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Ainda sobre oligarcas

O texto que escrevi sobre o sistema escolar americano, tocava em um ponto de simples compreensão: a oferta “espontânea” da comunidade para a melhoria da escola do bairro, onde seus filhos estudam. Contribuições (doações) em dinheiro para o aparelhamento de laboratórios, bibliotecas, quadras esportivas, etc. Nada é pedido em troca, mas é claro que se puderem colocar uma placa de agradecimento ao benemérito, ou batizarem a quadra poliesportiva ou a biblioteca com o nome do doador, que mal pode haver? Afinal, uma escola pública que homenageia alguém que lhe oferece dinheiro (cuja origem não lhe cabe perguntar), não deve ser ruim, né?

(Não duvido que existam bibliotecas financiadas por “Jeffrey Epstein”, “Bill Cosby” ou “Harvey Weinstein” que agora se ocupam em apagar o nome na placa…)

Bastou escrever este texto, baseado em uma experiência pessoal, para os liberais atacarem essa ideia dizendo que eu criminalizava a “caridade”, e que estas doações eram uma ideia genial para a participação efetiva da comunidade na educação. Um deles chegou a dizer que “o texto era tão ruim que não conseguiu ler até o fim”, o que diz muito do pânico em se defrontar com ideias contra-hegemônicas. Sequer perceberam que o texto pretendia mostrar que a atitude “caridosa” e “despretensiosa” dos doadores seguia um padrão de valorização dos próprios imóveis (e descontos no imposto de renda), e que não era tão “benevolente” quanto nos faziam acreditar. Também tentava mostrar que essas iniciativas, mesmo que possam oferecer melhorias na escola, acabam trazendo desajustes e desequilíbrios em um sistema que deveria produzir equidade e paridade entre os alunos.

Porém, o que mais me chama a atenção é o culto que as pessoas da classe média devotam a esses beneméritos. Ainda carregamos a mentalidade dos pequenos burgueses que, enquanto olhavam a nobreza com desmedido encantamento, sentiam pelos trabalhadores inegável desprezo e repulsa, sem perceber que estavam muito mais próximos de quem desprezavam do que daqueles por quem nutriam admiração.

Recordo vividamente amigos descrevendo encontros com figuras da “nova nobreza”: os ricos industriais, rentistas, donos de redes de comunicação e proprietários de terra. Puro encantamento. Qualquer gesto, por mais banal que fosse, era descrito como sutil, delicado, sóbrio e magnânimo. Quando estas pessoas – muitas delas sem qualquer brilho intelectual ou moral – lançavam a eles sua atenção isso produzia uma onda de gratidão e plenitude. Pobres almas!!! Via de regra iam solicitar migalhas para os pobres, pão para os famintos, cadeiras e mesas para alunos, e ficavam satisfeitos quando uma fração dos valores acumulados por esta elite lhes era minimamente repassado. A figura de John Rockefeller distribuindo moedinhas para os miseráveis da recessão americana nunca foi tão emblemática para descrever esta relação de subserviência.

É muito triste ver o crescimento da sociedade atrelado à boa vontade de milionários, como se a saúde, a educação, o saneamento básico fossem bênçãos que recebemos de capitalistas, e portanto, deveríamos agradecer a eles por seu desprendimento e sua caridade. Quando é que nossa auto estima vai permitir que a gente se livre da praga dos bilionários? Quem precisa desse tipo de aberração????

Nossa mentalidade não mudou tanto quanto imaginamos. Se a revolução burguesa nos livrou da sujeição à nobreza, o capitalismo ainda nos mantém subservientes aos poderosos que, se não mais ostentam títulos nobiliárquicos, ainda nos oprimem com o capital e suas formas de controle.

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