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Quando você crescer

Encontrei um vídeo de uma moça, ativista da humanização do nascimento, chamada Ekaterina Mariposa (vejam que lindo nome). Ela morava no Geórgia, um pequeno país no leste da Europa, mas é de ascendência russa. Há 8 anos passados ela havia me entrevistado para conhecer um pouco do movimento de humanização do nascimento no Brasil. Quando vi seu vídeo novo, mandei um alô e lhe disse que gostava muito de ouvir o som do idioma georgiano e, mais ainda, do seu alfabeto tão peculiar. Ela ficou feliz de me reencontrar e combinamos uma nova entrevista.

Todavia, por causa desse encontro, o Facebook me colocou no algoritmo da Georgia, e começaram a pipocar músicas polifônicas de grupos georgianos. Uma delas me tocou profundamente pela sonoridade e delicadeza das vozes femininas. A música me impressionou de tal forma que passei a escutá-la repetidamente todo o dia, tentando acompanhar e cantarolar junto com as intérpretes e imaginando o que a letra poderia conter. Fui obrigado a apelar para o chat GPT para descobrir o nome da música cantada pelo grupo “Ialoni” da Geórgia. O nome da música é შენ რომ დიდი იქნები (Shen rom didi iknebi), e a tradução: “Quando você crescer”.

Esta noite minha neta Ava, de 5 anos, veio dormir comigo, mas ficava o tempo inteiro querendo conversar. Pedia que eu continuasse a “nossa” história sobre um grupo de crianças que está em uma excursão de ônibus e entra em um túnel estranho, que as leva para o passado. Lá encontram Pterodáctilos, Tiranossauros Rex, Tricerátops e muitos outros seres do passado. Depois de uma série de aventuras eles voltam para o ônibus, seguem pelo túnel misterioso, mas erram a bifurcação que as levaria à saída, sendo conduzidas ao mundo do futuro, onde são acompanhadas por um guia chamado Peter Wertenheim, que as ensina a usar seus braceletes anti-gravitacionais e jogar basquete voador. Apesar dos meus esforços, nada a fazia conseguir conciliar o sono, então resolvi colocar para tocar no celular a música que estava o tempo todo na minha cabeça, e logo depois ela dormiu. Só hoje descobri do que a música trata, e talvez a razão por ela estar tão fixada em minha mente.

O poema tem uma dedicatória: “À pequena Irma”. É uma declaração de amor de um avô à neta, imaginando o momento em que ela crescerá e ele já não estará vivo. O poema começa com o avô imaginando a neta adulta, quando ele já tiver morrido. Pede que ela se lembre dele, deixando que as lembranças cheguem como flocos de neve. Ele imagina que um dia a jovem voltará para casa e não o encontrará. Mesmo sem poder fazer mais nada por ela, promete permanecer dentro de sua alma. Quando a menina se tornar mulher e ele já estiver transformado em pedra, sua morte não significará o fim de seu amor. De algum lugar além da vida, ele continuará iluminando o caminho dela.

Na passagem final, o avô faz um pedido a Deus: deseja transformar-se em um cervo, adornar seus chifres com o amor da neta e caminhar pelas montanhas em homenagem a ela. A imagem do cervo é particularmente significativa porque o nome Irma está associado, no georgiano, à palavra que designa esse animal. Assim, o poeta transforma o nome da própria neta em uma metáfora de permanência, ternura e amor. É uma canção sobre a morte, mas, sobretudo, sobre a tentativa de tornar o amor maior do que ela. Faz todo o sentido.

Mando essa música para quem é ou será avô e consegue imaginar a dor de um dia ter que deixar a quem tanto ama.

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