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Adeus amor…

Durante muitos anos escutei os lamentos de dor das mulheres cujos parceiros ganhavam asas e partiam. Eram histórias carregadas de sentimento, de afetos cortados, de amores interrompidos, de partidas, de camas vazias, de perguntas sem resposta.

Uma dessas histórias me marcou pela tristeza da protagonista. Ela era tão grata ao ex-parceiro que jamais se permitiu odiá-lo, e também porque percebeu a dor compartilhada pela chegada do fim. Certa noite chegou em casa do trabalho e encontrou o marido sentado no sofá da sala, no escuro, com a cabeça entre as mãos e soluçando. Atônita, abraçou-o e perguntou o que havia ocorrido. Como ele não respondia, questionou se houve “algo no emprego”, “dinheiro”, “sua mãe”, “família” e ele só movia a cabeça negando.

Subitamente, ela percebeu que só lhe restava como alternativa aquilo que mais temia. “Sou eu, então?” disse ela, o que ele respondeu balançando a cabeça afirmativamente, gesto que se repetiu quando ela fez a pergunta derradeira e fatal:

– Então… você não me ama mais?

Em outras vezes a reação trazia a crueza das feridas abertas. Indignação, raiva, desprezo. Choro e ranger de dentes. E quanto mais odiavam, mais dolorido era o luto. Aprendi errando a não dizer nada nessas horas. Acabei descobrindo que a identificação com o “outro opressor” podia ser facilmente estabelecida.

“Vocês são sempre assim, todos iguais!!!”, diziam algumas, esperando uma “defesa da classe” que com o tempo percebi inútil e ineficaz. Eu apenas silenciava, oferecendo minha mudez como eco às suas lágrimas. Eu intuía que aquela quantidade imensa de projetos e planos fracassados, transformados em cinza de sonhos, precisava encontrar na palavra seu necessário escoadouro.

Muitas vezes quis abraçar e acalentar estas almas sofridas, mas sabia o quão arriscado estes movimentos são. No fim, creio que o melhor é permitir que a dor de esgote, que curse seu caminho por completo, que passe por todas as paragens e que siga até o fim da linha. Sem atalhos ou desvios.

O Merthiolate do tempo acabava servindo como remédio infalível. A ardência corrosiva do abandono aos poucos dava lugar à aceitação, e depois dela a reconstrução. Para muitas era possível entender e perdoar, abrindo espaço para um novo amor. Sabiam elas que odiar era “adorar pelo avesso”, impedindo o corte duro e necessário dos laços que outrora foram sua razão de viver.

Escrevi isso porque meus ouvidos encontraram “Atrás da Porta” hoje, onde Chico Buarque, na voz de Elis, conta todas estas milhões de histórias com a simplicidade genial dos poucos versos.

“Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar

Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua”

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As Benesses da Senectude

Quando meu pai passou dos 60 anos começou a usar uma expressão que apenas agora faz sentido para mim, na medida em que me aproximo celeremente desse desfiladeiro da terceira idade. Diante de uma atitude qualquer sua, que me parecesse estranha ou exagerada, ele explicava: “Tenho 60 anos. Tenho o direito de agir assim“.

Eu sempre achava que tal explicação era simplista demais. “Ora, pensava eu, a idade não pode justificar qualquer ação, como se a maturidade (ou a “melhoridade”) fosse um salvo-conduto para todas as condutas.” Entretanto, não se tratava disso. Suas palavras apenas refletiam um “direito adquirido” de ousar, de questionar, de criticar o que nos era imposto, de agir livremente, sem a imposição de regras que nos acostumamos a obedecer de forma acrítica.

Ele continuou a usar essa expressão aos 70 e agora aos 80. “Posso reclamar, sim. Afinal tenho 80 anos e tenho esse direito“. Tal como a famosa velhinha que usa o chapéu roxo, ele pode reivindicar algumas concessões que são garantidas àqueles que ultrapassaram vários marcadores de sobrevivência. E foi ele quem me deu coragem para escrever sobre ela.

Elis Regina morreu quando ainda éramos crianças. Afastou-se desse mundo com 37 anos que, na minha perspectiva atual, é uma idade juvenil. Ela partiu exatos quatro dias depois do meu casamento. A alegria de casar com a mulher mais maravilhosa do mundo foi subitamente interrompida pelo anúncio do falecimento da maior diva da música brasileira. Gaúcha, porto-alegrense e gremista, Elis está no rol das maiores intérpretes da música brasileira de todos os tempos. Se soubesse da tragédia que se anunciava eu abandonaria a minha “lua-de-mel de pobre” e iria até São Paulo, entraria na sua casa, olharia em seus olhos e pediria: “Não nos abandone, por favor. Tu és a representante do que existe de melhor na música desse país. Nenhuma voz surgirá tão vibrante como a sua, e nenhuma música será tão intensa se não for cantada por ti. Não se vá, não se vá“.

Inútil pensar no que eu faria, tantas foram as pessoas que se entristeceram com sua partida abrupta e extemporânea e manifestaram a mesma fantasia de resgatá-la do desvario daquele dia 19 de janeiro. Ela se foi, isso é um fato, mas sua música continua a embalar nossos sonhos.

Hoje ligo o som no carro e escuto Elis. Escapa do alto-falante, gira pelos bancos, rodopia e entra nos meus ouvidos. Sinto como se ela nunca tivesse partido, presente e vívida nas sonoridades inebriantes que me hipnotizam. Talvez agora, aos 50 anos, eu possa usar o mesmo argumento de meu pai e dizer: “Já passei de meio século de vida e agora tenho o direito de dizer: Poucas coisas são mais impressionantes do que o dueto Cauby Peixoto e Elis Regina cantando Bolero de Satã”.

Escuto pela enésima vez a música e viajo no drama de uma paixão que se consome em um único dia; nasce fulgurante e morre dramaticamente na aurora de uma nova manhã. Enquanto desvio dos motoristas afoitos e desvairados imagino a gravação desse momento especial da música. Elis começa seu lamento dizendo:

Você penetrou como o sol da manhã
E em nós começou uma festa pagã
Você libertou em você a infernal cortesã
E em mim despertou esse amor
Atormentado e mal de Satã

Depois ela continua a nos envolver, dizendo da dor da separação inexorável, já na manhã seguinte, e nos fala da paixão como uma doença inoculada, aguda e incurável. Acusa sua amante de um feitiço destrutivo e doentio, pois que eterno em sua dor. “Você me plantou a paixão imortal e malsã, que me enraizou e será meu maldito final… amanhã.

E aí, quando a música repete os acordes e o som – por uma fração de segundo – parece desaparecer, eu posso ver diante dos meus olhos um enorme spot de luz se abrindo, varando a escuridão do palco e, saindo de trás das cortinas negras, aparece a figura bizarra, exótica e invulgar de Cauby Peixoto. Vestido com um indefectível smoking negro com abotoaduras douradas e balançando sua cabeleira negra e histriônica, ele abre sua inconfundível e poderosa voz de veludo e, sem dó, nos fuzila:

E agora me aperta a aflição
De chorar louco e só de manhã
É a seta do arco da noite
Sangrando-me agora
São lágrimas, sangue, veneno
Correndo no meu coração
Formando-me dentro esse pântano de solidão.

Eu sei que os jovens não vão entender, até porque nunca conheceram ao vivo estes luminares da música brasileira. Sei também que essa explicação soa para muitos como as palavras de minha mãe falando de Chico Alves ou Orlando Silva. Eu sei, eu sei… é um papo de velho, saudosista, cafona. Um texto com cheiro de mofo. Sei tudo isso.

Mas tenho mais de meio século de vida. Posso dizer que, agora sim, já tenho esse direito.

A foto acima é a projeção de como estaria Elis se eu tivesse abandonado a minha lua de mel para resgatá-la… Mas, se querem entender o que estou falando, cliquem no link abaixo, escutem e me digam se não tenho razão…

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