Chima

Muitas coisas na vida custam caro, outras são absolutamente gratuitas. Quer dizer: não são monetizáveis e sobre elas não se pode arbitrar um valor convertido em moeda.

Perguntada por uma repórter se haveria algo pelo que ela trocaria toda sua fama e fortuna, Madonna respondeu sem pestanejar: “uma mãe” (Madonna perdeu a sua muito cedo na vida). Este amor primordial não pode ser mensurado, mas para ela valeria mais do que qualquer fortuna que porventura pudesse ser acumulada.

Outra coisa que não tem valor monetário eu só percebi depois de velho. Numa das viagens de Robbie ao Brasil, caminhando comigo por um parque aqui em Porto Alegre, ela me perguntou se poderíamos sentar num bar e pedir um chimarrão. Somente naquele momento me dei conta que a bebida símbolo dos Gaúchos não pode ser vendida. Não existe comércio de chimarrão, e vendê-lo seria um crime tão grave que daria espaço para discutir a aplicação da pena capital.

Uma roda de chimarrão é das coisas mais bonitas do Sul, e sempre aparece a história da “véia que morreu com uma cuia na mão”, entre outros folclores. Imaginar que o chimarrão pudesse ser vendido causaria arrepios em qualquer pessoa que vive aqui. Nem a água quente para regar o mate pode ser cobrada nos parques. É o que eu chamaria de uma verdadeira bebida sagrada.

Você pode pagar por cerveja, tequila, cachaça, café, talvez até ayahuasca (escutei isso mas não tenho certeza), porém não é possível pagar por um chimarrão. Ele é oferecido graciosamente como um gesto de amizade e confiança, estabelecendo um laço afetivo e de comunhão com quem entra em nossa casa, ou no nosso coração.

O amor também deveria ser assim, totalmente livre e desmonetizado. Deveria ser oferecido como um gesto de absoluta confiança e desapego, uma conexão das almas que não se vergam ao mundo das coisas. Um encontro onde apenas a felicidade daqueles envolvidos é o prêmio superior.

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