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Carnaval e mídia

Não sei quanto a vocês – e reconheço que não tenho autoridade nenhuma para falar desse tema – mas eu perdi totalmente a vontade de ver os desfiles das escolas de samba, e isso há muitos anos. E não tem nada a ver com as gambiarras que são feitas com os carros alegóricos e nem com as antigas conexões das Escolas de Samba com a contravenção e o “jogo do bicho”.

O que eu curtia era o espírito de carnaval que transformava o pobre favelado em artista, permitindo a ele uma noite de sonho, como passista, porta-bandeira ou maestro supremo de uma bateria. O sonho se tornava mais incrível quando na quarta feira a carruagem se transformava em ferro velho, as roupas de príncipe em roupão da fábrica, os vestidos de lantejoulas em uniforme de gari e todo mundo voltava às suas vidas duras e difíceis.

Hoje em dia vejo o desfile de gente branca em carros alegóricos e as câmeras da TV focando nos artistas profissionais que trabalham nas novelas da TV, nos turistas estrangeiros que pagam para desfilar ou nos jogadores dos times cariocas. O desfile não é mais do povo e o que resta a ele é a figuração. Quem vale mesmo é o artista global, que nem sabe onde fica a comunidade, mas recebe um email com a letra do enredo para ensaiar em casa.

Assim profissionalizado o carnaval perdeu todo o encanto que poderia ter.

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Novelas e Cesarianas

Miracle of Birth 01

Na novela das oito (que não começa nesse horário há uns 20 anos) uma cesariana vai salvar uma vida (ou duas), mantendo no imaginário popular a falácia da segurança e da qualidade superior das intervenções sobre o parto.

Uma cultura se faz dessa forma. As novelas para o brasileiro são como os filmes e seriados para os americanos. O que se diz ali recebe uma marca de validação cultural, um “selo de verdade”, que será deglutido facilmente pelo telespectador. Sim, as verdades novelísticas não tem “osso nem casca”, portanto passam sem dificuldade pela garganta do consumidor. Uma lástima que isso ocorra exatamente agora, quando estão cada vez mais intensas as campanha governamentais a respeito dos perigos decorrentes da banalização da cesariana.

Quando eu vejo estas cenas logo me vem à memória o filme dos Monty Python de 1982 debochando da violência obstétrica – The Miracle of Birth – e percebo que há exatos 32 anos passados eles já percebiam o poder da mídia para – através do humor – estimular importantes transformações sociais. A Inglaterra pôde fazer sua grande virada na atenção obstétrica de agora porque há mais de três décadas plantou no coração de seus cidadãos a semente da indignação contra as práticas obstétricas agressivas, defasadas e que não levavam em consideração o desejo da mulher. Enquanto isso nós ainda mantemos o status-quo: um parto controlado por especialistas, mulheres sem autonomia e altas taxas de intervenção. Muito bom para os poderosos que controlam o nascimento, mas péssimo para mães e bebês, que continuam a pagar esta conta.

Mais uma vez a TV Globo atrapalha as conquistas da sociedade civil. Os que pensam na saúde das mulheres e seus bebês terão uma cota extra de mitos para desfazer.

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