corte de 10 cm de extensão que aparentemente já havia sangrando muito.

– Precisamos fazer um Raio X de crânio. Vou chamar os técnicos aqui para ver se houve fratura ou se temos apenas essa lesão superficial para suturar. Fique de olho nele; se houver lesão interna ele pode até convulsionar. Já volto.

Era o médico da sala pedindo que eu tivesse atenção redobrada com o jovem enquanto solicitava o exame radiológico.

Olhei mais uma vez para o jovem deitado na maca com o canto do olho enquanto preenchia os papéis de identificação e a descrição do ferimento. Havíamos colocado nele um curativo de gaze provisório, antes de fazer a costura dos tecidos. Estava desacordado, respirando profundamente, com as mãos cruzadas sobre o peito e um pé para fora da maca de onde se pendurava um chinelo havaianas empapado de sangue.

Com os olhos voltados para o relatório à minha frente, não foi necessário mais do que um minuto de desatenção para que a cena aterrorizante se chocasse contra minha retina. Da distância de 3 ou 4 metros vi o corpo do rapaz corcovear no que parecia uma convulsão clônica, fazendo a perna que pendia para fora da maca hospitalar subir e descer freneticamente.

Assustado, imediatamente me joguei sobre seu corpo ensanguentado para evitar que a convulsão o fizesse cair, aumentando ainda mais os traumas que já carregava no corpo. Com todas as forças do meu pulmão gritei histericamente por ajuda enquanto me abraçava ao corpo do jovem, apertando-o contra o curvim azul e gasto da cama onde estava.

No silêncio que se seguiu ao meu grito consegui escutar uma voz:

– Ei, dá licença moço…

Soltei o corpo magro do rapaz e pude ver, com espanto, que era ele mesmo quem falava. Ainda atônito gritei:

– Cara, o que está acontecendo? Achei que você estava tendo um “troço”. Que houve? Estava se balançando todo, parecia uma convulsão!!

O rapaz, com um sorriso na face que só os ébrios conseguem fazer, respondeu:

– Convulsão doutor? Que é isso rapá!! Eu estava só tentando tirar o chinelo do pé porque está todo sujo!! Não inventa moda doutor!!! Eu hein…

Um plantão também é feito de sustos e suspiros de alívio…

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