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Ressentimentos antigos

Há uns 25 anos organizei um seminário em Porto Alegre para homenagear uma instituição na qual eu era diretor e que estava completando 55 anos. A homenagem se estendia também ao seu fundador, falecido há algumas décadas. Fizemos vários painéis e convidamos alguns palestrantes da área de atuação do ambulatório para falar das múltiplas características do nosso atendimento.

Resolvemos convidar também um colega do fundador que ainda estava vivo, um velho farmacêutico que trabalhou com ele nos anos 50-60. Eu, particularmente, achei que seria uma ótima oportunidade de escutar alguém falando de uma personalidade que havia morrido antes mesmo de termos nascido, mas que havia criado com imenso sacrifício a instituição que nos abrigava.

Dizem as más línguas que o terreno onde a instituição ficava havia sido comprado com dinheiro ganho por este personagem em uma mesa de cartas, mas aí a lenda se confunde com a história.

Deixamos a palestra do velhinho para o encerramento do seminário. Não consegui esquecer suas palavras, mesmo com tantas décadas já passadas. Convidamos ele para compor a mesa e apresentamos sua história de vida. Depois solicitamos que nos falasse da sua relação com o nosso homenageado, o fundador da instituição, e do convívio que tiveram. Ele olhou a plateia, estalou os lábios e disse.

– Muitos anos já se passaram desde que convivemos nesta casa. Entretanto não poderei jamais esquecer seu temperamento irascível, seu caráter rabugento, sua falta de escrúpulos e sua má índole. Eu não tenho nenhuma boa palavra para dizer sobre ele. Em verdade preferia tê-lo esquecido por completo, pois nenhuma lembrança boa parece surgir em minha memória.

A coordenadora da mesa tentou tergiversar, mudar de assunto, mas o constrangimento foi inevitável. Agradeci sua presença e ainda lhe entreguei uma placa comemorativa.

O fato de serem contemporâneos e terem atuado na mesma área não deveria nos fazer supor que eram amigos. No caso, eram desafetos de muitos anos mas não nos ocorreu que isso fosse possível.

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O Menino

Sim, eu tenho pena da desgraça destes personagens para quem um fosso enorme se abre sob os pés, de onde se podem ver as labaredas do Hades. Não me sinto bem associado à enorme energia destrutiva que se forma como resposta à condenação de seus atos. Talvez seja uma reminiscência de outras tantas fogueiras que presenciei, onde sempre imperam os sentimentos mais primitivos.

Esclareço apenas que sofrer por condescendência e empatia não significa aceitar ou concordar, muito menos absolver. Todavia, quando vejo o peso de tanto ressentimento acumulado recaindo sobre estas cabeças eu me associo à tragédia destes que caem. Digo também que olhar desta forma não é uma escolha racional, é um impulso. Também não significa que não devam pagar por seus delitos.

Existe uma circunstância que me é inevitável nestas passagens: eu sempre penso que poderia ser um filho meu. Tenho filhos da idade destes pobres personagens que agora se encaminham ao calvário. Mas já vi mães chorando no pronto-socorro a morte de seu filho bandido. Elas diziam “Ele sempre foi um bom menino. Foram as companhias e a maldita da droga”. Como não entender que, para uma mãe, este filho – por mais degenerado que seja – será sempre seu guri, que

“Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar”

Eu prefiro não cultuar o ódio por essas figuras, todas elas. Quando vejo se disseminar o gozo da vingança sinto um gosto de fel, que sempre me assusta e angustia.

Eu já fui alvo de ataques desse tipo, em especial na internet, por ter opiniões que ofendiam algumas pessoas. Vi gente fazendo discursos enormes carregados de ódio e que sequer me conheciam. Percebi que nestes momentos eu era colocado em um lugar e ocupava um posto. Não exatamente o que eu era, mas o que queriam que eu fosse. Nessa topografia eu podia ser atacado sem dó ou piedade. Eu era a “coisa” a ser destruída, e para isso não havia problema algum em me arrancar a humanidade.

A última vez que expressei meu sentimento com esses linchamentos fui vítima – que surpresa – de um pequeno linchamento por parte de uma antiga companheira. Defender que estas pessoas em desgraça sejam tratadas com alguma humanidade soa ofensivo para quem já sentiu algumas das dores que eles disseminam. Mas, para mim, passada a raiva inicial – quando me esforço por nada dizer – me assombra a imagem de um menino, sua face surpresa diante do mundo, suas dúvidas, seus projetos, suas paixões e seus sonhos. Ao lado dele um homem de túnica branca e barba sobre a pele escura, o dramaturgo cartaginês Publius Terentius Afer, o africano. Ele me olha e balbucia palavras que acompanho de memória. “Homo sum: humani nihil a me alienum puto”.

“Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Aquele menino poderia ser eu, se o meu caminho tivesse o mesmo rumo que o dele.

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O Cipó

Eu já vi esse filme, e acho que podemos estar errando de novo. O supremo empoderamento da voz das pacientes e o descrédito da versão dos médicos pode eventualmente se voltar contra os próprios profissionais humanizados. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Criar demônios, desumanizando-os, não é certo nem justo. Criamos personagens sem matiz, a vítima e o carrasco, o bom e o mau, e isso raramente conta toda a história.

Hoje o foco das acusações é um intervencionista que muitos dizem ser arrogante, alguém que debochava da humanização e do parto no modelo de parteria. Espero que ele receba um julgamento justo por seus erros. Todavia, essa mesma energia vingativa que muitos lançam para ele pode voltar, como cipó de aroeira no lombo daqueles que agora apontam dedos. Já vi esse fenômeno, e sei como ocorre.

Eu recomendo cuidado com essas narrativas. No fundo não existe nenhuma diferença essencial entre médicos e pacientes; todos são gente, com suas falhas, erros, virtudes e acertos. Um certo cuidado com a história que se forma seria uma boa atitude.

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Adeus amor…

Durante muitos anos escutei os lamentos de dor das mulheres cujos parceiros ganhavam asas e partiam. Eram histórias carregadas de sentimento, de afetos cortados, de amores interrompidos, de partidas, de camas vazias, de perguntas sem resposta.

Uma dessas histórias me marcou pela tristeza da protagonista. Ela era tão grata ao ex-parceiro que jamais se permitiu odiá-lo, e também porque percebeu a dor compartilhada pela chegada do fim. Certa noite chegou em casa do trabalho e encontrou o marido sentado no sofá da sala, no escuro, com a cabeça entre as mãos e soluçando. Atônita, abraçou-o e perguntou o que havia ocorrido. Como ele não respondia, questionou se houve “algo no emprego”, “dinheiro”, “sua mãe”, “família” e ele só movia a cabeça negando.

Subitamente, ela percebeu que só lhe restava como alternativa aquilo que mais temia. “Sou eu, então?” disse ela, o que ele respondeu balançando a cabeça afirmativamente, gesto que se repetiu quando ela fez a pergunta derradeira e fatal:

– Então… você não me ama mais?

Em outras vezes a reação trazia a crueza das feridas abertas. Indignação, raiva, desprezo. Choro e ranger de dentes. E quanto mais odiavam, mais dolorido era o luto. Aprendi errando a não dizer nada nessas horas. Acabei descobrindo que a identificação com o “outro opressor” podia ser facilmente estabelecida.

“Vocês são sempre assim, todos iguais!!!”, diziam algumas, esperando uma “defesa da classe” que com o tempo percebi inútil e ineficaz. Eu apenas silenciava, oferecendo minha mudez como eco às suas lágrimas. Eu intuía que aquela quantidade imensa de projetos e planos fracassados, transformados em cinza de sonhos, precisava encontrar na palavra seu necessário escoadouro.

Muitas vezes quis abraçar e acalentar estas almas sofridas, mas sabia o quão arriscado estes movimentos são. No fim, creio que o melhor é permitir que a dor de esgote, que curse seu caminho por completo, que passe por todas as paragens e que siga até o fim da linha. Sem atalhos ou desvios.

O Merthiolate do tempo acabava servindo como remédio infalível. A ardência corrosiva do abandono aos poucos dava lugar à aceitação, e depois dela a reconstrução. Para muitas era possível entender e perdoar, abrindo espaço para um novo amor. Sabiam elas que odiar era “adorar pelo avesso”, impedindo o corte duro e necessário dos laços que outrora foram sua razão de viver.

Escrevi isso porque meus ouvidos encontraram “Atrás da Porta” hoje, onde Chico Buarque, na voz de Elis, conta todas estas milhões de histórias com a simplicidade genial dos poucos versos.

“Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar

Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua”

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Amores e ódios

Qualquer paixão busca reciprocidade. O admirador quer ser reconhecido e, assim, quer ver devolvido todo o amor que lança ao seu ídolo. Cuidado com seus adoradores; eles um dia mandam a conta. Para aqueles que que emitem opinião ou lideram uma causa o admirador demanda que você jamais o decepcione, ou será um traidor. E lembre: quando você desaponta quem lhe devotou tanto afeto o retorno será em ódio. Em verdade, os ódios mais poderosos e inexoráveis surgem de amores frustros. Afinal, as mãos que tanto lhe acariciaram um dia poderão lhe agredir.

Meu conselho: antes que você seja a vítima de tanto ressentimento exija que suas palavras jamais assumam para os outros os contornos de Verdade. Permita-se a humilde posição do mero pecador.

Jeremy W. Penske, “Love and Hatred in the realm of the Soul”. Ed. Printemps, pág. 135

Jeremy Wallis Pence foi ensaísta, escritor e roteirista. Nasceu em Pensacola, na Flórida em 1936. Estudou em Yale onde completou os estudos em História Americana e depois em Psicologia. Escreveu vários livros sobre psicologia, psicanálise e comportamento (como Love and Hatred…) e sobre a obra de Erich Fromm, de quem foi aluno e admirador. Morreu em Mirtle Beach em 1996, vítima do naufrágio do barco Aurora Borealis. Deixou viúva sua esposa Agnes e seus quatro filhos, Joseph, Moses, Larry e Rita.

“Any passion seeks reciprocity. The fan wants to be recognized and, therefore, wants to see all the love he sends to his idol returned. Watch your admirers; one day they will send you the bill. For those who issue opinions or lead a cause, an admirer demands that you never let him down, or you will be a traitor. And remember: when you disappoint those who have devoted so much love to you, the return will be in hatred. In truth, the most powerful and inexorable hatreds arise from frustrated loves. After all, the hands that caressed you so much one day may attack you.

My advice: before you are the victim of so much resentment, demand that your words never assume the contours of Truth for others. Allow yourself the humble position of the sinner.

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Sobre familiares no parto

Lembro de dezenas de relações maravilhosas relacionadas à presença da mãe (futura avó), durante o parto, mas também testemunhei meia dúzia de situações dramáticas causadas pela presença desta personagem, e algumas vezes do próprio marido. Só é possível avaliar a adequação dessa presença analisando caso a caso, e a decisão deve sempre ocorrer na perspectiva da gestante.

Imaginar que a presença da mãe – ou do marido – seja sempre uma boa ideia é não reconhecer as infinitas experiências possíveis criadas nestes relacionamentos. Medo, angústia, dívidas amorosas, fragilidade e falta de confiança nos profissionais podem ser os fatores determinantes desse convite, suplantando a proposta meritória (e por vezes romântica) de comunhão familiar.

Pior ainda, essas emoções negativas podem estar (e frequentemente estão) escondidas e inconscientes, e tudo que vemos na superfície é uma máscara de confiança, amorosidade e afeto. Infelizmente, esta aparência toda se dissolve diante das dificuldades ou desafios do trabalho de parto; onde existia harmonia e carinho pode aparecer ressentimento, impaciência e cobranças do passado. Daí para uma obstaculização definitiva do processo é um passo.

Assim, fica claro que não há como criar regras rígidas e aplicáveis a todos para a participação de futuras avós, maridos e filhos. Tudo o que podemos fazer é estabelecer princípios gerais (silêncio, não interferência, auxílio nas tarefas, etc) adaptados a cada situação particular.

Nenhuma mulher chora, ri ou goza igual às outras, e nenhuma vai parir de mesma forma como qualquer outra mulher já pariu. O parto é uma face da sexualidade feminina e sua expressão é tão própria do sujeito quanto suas digitais.

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Dia dos Pais

Sim, acho muito errado usar esse dia para esses ataques aos homens e aos pais, mas parece que as mídias sociais ficam recheadas de mensagens negativas sobre eles. Apenas peço que usem os outros dias para isso. Nunca vi alguém publicar algo destrutivo, ressentido e agressivo contra mães e mulheres no dia das mães. “Ah, mas não existe mãe ruim”.

Existe sim. Muitas. Milhares, milhões. Mães que abandonam, que maltratam e que espancam. Mães que até matam. Mas elas são a ÍNFIMA MINORIA das mães. A IMENSA MAIORIA das mães é feita de mulheres devotadas e amorosas com seus filhos e sua família, e no dia dedicado a elas não seria justo tratar o todo por uma parte tão insignificante.

Pois a maioria dos pais ao meu redor se preocupa com seus filhos, com as suas crianças e se dedica a elas. A maioria diria com toda a força dos pulmões “mulheres e crianças primeiro!!” diante de uma tragédia. Não pensaria meio segundo em arriscar a vida em nome dos filhos.

Entretanto, muitas mulheres aproveitam esse dia para atacar o masculino e a paternidade e o usam para despejar seu ressentimento contra todos os pais. Não poderei jamais ver isso com bons olhos. Façam isso nos outros dias. Aproveitem o dia dos pais para elogiar os bons pais que existem. Aproveitem para reconhecer NESSE ÚNICO DIA, as qualidades da paternidade. Quem não tem bons exemplos no seu pai ou seu marido fale genericamente, dos outros pais, do genro, do sogro, de quem quiser. Respeitem um dia entre 365 de um ano.

Esperem SÓ ATÉ AMANHÃ para odiar de novo com todas as forças esses “miseráveis” que andam por aí, “inúteis depósitos de testosterona”.

Só hoje, por favor….

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A dor à flor da pele

O confinamento está trazendo à tona o pior e o melhor de nós. Um conselho do vovô: quando você sentir que está entrando na espiral do ódio dê um passo atrás. Não se permita infectar pelo vírus do ódio e do ressentimento. O mundo cibernético não possui amortecedores afetivos. As letras duras da tela não oferecem os matizes e as nuances de um sorriso, um chimarrão compartilhado, um aroma de café ou um tímido levantar de sobrancelhas. Essa dureza se espalha pelo espaço cibernético e pode destruir o tênue limiar de sanidade que está sustentando alguém a centenas de quilômetros. Não seja o mensageiro do rancor e da amargura; se precisar criticar, faça-o, mas “sin jamás perder la ternura”.

Não jogue fora suas amizades, seus amigos e seus parceiros com discussões agressivas, palavras duras, expressões que podem machucar e até destruir. Digo isso exatamente porque me vejo na tentação de fazer isso a toda hora, mas estou aos poucos vendo como isso pode arruinar o dia de alguém, em especial o meu.

Estamos todos tensos e ao mesmo tempo frágeis. Cuide de quem você gosta e não ofereça a elas o subterfúgio fácil da briga e da confrontação violenta. Não perca seu tempo falando para quem deixa claro que jamais vai lhe ouvir. Seja carinhoso, mas também caridoso; se não houver uma interface racional e minimamente respeitosa, afaste-se. Se for necessário, bloqueie, pois é melhor a distância em paz do que a proximidade em conflito inútil.

Todos estamos mal. O mundo tem febre, nosso coração está apressado e nossa face é pálida. Tossimos as angústias de tanta iniquidade purulenta acumulada em nossas entranhas. Suamos por cada poro a falência de um modelo que produziu morte e miséria. Não impeça que a reação a esta enfermidade contenha o próprio processo de cura. Aceite o fluxo transformador da vida e lute por uma realidade mais justa. Pense que essa crise – do grego krisis, decisão, momento difícil – está aqui para que possamos dar um salto quântico e aprender com ela.

Lembre que o que mais lhe incomoda mais se parece com você. Sua raiva lhe ensina, seu ódio lhe orienta e seu ressentimento lhe aponta o caminho. Use esses sentimentos para produzir sua própria cura, mas evite jogá-los em cima dos outros.

Acima de tudo “cuida o que dizes, pois talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê”.

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Ódios

Existem ódios que se fortalecem com o tempo, impregnados pela escuridão do ressentimento, que não se desfazem sequer pela luz matutina da verdade.

Ngai Pan, “Que Tao o Amor?”, Ed. Lumbrusco, pág 135

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Bandidos

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“Qualquer texto que contenha a frase “nós que trabalhamos e pagamos impostos” (para se contrapor aos “pretos molengas e vagabundos que se sustentam do estado”) vem da mesma origem: a classe média ressentida que vestiu verde amarelo e agora vê o Brasil se destroçado por obra da MESMA elite escravocrata que defende a falácia da meritocracia e que falsamente combate a corrupção. A mesma classe que não enxerga um presídio com 80% de negros e continua acreditando que as oportunidades são iguais, “basta querer”. Esse é o mesmo grupo que, sem conseguir se recuperar adequadamente do golpe sofrido com a Lei Áurea, pretende que pobres e negros sejam eternamente cordiais, conformando-se com a desigualdade que sua condição social e racial lhes impõe por viverem no país mais desigual e cruel do mundo.

Bandidos são também – e principalmente – vítimas de uma sociedade cuja engenharia perversa produz a marginalidade e a exclusão como subprodutos inevitáveis.

A Casa Grande jamais aceitou, e jamais aceitará, um país para todos.”

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