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Pulsão materna

A vontade de ser mãe não é um desejo genuíno? É culturalmente construído? Bem, podemos pensar que o patriarcado tem 100 séculos, portanto muito recente para uma humanidade que tem 200 mil anos de idade. Passamos 95% da nossa existência fora do patriarcado, que é uma criação social razoavelmente nova.

Entao eu pergunto: como era antes disso? As mulheres tinham filhos por qual razão? Não havia “pulsão” sexual e desejo de gestar? Todo o desejo de maternar é socialmente construído? Ou, como penso, socialmente “moldado”, mas pertencente à essência de qualquer espécie?

Penso que o desejo de ser mãe é genuíno e constitutivo. É feminino e essencial (da essência, para além da cultura). Não há grupamento animal em que esse instinto não apareça de forma gritante e violenta, irrefreável e inexorável, obedecendo ao único ditame pétreo da vida: a sua perpetuação.

Por outro lado, não aceitar como fato o relógio biológico que a natureza criou nas entranhas femininas não faz nenhum sentido. Como querer negar que uma mulher perde gradativamente sua capacidade reprodutiva ao passar dos 40 anos? E como negar que os homens a mantém indefinidamente? Tenho parentes homens que foram pais depois dos 50, coisa que não ocorreu com nenhuma mulher da minha família. A senescência ovariana, e a consequente perda da capacidade reprodutiva, talvez sirvam mesmo ao que alguns antropólogos chamam de “efeito avó” que aumentaria o sucesso reprodutivo das comunidades primitivas.

Sem dúvida que é possível falar da sociedade que massacra as mulheres com um essencialismo reprodutivo anacrônico. É válido inclusive denunciar uma cultura que coloca a maternidade como única forma de expressão social das mulheres. Todavia, a exaltação de todas as outras potencialidades femininas não pode chegar ao ponto de negar a pulsão de vida inscrita e expressa na maternidade ou não reconhecer a importancia do relógio biológico. E este tal “Relógio biológico” apita mesmo e, por isso, as mulheres que desejam gestar e parir precisam levar em conta que o relógio não perdoa. Aí estão as “clínicas de fertilidade” em cada esquina que não me deixam mentir.

Circunscrever a felicidade ou a realização da mulher à maternidade é uma tolice, que aos poucos vai desaparecendo na cultura. Porém, acreditar que na inexistência de um desejo genuíno de gestar, ou que não existe um tempo (curto nos dias de hoje) para parir, é muito pior.

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Arquivado em Parto, Pensamentos