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Dois legumes

Traduzindo textos para o livro da Robbie me deparei com a expressão “double-edged sword”, que traduzi para “faca de dois gumes”. O interessante é que eu prefiro dizer “faca de dois legumes”, pois o ditado se torna muito mais interessante pelo total desvirtuamento da expressão, que ao invés de falar de uma ferramenta de cozinha que tem duas superfícies de corte (os gumes) se refere a uma faca que serve para cortar dois legumes distintos (algo que a expressão original jamais quis dizer).

Talvez seja assim mesmo o processo digestivo das línguas. As expressões são ditas e depois espalhadas para serem deglutidas por cada um dos que vão saboreá-las. Começam com um específico objetivo que o uso continuado vai desvirtuando, como o “bicho carpinteiro”, que começou como “um bicho no corpo inteiro” e com o tempo virou um animal que, de tão inquieto, faz mesas, cadeiras, móveis e outros apetrechos para a casa.

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Sociedade drogada

Para consideração…

Na minha época de infância, antes dos remédios serem a maior indústria do planeta, existiam os “moscões”, sujeitos desatentos e lerdos, e as crianças hiperativas, falantes, inquietas e com “bicho carp’inteiro”, mas ambas as pontas do espectro eram vistas como formas de se comportar dentro dos limites da normalidade. Era o “jeitinho” da criança.

Foi a indústria farmacêutica que induziu a medicina a tornar patológicas as características individuais. Assim como fez com a tristeza e o pesar, assim como medicalizou o nascer e o morrer, criminalizando-os e controlando-os, tornou a adaptação escolar forçada como distúrbio. Nada poderia ser mais errado. Aliás, penso que a patologia está exatamente no oposto: qualquer sujeito que se adapta muito bem às prisões, hospitais e escolas deveria ser investigado.

Tenho exemplos na minha família de gente que, por sorte, não foi medicado em função das suas condições “diferentes”. Tivesse sido e hoje por certo não seria quem é, pois teria perdido a maior parte do que aprendeu com o seu jeito especial de ser.

Não digo que os medicamentos para as crianças são inúteis, assim como nunca disse isso das cesarianas, mas apenas que o ABUSO de tais intervenções é um grave problema de saúde pública derivado da influência do capitalismo na assistência médica.

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