Arquivo do mês: outubro 2026

Trevas e aprendizado

Há muitos anos vi uma palestra do Slavoj Zizek (que tem coisas fantásticas e outras ruins) na qual ele discorria sobre a opção que as esquerdas fizeram nas democracias liberais europeias. Zizek criticava o “bundamolismo” (o termo é meu, não dele) dos partidos socialistas europeus que, ao invés de puxar para o centro, procurando alianças e acertos com a direita, a burguesia e o imperialismo, deveriam ter radicalizando à esquerda, mantendo sua “pureza original”, mesmo que às custas de eventuais derrotas eleitorais.

Zizek ponderava que, ao fazer concessões à direita, distanciando-se do proletariado e do campesinato, os socialistas transformaram-se em partidos eleitorais e burocráticos. Desta forma, foram se afastando paulatinamente de sua origem operária e aos poucos foram perdendo a identidade. O mesmo se aplica às opções feitas pelo PT no Brasil, e é por esta razão que vimos com tanta naturalidade personagens como Tebet e Alckmin circulando na esquerda, como verdadeiros “camaradas”, o que seria impensável se o PT se mantivesse fiel à sua origem.

As vitórias econômicas tímidas do governo de Lula não mobilizaram a população a continuar votando no presidente. Por certo que houve avanços em relação ao desastre bolsonarista anterior, mas no imaginário popular isso não é suficiente. A direita soube (e teve dinheiro para) motivar sua base eleitoral, com o discurso punitivista, falsamente libertário, evangélico e moralista. O Brasil entrará num período longo de trevas, mas acredito que será um excelente aprendizado para as forças progressistas.

Aliás, o fato de Cury ter sido o terceiro colocado nesta eleição – um sujeito sem qualquer história na política e com uma trajetória de coach e escritor de literatura de autoajuda – fala muito sobre o estado da arte da política nacional. Seu livro mais famoso trata de Jesus como “o homem mais inteligente do mundo”. O que desejam dizer os eleitores desse sujeito ao lhe oferecer seu voto? Que mensagem este fato oferece sobre a política, os partidos, as propostas e a conjuntura da nossa democracia burguesa? Talvez essa informação seja tão relevante quanto tentar descobrir as falhas da esquerda.

Sabe o que dá raiva? Ver que o PCO e o Rui Costa Pimenta estavam – mais uma vez – certos sobre o desastre que fatalmente ocorreria quando o PT se mesclou com o identitarismo. Ora, por que um “partido dos trabalhadores” deveria abandonar a pauta do proletariado para apostar em um projeto criado nos laboratórios do imperialismo para dividir a classe trabalhadora? Os sinais eram claros, mas ninguém no PT quis enxergar. Se o identitarismo não for retirado da esquerda ele vai destruir o que ainda resta de luta popular. A politica de “frente ampla” fracassou, tanto na Europa quanto aqui. A esquerda precisa aprender o caminho para oferecer ao povo uma alternativa para se proteger do fim do capitalismo.

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Classe média

Eu também odeio nossa classe média, e não me excluo dela. Crítico ferozmente essa classe até porque faço parte dela. Ela é rasteira, pedante, medíocre, odiosa, preconceituosa e arrogante. É uma classe composta majoritariamente por pequenos burgueses, que se estabeleceu acreditando estar afastada dos proletários, a quem desprezam, e próxima dos burgueses, os donos, os proprietários, por quem são desprezados.

Costumo olhar para a classe média como um sargento que se acha superior aos seus comandados mas que, pela sua grossura, falta de refino e cultura, é desprezado pelos oficiais. Na perspectiva do sargento, ele se acha especial por não se misturar com a soldadesca, mas na visão do oficialato ele não passa de um militar bruto e mais velho que os ajuda a controlar a massa de soldados.

A classe média tem uma carência crônica de consciência de classe. Sua escolha nas lutas sociais sempre é oportunista e ilusória. Ao invés de se unirem ao operariado na luta pela divisão equânime da riqueza produzida, preferem se unir aos opressores na ilusão de que eles os reconheçam como iguais. É o caso do médico, do advogado, do pequeno comerciante, do empresário, etc. Não por acaso, essa classe é profundamente reacionária, a base do bolsonarismo e da extrema direita.

Essa classe média deve ser trocada com uma classe combativa, que deseja a mudança e que lute ao lado do operariado e do campesinato por uma revolução estrutural no Brasil.

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Hasbara

A hasbara – propaganda israelense – aumentou de forma exponencial as postagens em defesa do massacre israelense sobre o povo palestino. A tática, entretanto, mudou. Antes havia a negativa das mortes e mutilações, mas agora, diante das múltiplas evidências, a ideia é afirmar que não se trata de genocídio porque “apenas” 3% da população foi morta – sem contar as mais de 50 mil crianças que perderam pelo menos um membro nos ataques. Comparam a matança em Gaza com ataques pontuais nazistas na segunda guerra mundial e tentam provar que aquele foi o único genocídio legítimo da história. Nao aceitam perder o trono máximo de vítimas do preconceito. Até onde vai o delírio sionista?

Acaso acreditam que 73 mil mortos – entre eles 20 mil crianças – não constitui um genocídio? Querem nos fazer crer que 2/3 de baixas civis em um povo confinado em um campo de concentração, sem bunkers, sem proteção, sem armamento anti aéreo, não configura uma chacina covarde? É possível aceitar o argumento de que não foi genocídio porque muita gente sobreviveu se desviando de bombas em Gaza?

Por mais que a propaganda israelense seja brutal, é ilusão imaginar que muitos possam se aliar ao sionismo, um projeto colonial racista e supremacista de colonos ashkenazis que invadiram as terras palestinas com a desculpa de que “Deus lhes deu essa Terra há 3 mil anos”. Não há mais como “desver” o projeto colonial mais semelhante ao nazismo jamais criado. Em tudo se assemelham: extrema direita, brancos europeus, racismo, raça pura e superior, apartheid, muro, opressão, check points, campos de concentração, tortura em prisões, cães adestrados para estuprar. Quem poderia virar o rosto para as grandes instituições internacionais que confirmam o genocídio? Quem ousar se embrenhar nesse pântano acabará chegando à sombra do nazismo, ao sionismo mais abjeto e racista, ao colonialismo mais vil e degradante. O apoio a Israel representa um golpe na biografia de qualquer um, assim como foi o apoio ao nazismo no século passado ou à ditadura militar. Israel significa o resquício de um colonialismo que foi expulso da África, sendo a Palestina sua última ferida aberta.

Aliar-se ao sionismo é lamentável em todos os sentidos: humano, espiritual e político. Ele representa um retrocesso civilizatório, uma aposta no fracasso inevitável de um projeto racista e brutal. A posteridade não vai perdoar, assim como não perdoou aqueles que se uniram-se à visão de mundo de Adolf Hitler.

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Judeus do mundo

Os judeus são em essência um grupo como qualquer outro, nem mais nem menos em qualquer aspecto. Qualquer análise de superioridade ou inferioridade é tola e insustentável. Entretanto, não é sobre eles que está o problema, mas sobre uma ideologia à qual muitos – a maioria – adotaram como sinônimo de judaísmo: o sionismo.

Os sionistas são um grupo diferenciado, e podemos reconhecê-los pela forma como se posicionam diante de Israel. Nem todos os judeus são sionistas, e a maioria dos sionistas não são judeus – são evangélicos, especialmente americanos. Entretanto, é justo dizer que a maioria dos judeus hoje em dia é formada por sionistas. Os sionistas são um grupo diferenciado, e podemos reconhecê-los pela forma como se posicionam diante de Israel. São abertamente racistas, supremacistas, preconceituoso e arrogantes. Sua forma de ver o mundo estabelece uma hierarquia que os coloca no topo e os goyim (termo pejorativo usado para anunciar os “não escolhidos”) na parte de baixo, deixando para os árabes – termo que pela generalização sobre um grupo tão diverso já expõe o preconceito – as últimas posições. Fica claro que o objetivo daqueles que acusam os antissionistas de antissemitas é manter a confusão proposital entre judeus e sionistas, para ser possível acusar aqueles que acusam a barbárie assassina de Israel de antissemitas, ou seja, contrários aos judeus. Assim, imaginam esconder do mundo o que realmente estas pessoas estão fazendo: denunciando a matança deliberada de mulheres, crianças, médicos, enfermeiras e jornalistas e a destruição de escolas, mesquitas, hospitais e toda a vida social e urbana de um povo. Um crime contra a humanidade.

A imagem de Israel no mundo caiu em um abismo. A aversão ao colonialismo brutal e assassino de seus líderes sempre foi algo restrito aos grupos que se interessavam pelo povo palestino e sua história, de antes do Nakba até agora. Porém hoje, as imagens das crianças mortas, a tortura nas prisões, as bombas caindo sobre assentamentos de lona, a morte de jornalistas e as milhares de crianças amputadas que circulam pelas ruínas de Gaza estão nos smartphones de cada um de nós. Não há como esconder a perversão e a estupidez, a sombra da morte se debruçando sobre um povo que por mais de 80 anos experimenta perseguição, exclusão, humilhações cotidianas, mortes e torturas, e cuja punição se dá pela ousadia de existirem e resistirem Sequer as crianças são poupadas de prisões arbitrárias e abusos sexuais por parte do IDF. Não há mais como “desver” o que Israel traz de horror ao mundo.

NAZA trouxe tudo isso como uma confissão. Sim, existem israelenses cujo estômago também se contrai ao ver as imagens da limpeza étnica e do massacre. E eles se levantaram para cortar na própria carne, e apontar o dedo para os assassinos. Eles precisam ser exaltados como importantes persinagens na consciência global. Eles colocaram na boca dos soldados a banalidade do mal, a qual todos já sabíamos, mas que se tornou mais intensa vinda de onde veio.

Não há como melhorar a imagem dos judeus no Brasil e no mundo enquanto houver o interesse de confundir o judaísmo e o povo judeu com o racismo assassino dos sionistas. Enquanto não ocorrer esse divórcio haverá antissemitismo, e não vai adiantar mais e mais dinheiro gasto em hasbara (propaganda) para tentar “tapar o sol com uma peneira”. Todos estamos vendo, somos todos testemunhas dos crimes contra a humanidade levados a cabo por Israel e os monstros que o controlam.

Judeus do mundo todo, unam-se contra o sionismo. Esta é sua única chance.

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Cancelamento

A cultura do cancelamento foi a arma da esquerda identitária nos últimos 10 anos. Ela precisa ser enterrada.

Eu espero que a derrota da esquerda mostre o fracasso da cultura do cancelamento, do discurso punitivista de esquerda, do proibicionismo e da censura sobre músicas, piadas, pronomes e expressões. Este tipo de mentalidade “esquerdista” fracassou, destruiu a conexão dos partidos de esquerda com o povo, com os trabalhadores e com as pessoas comuns. Essa visão de mundo levou à derrota que agora sofremos. É preciso encarar nossas falhas com coragem.

As urnas não mostraram a adesão do cidadão a um político desqualificado e miliciano, mas a rejeição a esta postura arrogante e pretenciosa da esquerda identitária, cuja função se limita a chamar a polícia diante da discordância de ideias, propor censura e aumento de penas e tratar das questões políticas de forma punitivista.

Que esta dor que agora sentimos se transforme em luta, mas acima de tudo uma reflexão sobre o erro de esquecer a importância de ter o povo nas ruas. É hora de cancelar os cancelamentos e reviver as pautas da liberdade irrestrita de expressão.

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Luto

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar…

Rosa dos Ventos (Chico Buarque)

Se você está deprimido com os resultados das eleições e percebeu que o Brasil deu uma guinada em direção à escuridão, não é hora para desespero. Tenha fé na alvorada, que desde o início dos tempos, repele a escuridão da noite com a luz da manhã. Não chore, ou talvez, só um pouquinho, porque da lágrima brota a esperança. Não esqueça que “a vida é luta renhida. Viver é lutar, que aos fracos abate, mas que os fortes e bravos, só sabe exaltar”. Venha para a luta, para as ruas, calçadas, escolas e hospitais. É no meio do povo que a política assume sua verdadeira face transformadora.

Não desista. Não esmoreça. Assuma sua dor e seu luto. Entenda que uma sociedade justa jamais o será por dádiva, mas pela construção lenta e elaborada de todos, com os naturais avanços e retrocessos que sedimentam as conquistas. Agora é o momento mais adequado para reavaliar o que fizemos e, em especial, o que deixamos de fazer. Para isso, é bom lembrar que:

1. O povo não é burro. Há sabedoria nessas escolhas, mesmo quando nos parecem tolas;
2. Censura jamais será caminho de liberdade. Livre expressão dói, faz barulho, mas é melhor do que o silêncio imposto;
3. Identitarismo é uma força que divide e enfraquece. Fragmentar a luta jamais irá fortalecer nossas propostas;
4. A luta de classes deve ser a prioridade, mesmo quando alguma outra injustiça pontual nos trouxer lágrimas nos olhos e fizer o estômago revirar;
5. Não se faz socialismo apoiando alguns segmentos da classe operária e culpando outros. Esta é a tarefa dos reacionários;
6. O imperialismo hoje festeja, mas cabe a nós darmos o troco. Precisamos estar prontos quando o momento chegar, e…

Quando chegar o momento,
esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada nesse meu penar.

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